Tenho um velho amigo que mantinha, há muitos anos, uma pequena lojinha de discos, que era o "ponto de encontro" dos malucos em geral, onde vez por outra aparecia alguém ainda mais maluco trazendo consigo (des)informações (muitas vezes absurdas, mas que rendiam um bom papo-cabeça), ou algum material que era desconhecido da galera, pois na época do bolachão as coisas eram bem mais difíceis que nos tempos atuais, onde é possível arrumar qualquer coisa - afinal, se saiu um dia, alguém têm, e na pior das hipóteses se consegue um "genérico" (leia-se CDR). Aliás, este meu amigo, fã roxo do LED ZEPPELIN, com certeza irá aparecer outras vezes por aqui, haja visto co-protagonizar episódios pitorescos que servirão de "gancho" para algumas matérias, ao mesmo tempo em que lhe presto uma espécie de homenagem, pois embora tecnicamente falando esteja vivo, certos excessos surrupiaram-lhe boa parte dos neurônios...
Mas eis que, numa bela tarde de sábado, apareço na loja para marcar ponto, e dentre os visitantes habituais, me deparo com um sujeito meio baixinho, gordinho e com um bigodinho mexicano (só faltou o sombrero), que falava desembestadamente, ao mesmo tempo em que dava impressão de estar nos encarando de cima para baixo, como se a afirmar sua superioridade perante nós, pobres mortais, que não desfrutávamos de tamanha sapiência e conhecimento...
Explico melhor: acontece que o tal mexicano fake de nariz empinado afirmava ser possuidor de uma coleção de não sei quantos discos (5.000? 8.000? Não lembro ao certo, mas era algo assombroso para a época), que havia viajado o mundo inteiro, que conhecia fulano, sicrano e bertano pessoalmente, e não sei o que mais.
Como quantidade não é sinônimo de qualidade, me imiscui na conversa, e curioso, perguntei-lhe: "mas que tipo de discos você têm?"
Mantendo o ar blasé, ele respondeu sem me dirigir o olhar: "Meu negócio é Rock paulêra, tenho tudo que você conhece e muito mais. E só importado, que disco brasileiro não presta!"
Putzgrila!!! Vá lá que o indivíduo fosse realmente o Rei da Cocada, mas na hora senti vontade de arrancar fio por fio do bigodinho com uma pinça, pois se há uma coisa que acho ridícula são pessoas que se auto-intitulam o máximo do máximo (como já disse em outras ocasiões, não sou dono da verdade, tampouco pago aluguel), e o pedantismo do cara era algo digno de figurar no Guinness Book...
Mas como me valho da diplomacia até o último momento, só parto para a violência se for para me defender (ao contrário de certa autoridade máxima de um determinado país da América do Norte), decidi tentar trocar idéia civilizadamente com o sujeito, objetivando absorver um pouco de seu "conhecimento", pois até então estava levando-o a sério.
Humpf! Nunca ouvi tanta asneira em tão pouco tempo, o cara era realmente um maluco completo, e a gota d'água veio quando meu amigo colocou para rolar uma fitinha K7 que eu havia levado com minha então última aquisição, que era o "Vincebus Eruptum" do BLUE CHEER, e o maluco exclama: "Cara, muito legal este disco da Janis!".
"Hããã???", perguntei, e ele respondeu: "Comprei este disco aí da Janis numa loja na Austrália, minha prensagem é original inglesa blá-blá-blá...".
"Ah, sim, claro!", respondi, e em seguida emendei: "Muito legal mesmo este disco - sabia que é Hendrix quem está na guitarra?", e pouco tempo depois estávamos discutindo sobre a influência dos Círculos Megalíticos de Stonehenge na Cosmologia Universal, e outros temas similares...

Além destes três, é certo que na época já existiam bandas experimentando sonoridades mais radicais, como por exemplo THE TROGGS, e em relação a riffs "pesados", desde 1964 o pessoal do THE KINKS já vinha tocando "You Really Got Me". Mas no quesito "esporro sonoro", sem dúvida o BLUE CHEER deixa todos os citados a anos-luz de distância, e ainda por cima antecede dois luminares do gênero, que são o MC5 e o STOOGES.
Por outro lado, é curioso notar que, indo totalmente na contramão da história, enquanto as bandas se tornavam mais pesadas e esporrentas, o BLUE CHEER foi cada vez mais suavizando suas composições, a ponto de seus trabalhos de 1969-71 serem extremamente "polidos", em comparação com os dois primeiros, parecendo de fato se tratar de outro grupo.

Já faz algum tempo que Peterson vêm dizendo que pretende lançar um livro contando detalhes sobre as turnês do BC, onde de acordo com ele ocorriam os fatos mais pitorescos possíveis. Enquanto tal livro não sai, vamos ver um pouco da história do grupo, compilada a partir de diversas fontes, vez por outra contraditórias entre si.

Metade do sexteto não aguentaria o tranco da primeira turnê, deixando para trás os três remanescentes (Stephens, Whaley e Peterson), que decidem a partir de então amplificar ainda mais o volume de suas apresentações, ao mesmo tempo em que adotam o nome BLUE CHEER, inspirado num potente tablete de LSD que circulava por lá naqueles tempos, e que teria, de acordo com a lenda, sido criado pelo químico Owsley Stanley, coincidentemente ou não um dos "patronos" da banda (anteriormente ele havia trabalhado com o GRATEFUL DEAD).

Stanley mantinha relações com o pessoal do Hell's Angels, e por seu intermédio o grupo acabou sendo "adotado" pelos motoqueiros, a ponto de ter sido a companheira de um deles, Nancy Winarick, quem bancou o primeiro registro sonoro do BC, um tape com três canções, gravado num estúdio local.
(Nancy era companheira de Allen "Gut" Turk, tatuador, artista plástico, velejador e "montador de Harleys", que seria o responsável pela arte gráfica dos dois primeiros álbuns da banda).
Uma cópia deste tape histórico (que aparentemente não sobreviveu até os dias de hoje, sequer os integrantes dizem tê-lo) acabaria indo parar nas mãos de Abe "Voco" Kesh, disc-jóquei de uma rádio em São Francisco, que não somente o tocaria em seu programa, mas acabaria por se oferecer para empresariar o grupo, tendo conseguido firmar um contrato com a gravadora Mercury Records.
Com isto, eles registram seu primeiro álbum, tendo Abe assinado como produtor, embora se diga que sua única contribuição neste sentido tenha sido o fato de ter cortado quase dois minutos de "Summertime Blues", para que a canção se encaixasse no padrão radiofônico na época.

Analisado friamente, as músicas diferem entre si quase que somente nas introduções, e se tratam de uma mera desculpa para uma espécie de jam-session caótica e atonal, executada com muitíssimo vigor por um guitarrista que compensava sua deficiência no instrumento com altíssimas doses de distorção (sem usar nenhum pedal de efeito!), um vocalista que aparentava estar no limite de suas cordas vocais, ao mesmo tempo em que mantinha basicamente os mesmos acordes de baixo, e um baterista que "socava" sua bateria com muita fúria.
Tal fúria era tão intensa, que Pete Townshend confessaria ter ficado assustado com a banda, que abriu um show do THE WHO na Califórnia, em 21 de fevereiro de 1968.


Embora viessem fazendo um relativo sucesso local (impulsionado principalmente pelo comparecimento em massa dos companheiros do Hell's Angels em seus shows), surgiram atritos entre Peterson e Stephens, com o primeiro querendo mudar o direcionamento musical do grupo, resultando na saída do guitarrista, substituído por Randy Holden.



Apesar de ainda trazer resquícios da fúria dos dois primeiros álbuns (principalmente nas faixas com Randy), o "New! Improved!..." está bem distante de ambos, até porquê neste época o BC já havia perdido seu posto de "banda que tocava mais alto ao vivo", a ponto de ter sido derrotado pelo THE LITTER (que futuramente aparecerá aqui nesta coluna) numa espécie de "competição" realizada em Chicago.



Devido à profusão de integrantes que passaram pelas fileiras do BC, seria impossível relatar todos seus trabalhos aqui neste espaço, por isso vamos nos ater somente ao power-trio original.






Em 1979, Peterson tenta em vão remontar o grupo, mas o projeto não deslancha. Somente cinco anos mais tarde é que ele conseguiria trazer à tona novamente o então já lendário power-trio com 2/3 da formação original, pois convence o baterista Paul Whaley a aderir ao projeto, tendo na guitarra Tony Rainier.

Existe também uma versão de "Boney Maroney" destas sessões de gravação, que foi editada somente numa compilação com diversas bandas, mas que pode ser encontrada em MP3 nos "file-sharing" por aí...







De modo geral, os discos lançados pelo grupo entre 1969-71 são recomendados somente para quem gosta das bandas Folk/Psicodélicas do final da década de sessenta, pois seus trabalhos aliam tais estilos com algumas pitadas de Blues, Pop e até da "Country Music" dos EUA; já os álbuns posteriores vão agradar somente aos fãs roxos do BC, e que tenham predisposição a ouvir um som mais "pesado".
Mas quem ainda não conhece absolutamente nada do BLUE CHEER, e têm um mínimo de interesse pela história do som "pesado", seja lá em que vertente for, digo enfaticamente: vá correndo batalhar uma cópia dos dois primeiros álbuns, coloque para rolar o "Vincebus Eruptum" bem alto e cante junte com Peterson:

Se preferir, posso mandar um certo "mexicano" lhe fazer uma visita, levando consigo um disco raro da Janis...
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Nascido no milênio passado. Empresário falido, atualmente sobrevivendo de "bicos" diversos (dentre eles, professor de contabilidade - tenho cara?). Fanático por hard-rock e congêneres das décadas de 60/70, Hendrixmaníaco de carteirinha. Acha que apenas três coisas valem a pena na vida: Mulheres (mas dão um trabalho!), Rock'n'roll em geral e Motocicletas. Quando morrer, conforme combinado com o saudoso Heavyman (RIP), vai ser enterrado com um CD do Black Sabbath (ele levou um do Jimi Hendrix para a eternidade...)
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