A canção que fez Ray Manzarek decidir montar os Doors com Jim Morrison
Por Bruce William
Postado em 25 de maio de 2026
Antes de Jim Morrison virar o vocalista cercado por mitologia, prisões, escândalos e histórias de palco, Ray Manzarek conheceu outro lado dele. Não foi o Morrison provocando plateia, cambaleando diante do público ou testando os limites de uma apresentação. Foi um ex-colega da UCLA, meio tímido, encontrado por acaso na praia de Venice, em 1965, dizendo que andava escrevendo algumas músicas.
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Os dois haviam estudado cinema na UCLA e se reencontraram pouco depois da formatura. Manzarek ficaria em Los Angeles; Morrison, pelo menos em teoria, iria para Nova York. Só que ele não foi. Ficou pela Califórnia, vivendo aquela fase estranha entre juventude, poesia, música, cinema, LSD e falta de rumo definido. Quando Manzarek perguntou o que ele andava fazendo, Morrison respondeu que estava escrevendo canções.
A primeira que ele mostrou foi "Moonlight Drive". Manzarek contaria depois que Morrison estava hesitante, quase sem coragem de cantar. Ainda assim, acabou soltando a voz ali mesmo, diante do futuro parceiro. "Ele era muito tímido e muito hesitante, mas finalmente tomou coragem e, em uma voz muito assombrada, profunda, escura, meio melódica, suave e assombrada, começou a cantar 'Moonlight Drive'. Achei que eram as melhores letras que eu já tinha ouvido para uma canção de rock and roll", lembrou o tecladista, durante conversa com a Best Classic Bands.
A cena mostra como os Doors começaram menos como uma "banda pronta" e mais como uma faísca entre duas pessoas que reconheciam algo uma na outra. Manzarek não ouviu apenas uma música. Ouviu uma possibilidade. Aquelas imagens noturnas, aquáticas, sensuais e meio fúnebres já traziam muito do que Morrison faria depois: romance, morte, desejo, cinema e uma sensação de perigo que não precisava ser explicada.
"Moonlight Drive" ainda demoraria para sair oficialmente. A música chegou a ser tentada durante as sessões do primeiro álbum, mas as versões não convenceram a banda. Ela só apareceu em "Strange Days", segundo disco dos Doors, lançado em setembro de 1967, já com Robby Krieger usando slide guitar para reforçar aquele clima escorregadio da faixa. O álbum chegou ao terceiro lugar nos Estados Unidos, enquanto "Love Me Two Times", lançada como single com "Moonlight Drive" no lado B, alcançou o Top 30 da Billboard.
É curioso que uma música tão ligada ao nascimento dos Doors tenha ficado fora do álbum de estreia. O primeiro disco trouxe "Break On Through", "Light My Fire" e "The End", estabelecendo o grupo de forma imediata. Mas "Moonlight Drive" guardava outra função: era o ponto de origem, a canção que fez Manzarek enxergar em Morrison não apenas um poeta estranho da UCLA, mas alguém com quem valia montar uma banda.
Depois, claro, Morrison se tornaria outra figura, relembra a Far Out. Iggy Pop veria nele uma espécie de autorização para levar o caos ao palco. Alice Cooper falaria de seu magnetismo e de sua tendência a viver no limite. O público conheceria o personagem maior, o "Lizard King", o vocalista que parecia transformar cada apresentação em risco. Mas, para Manzarek, a primeira imagem forte foi mais simples: Jim cantando baixo, na praia, ainda antes da explosão.
Talvez por isso "Moonlight Drive" tenha um lugar tão especial na história dos Doors. Não é apenas uma faixa de "Strange Days", nem só uma boa letra de Morrison. É a música que convenceu Ray Manzarek de que havia uma banda ali, antes de haver nome, disco, fama ou tragédia. Os Doors começaram quando um sujeito tímido cantou uma canção estranha para outro sujeito que estava tentando descobrir o próprio futuro. E Manzarek, felizmente, prestou atenção.
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