Scott Stapp: muito Creed e surpresas em Fortaleza

Resenha - Scott Stapp (Armazém, Fortaleza, 08/11/2019)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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No início dos anos 2000, Fortaleza teve a sua própria MTV. A TV União, nascida no Acre, mas fundada por um cearense, iniciou suas operações na capital cearense com uma programação voltada para o público jovem, com muitos clipes musicais e até VJs que ficaram bastante conhecidos no estado, como Rodrigo Vargas, a ex-BB Natália Lara, entre outros. Foi através dessa TV que se popularizaram os videoclipes de muitas bandas do mainstream da época, uma vez que o alcance das TVs por assinatura ainda não era tão grande e o próprio YouTube ainda demoraria alguns anos para ser criado. Uma das bandas que ganhou o gosto dos jovens fortalezenses nesta época foi o CREED. Canções como "My Sacrifice", "Don't Stop Dancing" e "With Arms Wide Open" tocavam até, eu exagero, "manchar os tubos dos aparelhos televisores". E já no apagar das luzes da segunda década do milênio que começara assim, a voz do CREED finalmente debutou na cidade. Scott Stapp, o cara do sobretudo amarelo, que sobrevivera à "queda dos meteoros" apresentou-se com sua banda solo no Complexo Armazém. Confira abaixo como foi o show. Confira também, na matéria abaixo, o que ele nos contou em entrevista coletiva no dia anterior no Hard Rock Cafe.

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Fotos: Rubens Rodrigues._

ROCCA

Conectando-se àquele tempo, mas olhando para o futuro, a noite começou com a ROCCA no palco. Naquela época do auge da popularidade da TV União, Maurílio Fernandes também lançava seus primeiros álbuns com o SWITCH STANCE e marcava seu nome no rock alencarino, uma bandeira que ele carregaria nos anos seguintes também como produtor e com a ROCCA, banda que ele divide com Daniel Meneses (Baixo, backing vocals e sintetizadores) e Igor Dantas (guitarra e backing vocals). Outro ponto de conexão era o fato de que o trio também acabava de chegar dos Estados Unidos, país de origem de Scott Stapp, onde também fizeram uma série de shows. O show da ROCCA, no entanto, foi extremamente curto. Mesmo se recuperando de uma inflamação, Maurílio pulava muito, se movimentando por todo o palco e empolgando os já presentes no Armazém. "Estamos fazendo o show na raça", disse ele. Acompanhados do baterista Thiago Esquilo, os cearenses iniciaram o show com a enérgica "O Grito", do álbum "¡Bailem Putos!" e seguiram para os mais novos singles, "Diante do Sol" e a belíssima "Cais". Fechando o breve show, Maurílio puxou um coro irresistível pra perguntar "quem matou o anti-herói". Uma pena o show ter sido tão curto (por determinação da produção). Eles podiam ter tocado pelo menos mais umas duas do disco novo (que a gente já ouviu e tá massa).

SCOTT STAPP

A luz entre as sombras é verde. São as primeiras luzes de luzes dos canhões disparados contra o público enquanto Scott Stapp (vocal), Sammy Hudson (baixo), Ben Flanders e Yiannis Papadopoulos (guitarras) e Dango Cellan (bateria) começa a tomar nas sombras os espaços entre as luzes. Scott declama alguma coisa, mas era impossível entender com os gritos dos fãs, pela primeira vez diante do "cara da TV União". "Bullets", do CREED, chama a responsabilidade para si em meio à catarse, mas logo cede lugar a "World I Used to Know", do disco novo de Stapp. Embora, óbvio, claro, lógico, inquestionavelmente, o apelo maior estivesse centrado nas canções da banda que alçou Stapp, Tremonti e cia. ao estrelato, era possível ver muita gente cantando como se fosse música dos anos 90. Os punhos para o ar rivalizando com os canhões de fumaça não me deixam mentir.

"My Own Prison" já chega nesse início de show. Impossível ficar impune. Não dá pra ficar indiferente ao dueto de Scott com Hudson (originalmente era com Tremonti). Yiannis se deita na rede de luz e faz pequenos solos enquanto isso. Um espetáculo. Um espetáculo.

Depois vem o rockão "Face of the Sun", precedido por um ensaio de blues por Yiannis. Agora já não faz a menor diferença se a canção da vez é do CREED ou só de STAPP, "overcome", do último disco que o CREED laçou parece ter sido, a seu tempo, um prenúncio da barra pesada que Scott passaria algum tempo depois e da forma como ele a superou.

Muitos gritos recebem as primeiras notas de "Inside Us All", que o público fez questão de cantar junto, numa altura que até rivalizava com a banda no palco. A inclusão da música era uma surpresa (sorry pelos spoilers, pessoal do resto do país) como ele tinha falado na coletiva (o link está lá em cima). É uma canção que ele não toca há quase três anos e aquele momento era obviamente o resultado da aferição do termómetro das redes sociais. É bom quando os artistas tomam esse tipo de atitude.

Gritaria semelhante, mas sem a mesma cantoria, aconteceu desde os primeiros acordes de "What If", tocada também com muita entrega. Sem muito espaço para solos, o CREED nunca foi mesmo disso, Yiannis mostrava seus dotes nas introduções, fazendo com que se alongassem além do tempo das versões registradas em estúdio pela banda original.

O título do álbum solo, terceiro de Stapp, mas único que tem recebido foco na turnê, "Space Between The Shadows" é citado diretamente em "Name". A "luz dentro da tristeza", mote que soa como subtítulo, também. Ainda sobre a canção, quando lhe chegou a vez, Scott confessou ser muito pessoal. A promessa ao filho, "você nunca conhecerá essa dor", também é parte grandiloquente na letra. E o diálogo, seja nas letras das canções, seja em breves comentários, entre Scott, alguém que teve a sua parte do "pão que o diabo amassou" e agora encontra um espaço entre as sombras, e seu público continua. "Está canção é dedicada a vocês porque é isso que somos. Somos sobreviventes meus amigos.", diz ele antes de "Survivor".

Ele se senta na beirada do palco enquanto Yiannis derrama mais uma introdução longa e pungente. Nem dava para imaginar a carga emotiva que viria a seguir. "With Arms Wide Open" é daquelas poucas canções capazes de conectar não só com a alma, com o estômago da alma, entrando tão profundamente no âmago do ser que não há alternativa senão os olhos se manifestarem jorrando água pelo rosto. E quem já recebeu a notícia que ele diz ter recebido na canção entende como é simples e automático chorar como um bebê. Esse é o propósito da música, meus amigos. Não só dessa. Da música em si, que, como disse Nietzsche, ausente faria da vida um erro.

Difícil se recuperar, mas logo vem "Higher". E lágrimas se transformam em pulos. E o clima de celebração se beneficiava também da forma como os comparsas de Scott tinham se apropriado das músicas. Ben, Sammy, Dango e especialmente Yiannis não deixavam por menos e davam sua parte na empolgação.

"Iscotê"

"Iscotê"

Grita insistentemente o público ao final.

"Purpose for Pain", que tínhamos tido a oportunidade de ver em formato acústico no dia anterior no Hard Rock Cafe, também é bem recebida. O que é um bom termômetro pra atestar que o público ali estava pelo apelo das músicas do CREED, claro, mas também pelas do próprio Stapp. E, depois de uma breve parada, é, assim como no fim de tarde anterior, no formato acústico que eles voltam para "Don't Stop Dancing", outra que a gente já adivinhava que ele ia trazer especialmente para o Brasil. Claro que houve singalong. No fim, Scott apontava para os pelos do braço. Não daria para ver, mas ele queria dizer que estavam arrepiados.

"One Last Breath" e "My Sacrifice", talvez o maior hit do CREED, fecharam aquela noite. Scott Stapp deixava de ser ali apenas o "cara da TV União". Continuava "o cara do CREED" mas era também um astro que respeitou o público incluindo muitas canções muito aguardadas, acompanhado de uma ótima banda, enérgica, passional, e também com uma carreira solo rica e interessante. Cabe destacar também a excelente iluminação, que ajudou a transmitir a mensagem que o americano queria trazer. Um pouco mais de tempo para a banda que abriu a noite teria feito com que tudo fosse perfeito.

Agradecimentos:
Juliana Bonfim e Opus, pela atenção e credenciamento.
Rubens Rodrigues, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Setlists

Rocca

1. O Grito
2. Diante do Sol
3. O Cais
4. O Anti Herói

Scott Stapp

1. Bullets (Creed)
2. World I Used to Know
3. My Own Prison (Creed)
4. Face of the Sun
5. Overcome (Creed)
6. Inside Us All (Creed)
7. What If (Creed)
8. Name
9. Survivor
10. With Arms Wide Open (Creed)
11. Higher (Creed)
12. Purpose for Pain
13. Don't Stop Dancing (Creed)
14. One Last Breath (Creed)
15. My Sacrifice (Creed)

ROCCA




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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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