Genesis: dois álbuns que não existiriam se não fosse pela banda
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 19 de março de 2016
Influenciar gerações, criar estilos, repercutir anos após sua desintegração/morte não é para qualquer artista. Obviedades como Beatles, Stones, Kraftwerk, Bowie ou Moroder estão nos corações e mentes de qualquer comentarista musical e também de ouvintes mais ou menos casuais. Saber elencar qual influência dependerá do repertório do ouvinte e pode até não importar, mas diverte como exercício de arqueologia pop.
O Genesis é uma daquelas bandas que provavelmente passe despercebida como fonte perene de inspiração e influência por gerações. Desprezada na era Collins e praticamente esquecida pelos críticos especializados na era Gabriel, o impacto genesiano não se sente nos artistas da moda, tanto midiáticos quanto de crítica. Uma das razões da existência do Neo Prog, a banda inglesa segue sendo copiada/homenageada no underground (neo-)progressivo quase 20 anos após sua dissolução.
Selecionei 2 álbuns encharcados de Genesis
Ellesmere é um projeto de Roberto Viteli, baixista/guitarrista do bombástico Taproban, banda prog italiana. Com convidados, Viteli lançou o álbum Les Chateux de la Loire, na manhã de setembro. São 13 faixas, 11 das quais uma longa suíte separada em pedaços, homenageando castelos situados às margens do rio francês. Quem curte o pastoralismo do Genesis fase Trespass, o trabalho-solo de Anthony Philips e Steve Hackett de meados dos 70’s e gemas líricas italianas como o Celeste não pode deixar escapar essa pérola.
Le Narrateur começa com o abrir de uma porta, passos e uma empostada voz britânica declama um texto enquanto ao fundo se ouve o crepitar de uma lareira. O narrador não é ninguém menos do que Anthony Philips, que nos abre a porta para essa jornada de harpejos, violões de 12 cordas e ruídos de pássaros, água corrente, chuva e infelizmente tiros, que entremeiam cada faixa.
La Noire traz um tema de flauta executado por John Hackett, que se repetirá ao longo da suíte, assim como um par de outras melodias e solfejos. Hackett aparecerá também em Blois e Chaumont-sur-Loire e, coincidência ou não, essas canções não destoariam de algum álbum de seu irmão Steve Hackett nos 70’s ou início dos 80’s.
Sully-sur-Loire traz aquele teclado que fará conhecedores de rock progressivo italiano identificarem sua filiação ao sub-sub-gênero na hora. Meung-sur-Loire e seus violões, flautas e teclados plangentes cativarão amantes de MPB mineira anos 70. Essa navegação fluvial durará até Au Revoir... quando o narrador se despede, caminha até a porta e a fecha deixando o ouvinte ainda em estado de pasmo.
Seria o fecho de um disco quase tão perfeito quanto Principe di un Giorno (1975), do Celeste, mas Viteli escolheu adicionar 2 faixas, que anticlimatizam a suíte sobre o Loire. Pelo menos o fechamento da porta e a saída do narrador na faixa anterior indicam-me que a homenagem ao rio fora-se com suas águas.
The Ancient Samovar com vocal sem graça parece interminável, mesmo com sua instrumentação geladinha de segunda metade prog setentista. O fecho do álbum, Wintry Afternoon, tem melodia linda que inicia meio minimalista para ganhar corpo e vir acompanhada com barulho de vento. É bonita, bastante, mas depois daquela senhora suíte...
Les Chateux de la Loire está no Soundscape, basta clicar no link:
Se é para discutir/detectar/expor influências, que tal uma dupla batizada de Unifaun? Nad Sylvan e Bonamici se conheceram num fórum de discussão sobre o Genesis. o anglo-sueco e o sueco usaram o neologismo gabriélico para nomear homonimamente seu álbum de 2008.
A palavra aparece na solene abertura quase a capela de Dancing with the Moonlit.
Can you tell me where my country lies?
Said the unifaun to his true love's eyes.
It lies with me! cried the queen of maybe
- for her merchandise, he traded in his prize.
O significado de "unifaun" sempre dividiu os fãs. "faun" vem do mitológico e caótico fauno, mas "uni" viria de uniform ou unicorn? Seja qual for a origem, o jogo de palavras estabelece tensão entre ordem e caos ou entre uma Inglaterra romantizada e outra capitalistamente voraz. Lembrando que o unicórnio simboliza pureza, uma vez que apenas virgens conseguiriam capturá-lo. Além disso, o pangaré chifrudo aparece no brasão da Rainha Elizabeth II e sua antecessora no nome também adotava a criatura como símbolo.
Grosso modo, Unifaun soa como se o Genesis tivesse lançado álbum com sobras de estúdio em 1975. Tamanha homenagem/cópia também dividiu radicalmente opiniões: há quem ame apaixonadamente por lembrar os áureos tempos genesianos, há quem execre como blasfêmia herética por tentar emular Gabriel e seus Anjos. Para os não genesianos, isso não deve assustar: independentemente de ser pastiche ou não, exceto por umas 2 faixas menos expressivas no final, Unifaun traz lindas melodias, riffs de cortar corações, viagens instrumentais e muito profissionalismo, valendo demais ouvi-lo. Para o connoisseur de Genesis que decida não o odiar aprioristicamente, fica a diversão/o pedantismo de esmiuçar as canções para descobrir sua origem dentro do cânon genesiano.
Birth of a Biggie, com sua melodia marcante e refrão grudento, abre em clima absoluto de The Lamb Lies Down on Broadway, álbum do qual também sai o teclado borbulhante de A Way Out, que traz riff derrete-coração de Mr. Scrooge. To The Green Faerie saiu de qual faixa de Tresspass? Mr. Marmaduke and the Minister traz teclado dialogante como o de Dodo e história com personagens à Gabriel. A lindíssima ReHacksis desacelera a correnteza de Mellotron de The Cinema Show e a longa Quest for the Lost Virtue também tem clima The Lamb..., mas abre referenciando Dancing With the Moonlit Knight e tem trecho com teclado fantasmagórico à Entangled. Tudo cantado por Sylvan e sua voz que não se decide se é Peter ou Phil; sendo ambos, sendo nenhum.
Esta playlist jura ter a dúzia de canções:
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