Em defesa da piada do Massacration

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Em defesa da piada do Massacration


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Eles têm poucas músicas próprias. Seus shows não costumam durar mais do que meia-hora. Na verdade, eles não são REALMENTE uma banda - mas sim um grupo de humoristas tirando sarro com os maiores clichês do heavy metal. Mas, mesmo assim, o Massacration se tornou sensação no Brasil, conquistando os headbangers tupiniquins de tal forma que a brincadeira do grupo Hermes e Renato cresceu mais do que o seu programa na MTV e acabou na estrada, em turnê, abrindo os shows do Sepultura e tornando-se destaque nos últimos "Video Music Brasil", premiação maior da MTV nacional, e também no "Brasil Metal Union". Assim como o Spinal Tap, os Blues Brothers e os Commitments, eles saíram da ficção e se tornaram realidade.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Mas, mesmo assim, como era de se esperar, eles não são unanimidade. Sim, existe aquela pequena tribo de puristas chatos que acreditam que a existência da banda é uma forma de "denegrir a imagem dos verdadeiros headbangers", como parte de uma campanha da MTV e blábláblá. Outros, como o colega Bruno Sanchez, até se divertem com as traquinagens dos sujeitos, mas acreditam que a piada está indo "longe demais".

Para defender o meu ponto de vista, juntei aqui alguns argumentos para tentar provar que, além de ser uma piada muitíssimo divertida, o Massacration também ajudou, em algum ponto, a dar mais força ao cenário metálico no Brasil. Acompanhe:

1) ELES SÃO MUITO ENGRAÇADOS

Seja sincero: os caras reúnem toda a sorte de elementos absolutamente típicos do metal. Nada ali é mentira. Sim, é óbvio que eles exageram - até porque é daí que o humor sobrevive. Qualquer caricatura é feita, antes de tudo, com base no exagero.

Mas vai mentir que o Manowar, por exemplo, não carrega quase todos os clichês sacaneados por Detonator e companhia? Como os próprios humoristas do Massacration já disseram em entrevista ao "Jornal da Tarde", o Manowar é uma espécie de "Village People" do metal, usando e abusando da teatralidade. Se você leva a trupe de Eric Adams 100% a sério, talvez você não ache graça no Massacration. Agora...cá entre nós. Chega pertinho aqui. Ninguém vai ouvir. Vai mentir que você nunca deu pelo menos uma risada ao ver as capas de "Into Glory Ride" ou "Fighting The World", com os caras do Manowar posando de tanga de couro e com os corpos besuntados em óleo? :-)

E na minha opinião nada modesta, uma das maiores qualidades do ser humano é saber rir de si mesmo. Os próprios músicos do Manowar se divertem muito com toda esta aura que eles criaram ao redor de si mesmos. Basta dar uma olhadela em qualquer um dos quatro DVDs "Hell on Earth". O que me leva ao segundo item...

2) ELES MOSTRARAM QUE OS HEADBANGERS SABEM RIR

A tremenda aceitação que o Massacration teve entre os headbangers, sejam eles fãs ou os próprios músicos, repercutiu de maneira extremamente positiva na imprensa e mesmo na sociedade. Muita gente achava que aquele bando de gente de preto que curte metal era, na verdade, uma legião de satanistas mal-humorados e emburrados. Qualquer coisa que nos permita tirar esta visão preconceituosa da cabeça das pessoas já é um passo importantíssimo - como, por exemplo, a participação do Shaman (ou Shaaman, como queira) no "Rock & Gol" e no "Covernation", da MTV, provando que headbangers são pessoas absolutamente normais. Bom, talvez um pouco mais cabeludos.

O fato é que um pouco de humor não faz mal pra ninguém, headbanger ou não - que o diga, por exemplo, o Edguy. Ok, talvez o exemplo não seja dos melhores - porque diversos headbangers puristas simplesmente abominam o grupo liderado pelo folclórico Tobias Sammet. Mas é fato: o humor é parte deveras importante do som e também da atitude deste quinteto alemão. Eu costumo dizer, aliás, que Sammet é um dos frontmans mais divertidos do metal. Na última entrevista que fiz com ele, o cara disse, com propriedade, sobre este assunto: "Nos dias de hoje, ainda existem os radicais. Na Alemanha, por exemplo, quem curte black metal com certeza nos odeia. 'Eles estão pulando e sorrindo no palco, isso é ruim!' (risos)".

3) ELES GOSTAM MESMO DE METAL

Os mais céticos podem duvidar, mas é verdade. A brincadeira recorrente, no programa "Total Massacration", com o grupo Slayer é coisa de fã. Muitas das piadas que eles fazem na TV só os fãs de metal vão entender - e, portanto, seria necessário um fã de metal para escrever aquilo.

O Bruno Sutter, que veste a peruca e a calça de couro do vocalista Detonator, já teve uma porrada de bandas. Atualmente, ele é o frontman do grupo Death Tribute - que só toca aquelas podreiras absurdas e brutais do Death, ícone do metal idealizado pelo saudoso Chuck Schuldiner.

Pois é. Ao contrário do que muita gente apregoa: não, eles não fazem playback. Eles tocam de verdade. E muito bem, cá entre nós.

4) ELES INCENTIVAM O METAL NACIONAL

Sem dúvida! Basta ver a enorme quantidade de shows que os caras estão fazendo pelo Brasil, carregando consigo sempre uma série de bandas nacionais locais para tocar na mesma noite. Atraída pelo sucesso e pela curiosidade sobre como seria uma apresentação ao vivo do Massacration, a molecada acaba lotando estas apresentações e, por tabela, prestigia e conhece um pouco mais do trabalho de grupos do metal underground nacional.

Isso, com certeza, me leva ao próximo item, um dos mais discutidos entre os fãs mais antigos do gênero...

5) ELES TROUXERAM NOVOS FÃS PARA O METAL

Para muitos, isso não é exatamente a melhor coisa do mundo - e poderia ser considerado o pior defeito do chamado "efeito Massacration", para falar a verdade. Mas é fato: os moleques de 13, 14, 15 anos, ouvindo um som com guitarras como CPM 22, Detonautas e Charlie Brown Jr. na MTV, acabam se simpatizando com o Massacration. É tudo muito engraçado, e tal. Mas também é, apesar das piadas, um som muito mais pesado que estas bandinhas que infestam os Top 20 da emissora fazem. E isso pode servir como uma excelente porta de entrada para que garotos e garotas já acostumados ao Massacration e à bandas de apelo mais, digamos, "palatável" como o Nightwish possam conhecer ooooooooooutros muitos sons dentro do mesmo gênero.

Esta é a molecada da geração internet, com a curiosidade pelo novo cada vez mais aguçada. Toda informação é compartilhada muito rapidamente. Não demora para que o moleque que começou a ouvir Massacration descubra o Whiplash! ou a Rock Brigade, por exemplo. E descubra novas bandas - que ele pode muito bem baixar rapidamente por qualquer software de compartilhamento de arquivos para saber do que se tratam. Eu mesmo conheço pelo menos cinco garotos que começaram a ouvir metal com o Massacration e, hoje em dia, já chegaram ao Venom e ao Saxon. Pensem nisso: afinal, certa vez, um crítico de música da mídia tradicional disse que "o metal está fadado a morrer, porque seus fãs vão envelhecer e será o ponto final, porque os mais jovens não se interessam mais por isso e não existe reciclagem". Eu, particularmente, acho que ele estava enganado.

Ok, ok. A reclamação de muitos fãs das antigas é que esta "horda" da "geração Massacration" invade os shows devidamente trajados com suas camisetas do Massacration, gritando as palavras de ordem do Massacration e pedindo as músicas do Massacration, fazendo uma tremenda bagunça. Mas tudo que eu tenho a dizer é... cacete. Vocês nunca tiveram 14 anos, afinal de contas? ;-)

6) ELES TROUXERAM O METAL DE VOLTA PARA A TV

Ah, pode parar de reclamar. Quanto a isso, não dá para negar. Tudo bem, o "Total Massacration" só tem meia-hora. Mas é um espaço inédito nos últimos anos, na TV aberta, para ver os novos clipes de heavy metal - que não caberiam na programação normal da MTV - e ainda rever clássicos como "Holy War", do Megadeth, ou "Antisocial", do Anthrax. A programação de vídeos do programa é excelente, por mais que você deteste as piadas dos caras. Não chega a ser o "Stay Heavy", mas é um espaço considerável no universo do mainstream. Para quem sentia saudades do riff de "Metal Militia" na abertura do "Fúria", já é um bom caminho.

Por último, mas não menos importante, não dá para deixar de falar também, é claro, do CD dos sujeitos - o divertidíssimo "Gates Of Metal Fried Chicken Of Death" (Deckdisc). Gravar o álbum, de acordo com os críticos mais ferozes do Massacration, foi a gota d'água. Eles teriam ultrapassado todos os limites, todas as fonteiras do bom-senso com os fãs do "verdadeiro metal" e...e...e...

E lá vamos nós de novo começar com todo aquele bullshit.

Sejamos sensatos: o Massacration é uma piada. Um piada divertidíssima... mas nada mais do que uma piada. Em diversas entrevistas e no próprio encarte do disco, os integrantes do grupo admitem isso. E nunca tentaram se vender como algo além disso. O Massacration é, desde o começo, rigorosamente aquilo a que se propôs. Logo, fico intrigado por perceber que tem muita gente por aí que leva os caras mais à sério do que eles mesmos.

O segredo é entender o Massacration como uma piada. Eles são bons músicos, o instrumental das faixas é ótimo... mas é uma piada. Para você rir. Exatamente como foram os Mamonas Assassinas. Era música para rir. Só isso. Dinho e cia. eram muito bons, deixaram pitadas de The Clash e Dream Theater pelo álbum inteiro... mas nunca deixaram de ser uma piada.

Por que, então, eles não colocaram o álbum inteiro na internet, ao invés de lançar um disco por uma gravadora? Ué. E só porque é uma piada, os sujeitos têm que morrer de fome e não podem garantir o leitinho das crianças? O Costinha e o Ary Toledo gravaram diversos discos repletos de piadas... e ganharam por isso. O álbum do Massacration é uma piada... mas é parte do trabalho dos caras do Hermes & Renato. Eles gastaram muito tempo compondo, gravando, produzindo, mixando. E quando a gente trabalha, a melhor coisa (e mais justa, aliás) é receber por isso.

Eu uso bermuda. E não uso black forever. Mas gosto bastante do Massacration. Tire essa carranca da cara e sorria um pouco, homem! Já te contaram aquela piada do pintinho que vinha correndo, e o galo correndo atrás? :-)


Thiago Cardim, 26 anos, é publicitário e jornalista, editor-chefe do site A ARCA (www.a-arca.com) e um dos responsáveis pelo blog metálico webBANGER (www.webbanger.cjb.net). Escuta metal desde os 13 anos de idade, graças ao Iron Maiden - e suas bandas favoritas são Queen e o Blind Guardian. Mas também ouve muito Stratovarius, Rhapsody, Edguy, Manowar, Sebastian Bach, Mötley Crüe, Jeff Scott Soto... além, é claro, de bandas nacionais como o Matanza, Ultraje a Rigor, Tubaína e as Velhas Virgens.

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Sobre Thiago El Cid Cardim

Thiago Cardim é publicitário e jornalista. Nerd convicto, louco por cinema, séries de TV e histórias em quadrinhos. Vegetariano por opção, banger de coração, marvete de carteirinha. É apaixonado por Queen e Blind Guardian. Mas também adora Iron Maiden, Judas Priest, Aerosmith, Kiss, Anthrax, Stratovarius, Edguy, Kamelot, Manowar, Rhapsody, Mötley Crüe, Europe, Scorpions, Sebastian Bach, Michael Kiske, Jeff Scott Soto, System of a Down, The Darkness e mais uma porrada de coisas. Dentre os nacionais, curte Velhas Virgens, Ultraje a Rigor, Camisa de Vênus, Matanza, Sepultura, Tuatha de Danaan, Tubaína, Ira! e Premê. Escreve seus desatinos sobre música, cinema e quadrinhos no www.observatorionerd.com.br e no www.twitter.com/thiagocardim.

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