Resenha - Iced Earth - Iced Earth
Por Alexandre Avelar
Postado em 28 de maio de 2003
Na década de 30, quando Robert Johnson gravou, com seu violão, as bases do que viria a ser o rock'n'roll vinte anos depois, ele não apenas estava criando um novo estilo de se tocar blues, ele estava dando às cordas de seu instrumento um novo "status".
Ao longo dos anos surgiria a guitarra elétrica, que faria a fama de "bluesmen" como B.B. King, e se tornaria o símbolo do rock'n'roll (com a ressalva dos pianos maravilhosos de Little Richard e Jerry Lee Lewis), através do rhythm'n'blues de Chuck Berry, Buddy Holly e tantos outros, passando pelas inovações de Jimi Hendrix, Pete Townshend, Jeff Beck, Jimmy Page e Ritchie Blackmore.
Embora haja controvérias, nenhum guitarrista definiria melhor o estilo que seria mais tarde denominado HEAVY METAL do que Tony Iommi, com seus riffs que definiram o estilo do Black Sabbath e foram a maior influência para que Glenn Tipton e K.K. Downing lançassem a semente do que viria a ser a NWOBHM, representada por Motorhead, Samson, Iron Maiden, Saxon, entre outras.
Os anos 80 foram a "época de ouro" do Heavy Metal, muitas bandas estavam em grandes gravadoras, surgiram milhares de sub-gêneros, do death ao melódico, até que, no final daquela década, a saturação empurrou o metal de volta ao "underground", o que favoreceu o crescimento de gravadoras menores, como a Noise, SPV, Metal Blade, Earache, Century Media, entre outras.
Enquanto isso ocorria, o que era "underground" e "alternativo" nos anos 80 virou coqueluche nos 90, e a tosqueira punk do "grunge" passou a ser considerada a raíz do "novo" heavy metal. Assim, enquanto bandas como Judas Priest, Queensryche, Metallica, e até o nosso Sepultura tentaram se adaptar aos novos tempos, outras tantas, fiéis às raízes do estilo, pareciam condenadas à extinção.
É aí que chegamos ao Iced Earth, que, juntamente com o Nevermore, só viria a obter o devido reconhecimento anos depois, após muita persistência e através de grandes dificuldades.
Confesso que só "descobri" o Iced Earth quando "Something Wicked..." foi lançado no Brasil (assim como só vim a conhecer o Nevermore através do "Dreaming Neon Black"), e, na época, apesar de todos os clichês apresentados, e apesar de alguns timbres do vocalista Matt Barlow, que não me agradaram, fiquei impressionado pelo vigor dos riffs do guitarrista Jon Schaffer.
Depois de alguns anos, eis que a Century Media me presenteia com os álbuns originais do início da carreira do Iced Earth, com novas capas e arte gráfica.
Quanto a esse álbum de estréia, há algo de mágico, que de alguma forma se perdeu nas regravações feitas para o "Days Of Purgatory" (o mesmo pode ser dito em relação a "Night Of The Stormrider" e "Burnt Offerings"), e que pode ser sentido pela sequência das músicas, onde há uma certa continuidade nos riffs e bases de Schaffer, embora o disco não seja conceitual. É algo que eu não sentia desde minha primeira audição do LP de estréia do já citado Black Sabbath, onde até faixas predominantemente instrumentais como "Sleeping Village" pareciam inseridas dentro de um contexto, a exemplo do que ocorre com "The Funeral" neste CD do Iced Earth.
É claro que há um certo exagero em comparar Schaffer a Iommi, mas não é demais lembrar que, assim como Schaffer, Iommi também já foi muito criticado por suas "semelhanças" com outros guitarristas da época, como Jimmy Page, Mick Abrahams e Martin Barre, fora o fato de ter centralizado a banda em torno de si e de sua guitarra, característica que Schaffer também herdou de seu mestre.
O que se ouve neste disco de estréia do Iced Earth vale praticamente pelo trabalho de guitarras e pelas ótimas composições calcadas no heavy tradicional com toques de thrash metal, já que o vocalista Gene Adam mostra-se bastante limitado, e a produção é bem simples, sem os requintes que marcariam os discos seguintes. Aliás, essa história de músicas calcadas em riffs de guitarras, produção simples...também não lembra o Black Sabbath em seus primórdios?
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