Resenha - Strange Days - Doors

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Difícil não é chegar ao topo, mas, como diriam muitos, se manter lá. E este era o desafio proposto para os Doors – para quem ainda não sabe, o mítico Jim Morrison (vocais, poesias e doideiras), Ray Manzarek (teclados e vocais de apoio), Robbie Krieger (guitarra) e John Densmore (bateria). Lançado no final do primeiro semestre de 1967, Strange Days era a resposta do grupo às especulações de jornalistas intrigados com o próximo passo daqueles filhos da praia de Venice, Los Angeles, típicos garotos hippies californianos que haviam incendiado o país com os hits “Break on through”, o mais perfeito casamento do rock com um ritmo latino até hoje (a bossa nova brasileira), e “Light My Fire”, esta, simplesmente, o hino de toda uma era. Não teve o mesmo êxito do álbum anterior, o soturno The Doors, nas paradas, é certo – mas que assustou um bocado de gente, ah, isso assustou!

Em Strange Days, ainda estava lá, intacta, eternizada para toda a posteridade, a filosofia dramática e profunda, repleta de signos da decadência social, do caos, dos limites sensoriais e da loucura que impregnava o bom trabalho dos Doors no auge de sua carreira – e que se perderam um pouco, ao longo de seus anos finais, devido, obviamente, ao desnorteio de que foi vítima a cabeça do grande mentor Jim Morrison de 1968 para frente, envolvido em escândalos, porres e enrascadas maiores do que toda a discografia da banda. O disco abre com a música título, uma brilhante e tribal incursão pela Terra daqueles dias insanos, povoada pelas letras densas de Morrison que encontraram ressonância tanto nas leituras dos jovens americanos perplexos com a guerra fria, com o Vietnam e o rock como instrumento político no Tio Sam, quanto nos olhares furtivos e ocultados dos latino-americanos esmagados pela máquina opressora da ditadura militar por aqui – sim, o tema, figurando um teclado “espacial” pilotado por Manzarek que realmente sugeria uma ida a outro mundo, como nos velhos filmes hollywoodianos de alienígenas comunistas querendo comer criancinhas, era irônico, e era perfeito como uma metáfora do nosso globo, girando em 180 graus de êxtase e perdição, naquela época de grandes mudanças e incertezas.

A ironia do grupo permanece, mas com tinturas mais leves e delicadas, na belíssima “You’re Lost Little Girl” – se muitos me perguntarem, direi “ainda a melhor balada dos Doors”. De uma atmosfera climática, sugerindo um suspense terrível e perigoso na introdução em acordes baixos, nos dá toda a dimensão do poder das letras de Morrison – de “ameaçador”, em versos bastante sutis e minimalistas, ele passa a “ameaçado” por uma garota misteriosa, talvez uma Lolita perversa, que usa o jogo da sedução como principal arma (“Você está perdida, garotinha... / Me conte... quem é você?/ Acho que você sabe o que fazer/ Impossível? Mas é verdade...”). Ainda na mesma faixa, um dos mais paradisíacos solos de guitarra de Krieger, especialmente iluminado neste disco.

Enquanto músicas como “Love Me Two Times” e “My Eyes Have Seen You” sugerem aquele lado mais vaudeville e aquela batida mais acelerada do grupo, “Unhappy Girl” é a típica viagem psicodélica morrisoniana, liderada pelo teclado ensandecido de Manzarek rumo à neura de uma garota infeliz que representava, na verdade, uma visão bastante peculiar do autor sobre a sua parceira fixa, Pamela Morrison, e de todas as outras mulheres de seu vasto círculo pessoal em seus bodes existenciais (“Garota infeliz/(...) Você foi pega aprisionada pela sua própria artimanha”).

A dobradinha “Horse Latitudes” / “Moonlight Drive” traz, para o registro sonoro, dois velhos poemas de Morrison guardados a sete chaves por ele em seu velho caderno de poesias, cultivadas por ele com carinho quando de sua morada em uma choça na praia de Venice, germinando a figura lendária e as palavras que fariam dele o ícone de toda uma geração. Foram escritas em 1965, pouco antes do encontro com Manzarek e o convite para formar uma banda, e como outras poesias desta época, estão embebidas de vinho e mescalina – enquanto a primeira é mais uma viagem conradiana ao Mar Egeu, descrevendo uma trágica cena de cavalos sendo atirados ao mar, a segunda é uma marcha lisérgica em direção a uma lua de sortilégios e devaneios.

Um dos carros-chefe do disco é “People are Strange”, que é uma espécie de comentário a “Strange Days”, só que mais intimista. É a cama perfeita para os vocais a la Sinatra de Morrison se esmerarem, e repete o clima vaudeville, de teatro satírico, sugerido pelo som da banda ao longo de todo o disco. Aliás, é interessante comentar a proposta básica do som dos Doors nesta época, que era justamente esta (juntar elementos de música teatral com blues, música barroca, indiana e latina, ainda apelando para os acordes assombrosos e distorcidos de instrumentos amplificados) – este tipo de som influenciou, ao lado das letras de Morrison, a decisão sobre a capa do elepê. O que vemos é uma cena circense, do tipo “Circo do Absurdo”, com artistas mambembes bizarros em uma performance alucinada. A idéia original de Morrison, como ele contou em uma entrevista na época do lançamento do disco, era a de tirarem uma foto dele cercado por um grupo de cães das mais diversas raças e tamanhos – tudo isso pois o contrário da palavra “cão”, em inglês, é “deus” (“dog” – “god”). Doentio!

Logo após “I Can’t See Your Face In My Mind”, música antiga, dos tempos das apresentações do grupo no Whiskey A-Go Go e no Matrix Club, de Los Angeles, e que deixa de lado o lado rock do single “Break on Through” para se exercitar só numa batidinha bossa nova que quase chegar a ser um “samba” americano (cortesia do grande fã de jazz e baterista exímio Densmore), vem o fecho do disco: a aterradora “When the Music’s Over”.

Paul Rotchild, o produtor deste e dos melhores discos da banda, queria para o final um épico assustador e apocalíptico, da mesma forma que a inesquecível “The End” havia sido para o primeiro disco dos Doors, e discutiu com Krieger e Manzarek a respeito de uma canção que pudesse recriar este conceito de “fim horrível”, “inevitável”, ligando tal imagem com o medo do escuro tão natural aos humanos. Morrison, sempre um entusiasta dos temas mórbidos e obscuros da alma humana, se amarrou de cara e em poucas horas já estava com as letras na mão, pronto a começar a passar o som. Escombros de Nietzche (“O que eles fizeram com o mundo?/O que fizeram à nossa bela irmã?”), e Poe (“A golpearam com facas/ À margem do amanhecer/ E a amarraram com cercas”) são ouvidos por todos os lados. Dessa forma, “When...” segue a mesma estrutura musical da última canção do primeiro disco dos Doors – uma introdução, desta vez, pautada não em uma balada, como era “The End”, mas em uma canção semi-jazzística entremeada de paradas súbitas e intermezzos climáticos de rock pesado, seguida por uma longa divagação de Morrison aos vocais, recitando a letra naquela forma que lhe era tão característica, e retornando ao ritmo do início, para só então terminar Strange Days com um desfecho explosivo e que não deixava nada de pé. As últimas palavras de Morrison na música são, justamente, “The... END!” e, no meio de tudo, um dos mais lancinantes solos de guitarra já gravados na história do rock: o instrumento de Krieger parecia gritar como um animal sendo morto por golpes abissais.

Strange Days foi um marco na época – não só por superar o pueril som básico do primeiro registro da banda, havendo sido gravado pelo novo sistema estéreo de 8 canais (um luxo ao qual os Beatles, a maior banda do mundo na época, só se dariam no Álbum Branco, um ano depois!), como também por ter provado a todos que os Doors ainda tinham muita bala no tambor. A banda coesa e revolucionária que haviam se tornado, uma das mais inventivas e originais do rock de todos os tempos, ainda tinha muita coisa a ser mostrada antes dos compassos finais de sua fatídica desintegração, dada após a morte de Morrison, em 1971.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB – Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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