Resenha - Sumday - Grandaddy

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Por Ricardo Seelig
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Nota: 10

Ao contrário do que muitos pensam, ainda existe originalidade no rock and roll. E não poderia ser diferente. O rock é, desde o seu surgimento, a forma mais poderosa e visível de expressão adolescente. Toda banda começa fazendo barulho, e com o tempo descobre o seu caminho, o seu som.

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O Grandaddy foi formado em 1992 na cidade de Modesto, na ensolarada California, pelo skatista Jason Lytle, vocalista, guitarrista, eventual tecladista, principal compositor e também produtor da banda. O grupo é completado pelo baixista Kevin Garcia, pelo baterista Aaron Burtch, pelo guitarrista Jim Fairchild e pelo tecladista Tim Dryden.

O som dos caras é bastante similar à fase atual do Flaming Lips, também americano, com a diferença de que o som do Grandaddy consegue unir psicodelismo e pop de uma maneira única (basta ouvir a versão dos caras para "Revolution", dos Beatles, presente na trilha do filme "I Am Sam" - aliás, conhecer este cover é uma excelente maneira de entrar no estranho mundo da banda).

"Sumday", lançado em 2003, é o quarto álbum do grupo (anote aí os anteriores: "A Pretty Mess By This One Band", de 1996 ; "Under The Western Freeway", de 1997 ; e o excelente "The Sophtware Slump", de 2000). E o que chama a atenção logo de cara é a união de melodias originais com uma enorme quantidade de refrãos grudentos, guiadas pelo vocal peculiar de Jason Lytle (o cara canta o disco inteiro como se acabasse de acordar, mas, ao contrário do que se poderia pensar, isso não soa chato nem sem graça - você ouve o CD e não consegue imaginar as canções de outra maneira).

O álbum abre com a deliciosa "Now It's On", que conquista imediatamente por ser uma típica canção pop, alegre, divertida, daquelas que nos fazem pensar em como este termo foi tão maltratado no decorrer dos anos por nomes tão equivocados quanto Britney Spears, N'Sync e todo aquele bando de enlatados americanos. Ao ouvi-la você entende, ou volta a acreditar, ou finalmente conhece, o quanto a união entre o rock and roll e a pop music pode gerar músicas inesquecíveis (era isso que os Beatles faziam, afinal de contas).

O CD continua a rolar, e você dá de cara com "I'm On Standby", a canção perfeita para se ouvir em uma segunda de manhã, a caminho do trabalho. Com uma leve pitada country, é uma canção ao mesmo triste e otimista, melancólica e cheia de esperança. Belíssima.

"The Go In The Go-For-It", "The Group Who Couldn't Say", a espetacular "El Caminos In The West" e "Yeah Is What We Had" nos levam de volta aos tempos de adolescente skatista de Jason Lytle, como se, com o passar dos anos, o tempo não tivesse passado só para a banda, mas também para a turma que se reunia para ver o grupo tocando na garagem. "El Caminos In The West" é uma das melhores músicas não só do álbum, mas de toda a carreira da banda.

Em contraste com esta faceta mais rock and roll, "Lost In Your Merry Way" tem um arranjo melancólico baseado em acordes de violão e magníficas linhas de teclados. Sabe aquelas músicas que você ouve e imagens se sucedem em sua cabeça, como um filme ? Bem, esta é uma delas.

Mas, como você bem sabe, existem canções que definem álbuns. Foi assim com "Beggars Banquet" e "Sympathy For The Devil", "Led Zeppelin IV" e "Stairway To Heaven", "Zuma" e "Cortez The Killer", "Number Of The Beast" e "Hallowed Be Thy Name" e inúmeros outros. Em "Sumday", esta canção é "Saddest Vacant Lot In All The World". Construída sobre uma frase de piano simples, traz um Jason Lytle cantando com o coração na boca. Belíssima, é uma daquelas canções que você ouve a primeira vez e tem certeza de que vai te acompanhar por toda a vida.

O bom é que, depois de tudo isso, o CD ainda não acabou !!!! "Stray Dog And The Chocolate Shake" se contrapõe perfeitamente a "Saddest Vacant Lot In All The World". Enquanto essa última mostra toda a capacidade lírica da banda, a primeira parece uma seqüência da clássica "AM 180" (presente no segundo álbum do grupo e também na trilha do filme "Extermínio", do diretor Danny Boyle, o mesmo de "Trainspotting"). Com uma melodia de teclado inocente e até mesmo infantil, nos lembra que o rock, na boa, é antes de tudo diversão.

Fechando o álbum com chave de ouro, o Grandaddy nos entrega três ótimas canções. "OK With My Decay" é Jason Lytle pensando sobre a vida, lamentando sobre o seu conformismo diante das coisas. É a canção mais pessoal do disco, e musicalmente a mais próxima do álbum anterior, "The Sophtware Slump", com belos arranjos de piano e teclado. "The Warming Sun" é uma balada composta novamente sobre o piano, e em alguns momentos lembra músicas do início da carreira solo de John Lennon, logo após os Beatles. "The Final Push To The Sum" fecha o álbum e serve como resumo de tudo o que se ouviu ao longo das onze canções anteriores: melancolia e otimismo, tristeza e otimismo andando de mãos dadas, costurados em uma seqüência de melodias e refrãos memoráveis, que ficam na cabeça por um bom tempo.

O Grandaddy ainda não é muito conhecido no Brasil, o que é uma pena. Eu poderia resumir o som do grupo como um Radiohead sem a bad trip, mais otimista e menos deprê. Mas eu não consigo colocar em palavras o que a banda transformou em música em "Sumday". É melhor você ouvir e tirar a sua própria conclusão.

Faixas:

1. Now It's On
2. I'm On Standby
3. The Go In The Go-For-It
4. The Group Who Couldn't Say
5. Lost On Yer Merry Way
6. El Caminos In The West
7. "Yeah" Is What We Had
8. Saddest Vacant Lot In All The World
9. Stray Dog And The Chocolate Shake
10. OK With My Decay
11. The Warming Sun
12. The Final Push To The Sum




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Sobre Ricardo Seelig

Ricardo Seelig é editor da Collectors Room - www.collectorsroom.com.br - e colabora com o Whiplash.Net desde 2004.

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