A cantora que achava que o Kiss representava o pior que havia no rock
Por Bruce William
Postado em 18 de junho de 2026
Quando Patti Smith chegou aos palcos de Nova York, o rock começava a descobrir que podia crescer tanto quanto os lugares onde era apresentado. As bandas ocupavam arenas, os equipamentos aumentavam, cenários ficavam mais elaborados e explosões passaram a disputar atenção com as músicas. Para muita gente, aquilo era a evolução natural do espetáculo. Para ela, havia alguma coisa se perdendo no caminho.
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O exemplo mais fácil era o Kiss. Com maquiagem, personagens, plataformas, fogo, sangue cenográfico e bombas espalhadas pelo show, o grupo parecia construído para transformar cada apresentação num acontecimento visual. Paul Stanley e Gene Simmons entendiam perfeitamente o impacto de uma imagem e jamais demonstraram vergonha de tratar a banda também como empreendimento.
Patti Smith vinha de outra concepção. Sua ideia de rock havia sido formada por poetas, músicos negros, pela energia de Jimi Hendrix, pela presença de Jim Morrison e pela combinação de linguagem e ruído que encontrou no Velvet Underground. O palco podia ter teatralidade, mas ela não queria que o aparato ocupasse o lugar da inquietação política, espiritual ou artística.

Perguntada anos depois se alguém representava o "inimigo", ela respondeu: "Eu não achava que uma banda como o Kiss representasse a direção na qual eu queria ver o rock and roll seguir. Mas não seria justo apontar o dedo apenas para eles; a atmosfera daquela época caminhava para os espetáculos de luzes e as bombas de fumaça."
A ressalva muda bastante o sentido da declaração, pontua a Far Out. O Kiss aparecia como o rosto mais visível de uma tendência, não como único culpado por ela. O rock de arena havia se transformado numa indústria, e o público passou a esperar que um ingresso comprasse também uma experiência visual grandiosa. Mesmo bandas sem maquiagem já recorriam a lasers, cenários, pirotecnia e todo tipo de recurso disponível.
Em 1975, quando o Patti Smith Group lançou "Horses", essa lógica recebeu uma resposta quase oposta. A capa mostrava Smith de camisa branca, paletó sobre o ombro e nenhuma tentativa de oferecer fantasia. Na música, "Gloria" começava com uma provocação e avançava como se poesia, garage rock e improvisação tivessem sido colocados no mesmo quarto pequeno. Não havia necessidade de uma explosão a cada refrão.
O Kiss seguiria ampliando o espetáculo e transformando sua imagem numa das marcas mais reconhecíveis do rock. Patti Smith tomou o caminho contrário, apostando na palavra, na presença física e na tensão criada por uma banda tocando quase sem proteção. Quando falou em luzes e bombas de fumaça, ela não discutia apenas um grupo: questionava o momento em que o aparato começava a se tornar mais importante do que aquilo que acontecia por baixo dele.
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