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Snakes & Arrows - Rush

Por Ronaldo Costa | Em 27/05/07
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Foram cinco longos anos de espera até que os fãs pudessem ouvir um novo álbum de inéditas do Rush, que agora comparece com seu mais recente trabalho, “Snakes & Arrows”, um disco que representa uma transição no som do power trio, o qual demonstra ainda ter muita lenha pra queimar.

Nota: 8

O texto representa a opinião do autor e não a opinião do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Fazer comentários sobre um novo trabalho de uma banda após um período curto de audições não é tarefa das mais fáceis, principalmente se a banda em questão for o Rush. O talento e a profundidade das canções do trio canadense fazem com que só após um bom tempo o indivíduo consiga entender realmente a qualidade e dimensão da obra, já que suas músicas parecem guardar uma novidade não percebida antes para cada nova vez em que são ouvidas. No caso de “Snakes & Arrows”, aparentemente, as impressões tenderão somente a melhorar com o passar do dias.

Antes de falar do álbum em si, há de se destacar o trabalho espetacular do produtor Nick Raskulinecz. Este disco traz uma das melhores produções da carreira do Rush, com todos os instrumentos absolutamente nítidos, bem balanceados e mixados, e soando da melhor forma possível, de acordo com a proposta do álbum.

Se tem uma palavra que pode representar bem a atual fase dos canadenses é ‘coesão’. As treze músicas do álbum têm um nível muito próximo. Este é um trabalho que não soa como nenhum outro do grupo, embora carregue elementos de vários de seus discos anteriores. Pode até parecer paradoxal, mas em “Snakes & Arrows” você encontra canções que podem lembrá-lo de alguma coisa do “Vapor Trails”, do “Test For Echo” ou do “Counterparts”, mas você não consegue traçar um paralelo entre a sonoridade dessas obras com o novo lançamento. É provável que o novo petardo da banda divida opiniões e cause desapontamento em alguns, sobretudo nos mais afeitos a um Rush bem progressivo, já que o power trio está com um som que o aproxima muito mais de um rock direto que do prog. O disco tem o seu peso, mas nada de exagerado. O que chama a atenção é que ouvimos um Rush muito melódico, intimista em alguns momentos e com músicas carregadas de drama e tensão. Além disso, a presença marcante de violões em todo o álbum, coisa não tão comum em um trabalho de estúdio do Rush, é mais uma das características desse disco. E há também de se destacar o reduzido uso dos teclados, tão presentes em alguns dos álbuns clássicos da banda.

“Far Cry” é provavelmente a mais acessível do disco e também o tipo de som que normalmente se espera do Rush. Além da ótima levada, traz um refrão melodioso e que não sai da cabeça. A introdução de “Armor and Sword” dá a impressão que vamos cair num rock pesado e virulento, entretanto o que aparece é um trecho melódico que vai ganhando em tensão com o tempo e com as variações de violão para guitarra de Alex Lifeson, que tem nessa música alguns dos melhores riffs de sua carreira, além de entregar um solo distorcido e eficiente. Linda música e com enorme potencial ao vivo. “Workin’ Them Angels” e sua levada meio anos 60 acaba evoluindo para uma sonoridade bem atual, com mais um refrão marcante, que deve funcionar bem nos shows.

A canção seguinte, “The Larger Bowl” é uma balada meio diferente e que traz mais um excepcional solo de Lifeson. Em “Spindrift” temos um dos grandes momentos do álbum, com um clima sombrio e pesado, chegando a ter elementos de prog metal, mas carregando a identidade musical tão peculiar do Rush. “The Main Monkey Business” é a primeira das três instrumentais do disco, a mais complexa delas, cheia de variações e alternância de climas. A introdução totalmente ‘blueseira’ de “The Way The Wind Blows” precede uma das melhores faixas de “Snakes & Arrows”, com arranjos belíssimos e mais um solo de Lifeson que impressiona pela inspiração, que também se mostra em doses cavalares, mas de uma forma totalmente diferente, em “Hope”, uma música instrumental levada apenas pelo violão de Mr. Alex e com resultado bem interessante. Enquanto “Faithless” e “Good News First” parecem ter saído de “Vapor Trails”, “Bravest Face” segue a linha melódica. A terceira instrumental, “Malignant Narcissism”, não é a mais complexa delas, mas é a mais eficiente, com um duelo entre baixo e bateria onde Geddy Lee e Neil Peart brincam à vontade com seu virtuosismo. Fechando a obra, “We Hold On”, uma puxada no hard rock.

Os vocais de Geddy Lee parecem ter atingido um outro estágio em termos de maturidade e melodia. Já o seu baixo está cada vez mais poderoso, desta vez recebendo um destaque tão generoso na mixagem, que deixaria até Steve Harris com uma ponta de inveja. Neil Peart mais uma vez se mostrou um gênio enquanto letrista, com palavras sinceras, por vezes provocadoras, mas que, invariavelmente, fazem o indivíduo parar para raciocinar. Atrás de seu kit, mostrou a já conhecida competência e técnica, apesar de ter desfilado todo seu estilo de maneira um pouco mais discreta e sem extravagâncias. Agora, o dono da festa foi Alex Lifeson. Nesse disco, o cara simplesmente dá um show em todos os sentidos. Percorre todas as músicas com extrema elegância e com variações de sons, timbres e riffs geniais. Como se já não bastasse, a presença constante de violões por todo o álbum, que trazem bem escondida uma influência de música celta e que são capazes de esculpir todo o clima de tensão e drama já citados nessa obra, dão o tom de toda a versatilidade de Alex.

“Snakes & Arrows” é o trabalho de uma banda que se recusa a fazer sempre as mesmas coisas, mas que consegue, ao mesmo tempo, carregar uma identidade que faz com que seu som seja inconfundível a qualquer momento. Apenas uma dica: tente ouvir esse álbum com um fone de ouvido de qualidade e num volume alto. Mas tome cuidado para não fazer isso várias vezes seguidas e acabar com uma lesão nos tímpanos. Porque a qualidade desse disco provavelmente irá fazer você ter vontade de escutá-lo repetidamente. E em se tratando de Rush, cada nova audição é uma nova experiência e, geralmente, uma experiência que vai ficando melhor.

Tracklist:
01. Far Cry
02. Armor and Sword
03. Workin’ Them Angels
04. The Larger Bowl
05. Spindrift
06. The Main Monkey Business
07. The Way The Wind Blows
08. Hope
09. Faithless
10. Bravest Face
11. Good News First
12. Malignant Narcissism
13. We Hold On

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Sobre Ronaldo Costa

Nascido na capital paulista em meados dos anos 70, teve a sorte de, ainda bem jovem, descobrir por meio de um primo o debut do Iron Maiden. Quando ouviu “Prowler” pela primeira vez, logo entendeu que aquilo passaria a fazer parte de sua vida. Gosta sobretudo dos clássicos, como Maiden, Judas, Sabbath, Purple, Zeppelin, Metallica, AC/DC, Slayer, mas ouve desde um hard bem leve até um bom death metal. Além da paixão pelo metal e pelo rock em geral, também adora cinema e um bom futebol.

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