Inocentes em Sorocaba - Autenticidade em estado bruto - Uma noite nada inocente para se lembrar
Resenha - Inocentes (Asteroid, Sorocaba, 21/03/2026)
Por Flávia Pais da Silva
Postado em 27 de março de 2026
O que vem à mente quando trata-se de autenticidade?
Autenticidade trata-se de ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros, agindo de acordo com a própria essência, valores e crenças, sem a necessidade de máscaras ou imitações. Envolve autoconhecimento, integridade e coragem para expressar pensamentos e sentimentos genuínos, mesmo que isso desagrade terceiros.
Parto dessa reflexão não por acaso. Ao longo de anos acompanhando apresentações, diferentes propostas e movimentos, torna-se cada vez mais evidente quando algo ultrapassa o entretenimento e se transforma em expressão legítima. E foi exatamente isso que se viu no palco com os Inocentes, no último sábado, 21 de março de 2026, no Asteroid, em Sorocaba/SP.
UMA ESSÊNCIA QUE NÃO SE NEGOCIA
Há trajetórias que se moldam conforme o tempo. Outras simplesmente atravessam décadas mantendo a mesma espinha dorsal. A formação composta por Clemente Tadeu Nascimento, Nonô Luis Fernando, Ronaldo Passos e Anselmo Carlucci se encaixa com precisão na segunda opção.
A autenticidade aqui não é discurso: é prática contínua. É a coerência entre o que se canta e o que se vive. Talvez por isso a longevidade não soe como repetição, mas como reafirmação de propósito.
E essa postura ficou evidente desde os primeiros momentos no palco. Sem rodeios, sem artifícios desnecessários, apenas entrega direta - como sempre foi.

1986: UM RECORTE QUE AINDA RESPIRA
A noite teve como eixo central a celebração de quatro décadas de "Pânico em SP", lançado em 1986. Um ano que, por si só, carrega peso simbólico dentro da música, marcado por obras que atravessaram gerações e consolidaram diferentes vertentes.
Mas, enquanto muitos registros daquele período ganharam releituras mais "comportadas" ao longo do tempo, o álbum em questão permanece como um retrato cru. Um documento sonoro que não envelhece porque nunca tentou se adaptar.
E ao vivo, essa característica se intensifica. Não há suavização. Há impacto.

PRESENÇA QUE CARREGA HISTÓRIA
Um dos pontos mais marcantes da noite foi a presença de Clemente. Após enfrentar questões sérias de saúde entre o fim do ano passado e o início deste, vê-lo firme no palco não foi apenas simbólico - foi poderoso.
Cada música carregava mais do que peso sonoro. Havia ali resistência, continuidade, insistência em permanecer. Algo que dialoga diretamente com a própria essência do punk: seguir, independentemente das circunstâncias.
E o público percebeu isso.

DO PALCO À PISTA: UMA CONEXÃO ORGÂNICA
Se a proposta era intensidade, a resposta veio à altura. A pista do Asteroid rapidamente deixou de ser apenas um espaço físico para se transformar em extensão do palco.
Rodas se abriram, corpos se movimentaram sem roteiro, o mosh surgiu como linguagem espontânea. Não havia distanciamento entre quem tocava e quem assistia - tudo acontecia em fluxo contínuo.
O setlist reforçou essa conexão. Faixas como "Nada Pode Nos Deter", "Garotos do Subúrbio", "Miséria e Fome" e "Pânico em SP" funcionaram como catalisadores de energia coletiva. Já "Salvem El Salvador" e "Expresso Oriente" trouxeram à tona a veia crítica que nunca deixou de existir.
Cada execução parecia menos uma performance e mais um reencontro.

AUTENTICIDADE COMO PRÁTICA, NÃO COMO ESTÉTICA
Retomando a ideia inicial, autenticidade não está na aparência, mas na coerência. Não é sobre parecer verdadeiro, e sim sê-lo - mesmo quando isso implica desagradar, confrontar ou ir na contramão.
E é justamente esse o ponto que diferencia trajetórias duradouras de movimentos passageiros.
Ao longo da apresentação, ficou claro que não há tentativa de adaptação a tendências. O que existe é fidelidade a uma identidade construída ao longo de décadas. Uma identidade que não pede validação externa.
FAÇA VOCÊ MESMO - MAS ENTENDA O QUE ISSO SIGNIFICA
Muito se fala sobre o "faça você mesmo". Um conceito que, em teoria, está ao alcance de qualquer pessoa. E está mesmo.
Mas existe um detalhe importante: fazer por fazer é simples. Fazer com propósito, consistência e verdade é outra história. É o "pulo do gato".
O que se viu naquela noite foi a materialização desse princípio em seu estado mais puro. Não como estética, não como slogan, mas como prática consolidada.
Muitos iniciam. Poucos sustentam.
E menos ainda conseguem transformar essa filosofia em algo que ressoe por tanto tempo sem perder relevância.
Ao final, fica a sensação de que não se tratou apenas de uma celebração de álbum ou de uma apresentação comum. Foi um lembrete.
De que autenticidade exige coragem.
De que coerência cobra preço.
E de que, quando ambos caminham juntos, o resultado não é apenas duradouro - é essencial.
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