John Lennon e a sua complicada relação com a fama
Por João Pedro Torres Pieroni
Postado em 11 de junho de 2026
Quem vê entrevistas e declarações do beatle John Lennon, principalmente na época em que a banda ainda estava junta, imagina que o astro era extrovertido, brincalhão e até mesmo ácido. Porém, na biografia da banda, editada por Hunter Davies em 1968, as aparências caem por terra e é possível ver um Lennon mais introspectivo e reservado do que a imagem pública construída durante os anos de Beatles.
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Em um capítulo do livro, intitulado "John", o biógrafo Hunter Davies passa um tempo na casa de Lennon, observando seu dia a dia, falando com pessoas próximas e, claro, com o próprio beatle. Nesta seção, podemos ver como John usava uma máscara publicamente e escondia seu verdadeiro lado. Mais solitário, introspectivo e cansado de todo sucesso astronômico que tinha alcançado com os Beatles. Davies cita que John poderia ficar dias sem falar com ninguém, apenas existindo e pensando, o vocalista confirma: "Sou um especialista nisso. Eu posso me levantar e começar a não fazer nada imediatamente. Simplesmente sento nos degraus, olho para o nada e fico pensando até dar a hora de ir para a cama".
No livro, o beatle admite a dificuldade que tem de manter um contato constante e se relacionar com as pessoas. Ele admite que se força a participar do que ele chama de "jogo", só para ver se consegue se comunicar e manter relações cordiais com as pessoas, mesmo que por meio de perguntas comuns e simples do dia a dia: "Como você está?", "Que horas são?", "Como você tem passado?" No fim, conclui que esse tipo de comunicação é totalmente sem sentido.
John e os Beatles tinham uma espécie de comunicação por códigos, que eles usavam quando estavam rodeados de estranhos: "Nunca nos comunicamos de verdade com outras pessoas. Agora que não nos encontramos mais com pessoas estranhas, não há mais necessidade de se comunicar. Nós nos entendemos. O resto não importa".
Em várias passagens do capítulo, vemos John criticar a fala como comunicação, ele reclama de verbalizar os pensamentos, e cita a prática como "perda tempo", e ainda afirma que a conversa é um meio muito lento para se comunicar, preferindo a música como um meio melhor de se dizer o que quer.
O músico se mostrava irritado quando pensava na "máscara social" que ele e o restante do grupo eram obrigados a usar por serem quem eram, mas garante que tentava ser o mais natural possível. As mesmas perguntas sobre seu corte de cabelo, a obrigação de conhecer e apertar as mãos de gente da alta sociedade como lordes e primeiras-damas parecia deixar John muito irritado, e o lado piadista que virou marca dos quatro Beatles, em entrevistas, se revelou uma grande válvula de escape: "Você não podia ser você mesmo. Elas não entendiam quando você dizia o que queria dizer. Tudo que você podia fazer era contar piadas, o que as pessoas esperavam que eu fizesse de qualquer maneira".
O livro deixa claro que John era o membro que mais sentia por não poder ser um cidadão anônimo. Ir ao cinema, caminhar por aí, fazer compras no mercado eram tarefas impossíveis para qualquer um dos Garotos de Liverpool. Por fim, o músico critica sua falsa personalidade extrovertida, que segundo ele, é uma falácia, criada como mecanismo de defesa para todo aquele sucesso. O verdadeiro John Lennon não era de falar muito.
FONTE: Livro biográfico dos Beatles: The Beatles, a única biografia autorizada
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