O quê, quando, como, onde e porquê?

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Por Marcos A. M. Cruz
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Tudo começou quando, numa de minhas visitas à Cactus (loja de discos da Galeria do Rock em Sampa), assim que apontei na entrada, um dos proprietários disse: "aí, chegou mais um hardeiro!". Estaquei por uma fração de segundo, o suficiente para meu cérebro decodificar o adjetivo com o qual fui alcunhado como sendo derivado de Hard - mais precisamente, de Hard Rock "das antigas". Sorri enquanto cumprimentava alguns velhos conhecidos, e registrei a palavra num canto da memória, para retomá-la posteriormente com mais atenção.

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Bem mais tarde, após horas e horas de audição e discussão sobre pérolas perdidas no passado, devidamente regadas a loiras estupidamente geladas, peguei-me no metrô rememorando o ocorrido, enquanto folheava o encarte do CD ao vivo do November. Minha primeira reação foi de júbilo, ao constatar que eu fazia parte de uma "tribo" - afinal, por mais ermitão que seja um indivíduo, no fundo todos gostamos de pertencer a algum grupo, e transparecer uma certa superioridade perante outros mortais que, coitados, sequer fazem idéia dos segredos que só nós, membros desta suposta "sociedade secreta", somos detentores...

Porém, minha expressão triunfante subitamente esvaiu-se quando constatei que, na realidade, eu não era detentor de segredo algum, e muito pelo contrário, estava mais perdido que cego em tiroteio, ao perguntar para mim mesmo, e não obter resposta:

"mas, afinal, que catzo vêm a ser exatamente este tal de hardão setentista???"



Uma das grandes máximas atribuidas a Einstein é a que reza que "tudo é relativo" (embora estudiosos afirmem que ele de fato nunca disse isto com estas palavras). Independente de ter sido o gênio linguarudo o autor ou não (teria sido ele uma das fontes inspiradoras de Gene Simmons?), considero esta uma das maiores verdades já elaboradas pela humanidade!

Claro que o sentido original da frase acima não era relativo à questões, digamos, "abstratas" (ou talvez fosse, sei lá!), mas ela se encaixa como uma luva quando vamos nos reportar a algo como, por exemplo: "quem é mais bonita, Déborah Secco ou Sheila Mello?". Duvido que alguém tenha uma resposta objetiva e inquestionável para a pergunta...

Como faz parte da humanidade o hábito de classificar, catalogar tudo que nos cerca, logicamente não poderia ser diferente quando se trata de transmitir em palavras que tipo de som a banda X faz. E sendo assim, resolvi perguntar informalmente a alguns experts no assunto o que seria Hard Rock Setentista:

- "Hardão? Caramba, é um som bem pesado, com bastante ênfase na 'cozinha' (baixo, bateria), e com um vocal áspero". (Luís Peixoto).

- "Riffs, riffs e mais riffs de guitarra." (Rodrigo Freitas).

- "(...) o que percebo de imediato é a marcação rítmica sem variações, reta, sem mudanças, e os arranjos padronizados, o uso do teclado apenas na base, de maneira pouco harmônica, e a falta de ênfase dos elementos jazzísticos e/ou de Blues originais. E independente se tocam 'pesado' ou não(...)" (Paulo Pacheco).

- "Eram bandas que na década de setenta aliavam uma marcação precisa do baixo e bateria com uma guitarra distorcida e uma cama de teclados fazendo fundo para canções energéticas, vibrantes, que davam vontade de acompanhar ou batendo o pé ou agitando a cabeça - mas sem os excessos da galera do Heavy Metal." (Carlos Pereira).

- (...) "orgãos Hammond, vocais crus, bateria pesada, baixo aveludado e muitos riffs e solos de guitarra. Tudo cru!" (Eduardo Lemos)

Como a coisa ainda permanecia confusa, resolvi apelar para os profissionais do ramo:

- (...) "Com seus instrumentos ligados ao máximo, tivemos o Hard Blues. Quando se diminui as frescuras dos instrumentos, chega-se ao Hard Rock e, finalmente, ao Heavy Metal." (Leopoldo Rey e Gilles Philipe em "Livro Negro do Rock", 1984)


- (...) "Rock 'pesado' e alto é algo que existe desde o início do Rock'n'Roll, mas ao final dos anos sessenta, parecia que havia uma espécie de competição entre artistas como Jimi Hendrix e Cream no sentido de se tocar o mais alto e pesado possível. Hard Rock é considerado uma expressão respeitosa em comparação com seu irmão, o Heavy Metal, tanto que alguns se referem a Hard como algo que não machuca os ouvidos, ao contrário do Heavy(...) separo o Hard Rock do Heavy Metal da seguinta maneira: em primeiro lugar, o hard possui suas raízes mais próximas ao Blues, e tematicamente costuma se valer de temas mais objetivos, tais como mulheres e sexo, amor e sexo, paixões e sexo, ao contrário do Heavy, que retrata castelos, demônios e outras fantasias. Naturalmente, há muitas bandas que trafegam entre ambos os estilos(...)" (Ryan Atkinson, ensaio)

- "Embora inicialmente as bandas que faziam Hard-Rock fossem voltadas para sons mais experimentais, com o tempo elas foram se aproximando cada vez mais da música Pop, sendo atualmente sua ênfase calcada em 'singles', ao contrário do que acontecia no passado. Entretanto, há aquelas que resolveram apelar de vez para o Heavy" (Phil Hardy, em "The Encyclopedia of Rock" - vale mencionar que este livro foi editado em dezembro de 1975!).

- "Na primeira vez em que alguém distorceu uma guitarra, inaugurou uma outra variante do Rock que representaria sua imagem esteriotipada aos frágeis ouvidos do não-iniciado: o Heavy-Rock (Rock Pesado) ou Rock-Pauleira, como é mais conhecido, quebrava com as seqüências mais melodiosas do Rock-tipo-Beatles e atendia a um mercado mais feroz e ansioso por uma batida mais violenta que faria Chuck Berry parecer o terceiro violino da Filarmônica de Nova Iorque." (Paulo Chacon em "O que é Rock", 1985)

De cara fica patente a dificuldade em se estabelecer limites entre Hard Rock e Heavy Metal, embora já na época, como constatado acima, alguns sugerissem a expressão Heavy Rock, para definir as bandas que faziam um som mais pesado que o habitual (mas há controvérsias: mais de uma pessoa me disse que era tudo muito simples: ou o cara ouvia Rock Progressivo ou Rock Pesado, não havia esta "frescura" de divisões e subdivisões, que nos assola hoje em dia...)

De qualquer forma, tentei mais uma vez achar uma definição clara, me valendo de um recurso que nós, que costumamos escrever sobre música, lançamos mão quando vamos descrever uma determinada banda: compará-la com outra mais conhecida, de preferência algum "baluarte" do gênero ou algo parecido...

Mas, até isto rendeu uma boa polêmica, pois quem seria este "baluarte"?


- "Warhorse, Grand Funk ('Survival' toscão) e Captain Beyond." (Eduardo Lemos).

- "Grand Funk na cabeça!" (Sandra Reis).

- "O 'Machine Head' do Purple é o melhor disco do gênero" (Rodrigo Freitas).


- "'Strangers In The Night', do UFO, para mim é o melhor disco de Hard Rock de todos os tempos." (Marco Aurélio).

- (...)"mas existe um limite, que é quando o Hard passa para Heavy(...) Algumas bandas fizeram esta transição(...) o UFO se inscreve na segunda categoria." (Paulo Pacheco)


- "o disco de estréia do Captain Beyond." (Carlos Pereira)

- (...)"o Captain Beyond é progressivo, o som deles é muito elaborado(...) com certeza, os primeiros discos do Grand Funk!" (Luís Peixoto)

perceberam o drama da coisa?


Como a coisa tava beirando papo de maluco em manicômio, decidi eu mesmo estabelecer determinados limites para esta coluna (afinal, sou ou não um ser pensante?):

1º ==> Antes de mais nada, vou deixar bem claro para todos que o que vamos tratar aqui é de discos lançados entre 1968 e 1978; portanto, se o leitor estiver pensando em achar material sobre bandas que fizeram sua estréia após este período, nem perca seu tempo - nada contra, é que simplesmente foge à proposta da coluna;


2º ==> A ênfase vai ser dada a bandas pouco conhecidas, por isso "medalhões" como Uriah Heep, Deep Purple e outros não vão aparecer por aqui, até porque material sobre eles é abundante, e meu objetivo é comentar coisas que acho fantásticas, mas que infelizmente são desconhecidas da maioria das pessoas (estão previstos agora no começo Buffalo, Dust, Captain Beyond, Irish Coffee, November e outros);

3º ==> Inicialmente minha idéia seria disponibilizar músicas (inteiras ou não) em formato MP3, afinal, além de nem todos terem exatamente os mesmos gostos (de repente eu posso achar algo maravilhoso, e outra pessoa achar "meia-boca"), muito deste material é dificílimo de ser encontrado, além de geralmente custar os olhos da cara. Mas, infelizmente, devido à questões legais, isto não vai ser possível;


4º ==> Algumas pessoas que souberam do meu projeto, me pediram comentários sobre bandas tais como 2066 And Then, Odin, Goodthunder e outras que, na opinião de outros, estão mais para Progressivo que Hard Rock... outros gostariam de ver Light Of Darkness, May Blitz e Hookfoot... humm... baseado na indefinição exata sobre o que seria o estilo, tomei a seguinte decisão: tudo o que não for "puramente" Progressivo (como, por exemplo: Museo Rosenbach e Nektar), poderá eventualmente aparecer por aqui (o que alguns chamam de "Hard Prog"); deixo as bandas "clássicas" de Progressivo a cargo de meu colega Cláudio Fonzi, que é bem mais competente que eu no assunto;

5º ==> Nem sempre, ou melhor dizendo, praticamente nenhuma banda se manteve fiel ao estilo - um bom exemplo seria o Lucifer's Friend, que embora tenha registrado um excelente álbum de estréia dentro do gênero, depois migrou para outras paragens; sendo assim, se o grupo tiver ao menos um disco que possa ser considerado como sendo de Hard Rock setentista, poderá aparecer neste espaço.


6º ==> Curiosamente, embora tenham bandas do estilo em muitos países ao redor do mundo, tais como Toad na Suíça, Jericho em Israel, November na Suécia, Nahuatl no México e muitos outros, em minha opinião, nenhuma banda brasileira registrou algo passível de ser comentado por aqui; o mais próximo que vamos ter será o único disco do "Aeroblus", power-trio argentino que contava com o lendário baterista Rolando Castelo Júnior, que participou do primeiro disco do Made in Brazil e depois foi um dos fundadores do Patrulha do Espaço.

7º ==> Por último, gostaria de salientar que muitas destas bandas são apenas verbetes em enciclopédias, e há uma certa dificuldade em se achar maiores informações sobre elas; aliás, peço aos leitores que, caso queiram fazer algum reparo ou contribuir com algo, por favor entrem em contato comigo, que serão devidamente creditados.


Talvez alguns se decepcionem pelo fato de não encontrar uma definição clara para o gênero, mas até o próprio Denis Meyer, autor do livro "Hard Rock Anthology 1968-1980" se esquivou de fazê-lo, colocando a seguinte citação no texto de abertura:

- "Hard Rock é o estilo musical que está mais próximo de uma sinfonia erudita: o ritmo do baixo e bateria é comparável às cornetas e violinos que dão a base, e a guitarra, os teclados e até os vocais são como os primeiros violinos em seus 'vôos' líricos". (Jimmy Page).

Abraços para todos, espero que gostem,
Marcos


PS.: Este trabalho é dedicado à Sandra, que além de ser uma companheira maravilhosa, ainda por cima é uma "hardeira" de coração e alma!


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