Eluveitie: sobram capacidades técnicas onde falta coração

Resenha - Eluveitie e Tuatha de Dannan (Carioca Club, São Paulo, 15/02/2019)

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Por Diego Camara
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Lembro muito bem o momento que o Eluveitie nasceu para mim, quando tive contato com o álbum "Slania" pela primeira vez. A música forte e emocionante de "Inis Mona", onde os vocais guturais contrastavam com os instrumentos folk me chamou a atenção no primeiro momento. "Slanias Song" era a joia oculta desse disco, com os vocais de Anna Murphy nos chamando para um tempo antigo, um momento da história que se misturava com a música moderna. A banda cria uma magia para todo nerd amante de história e heavy metal, além dos pagãos que abundam o gênero. De lá se passaram mais de dez anos e quatro passagens em solo brasileiro para chegarmos nesta última, em 2019, culminando com três shows cancelados e muita confusão. Vejam a análise do único show que aconteceu, com as imagens de Fernando Yokota.

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TUATHA DE DANANN

A abertura ficou por conta dos boêmios mineiros do Tuatha de Danann. A mistura insana de metal, flautinhas e insanidade do grupo fez um ótimo show, marcado porém por enormes falhas técnicas. É normal que os shows da banda apresentem falhas técnicas pequenas, pois são muitos instrumentos e detalhes que a banda tem que se atentar, pois cada música usa conjuntos totalmente diferentes de som, e quem já foi em outras apresentações da banda sabe do que digo. Porém, a apresentação desta vez foi marcada por dúzias de falhas, erros de som, problemas com retorno e um banjo que não funcionou, tudo isso pela falta de tempo em passar o som e fazer os ajustes necessários.

Apesar de tudo isso, tivemos uma apresentação incrível da banda, que mostrou como sempre grande simpatia com o público e muita vontade no palco. Dou destaque para "Tan Pinga Ra Tan", muito bem tocada e com a presença mágica dos vocais de Fernanda Lira do Nervosa, e fechando o show com "The Dance of the Little Ones" e "Finganforn", dois dos grandes clássicos da banda que fizeram o público dançar e cantar junto com o vocalista Bruno Maia.

ELUVEITIE

Meia hora depois foi a vez do Eluveitie subir ao palco abrindo a apresentação com "Ategnatos", música que estará presente no próximo disco da banda, para um bom público no Carioca Club. Não chegou a lotar a casa, mas a encheu. A abertura da música é forte e puxada pelo instrumental folk, que causa uma sensação forte que anima bastante os fãs. A bateria aqui tem um destaque, soando muito alta e se sobressaindo sobre os outros instrumentos. "King" também deu a mesma sensação, onde o som do folk estava simplesmente morto e amassado pelo som das guitarras e bateria, com somente a flauta de Chrigel aparecendo, até num som alto demais.

"Omnos" veio depois, puxada pelos vocais de Fabienne Erni. A música é esteticamente bonita e aprazível, tecnicamente a vocalista soa muito bem, mas aqui já é possível ver que falta um quê de espírito para a nova formação da banda. A casca é consistente, mas a apresentação parece engessada e pouco dinâmica, diferente da formação anterior. Murphy, Päde, Tadic eram muito mais encaixados ao estilo e a filosofia da banda, que causa agora um estranhamento notório para quem viu estes no palco.

Seguiu-se de "Omnos" uma série de músicas folk do álbum "Evocation II", que apesar de ter alguns momentos de sobressalto, parecem músicas fracas ao gênero. Já havia reclamado anteriormente disso em críticas passadas - no Evocation I para ser mais correto - de que o Eluveitie é uma incrível banda de metal, mas quando pisa no solo do folk falta-lhe algo para realmente encantar o público. As músicas são lindas, "Artio" com os vocais incríveis de Erni, a ótima apresentação na gaita de foles de "Lvgvs" ou a ótima "Epona": se mais da metade de ambos os "Evocation" fosse como "Omnos" ou "Epona", o Eluveitie seria uma banda incrível também no gênero folk.

O show engrenou depois desta música. "Thousandfold" empolgou muito os fãs presentes, cantando firme o refrão da canção e batendo cabeça durante o show. Aqui não há muitas invenções: a música é direta e mais crua, o que empolga o público presente. Em seguida, "Quoth the Raven" mantem o nível no refrão e no solo, fechando de maneira incrível no ápice da música.

"The Call of the Mountains" teve uma lindíssima introdução de Ansperger nos violinos. "A Rose" e "Kingdom Come Undone" vieram com incríveis performances vocais de Erni e Chrigel. A apresentação foi para o final com uma bela surpresa da clássica "Tegernakô", um som bastante cru que chamou o público a fazer timidamente um frenético moshpit no centro da pista, que permaneceu até o final do show. O show foi fechado com "Helvetios", uma belíssima música, mas que não soou tão bem no palco: é uma música com muito som ambiente e playbacks que devem rodar ao fundo, que faltaram para a parte folk da música. O metal, porém, foi tecnicamente perfeito. O show foi fechado com "Inis Mona" na volta da banda para o bis, a música que inicia o comentário a este show.

Os novos músicos são muito competentes, isso sem sombra de dúvidas - apesar que as vezes pareceu difícil saber o tamanho da competência, dado que a banda sempre foi reconhecida por usar uma grande quantidade de playbacks para fazer os sons ambientes e de outros instrumentos que não estão presentes no palco - vale lembrar que a banda veio várias vezes com uma formação capada para os shows no Brasil, e estavam bem preparados para isso, por sinal - mas o que fica óbvio é que há uma falta de ligação dos novos membros com a banda.

O Eluveitie sempre se exaltou pelo trabalho genial, a arte produzida por Chrigel como letrista. Suas letras, o amor pela história e a cultura, é o que torna o Eluveitie único em termos de produção musical. Igualmente, a banda também sempre se colocou como uma banda de amantes da história celta, gaulesa, e também de descendentes destas tribos e raças que compunham a região. Era óbvio o amor que integrantes como Sutter, Murphy, Päde e tinham pela arte do Eluveitie: eles não eram membros da banda, aquilo lá era muito mais do que um negócio para eles. Foi uma vida despendida por um projeto único.

Não questiono aqui, então, a capacidade técnica dos músicos, mas o intento do Eluveitie, que parece cada vez mais soar como um grande negócio do que como uma obra de arte única e diferente. Assim perderam os fãs, perdeu o público, e talvez tenha se perdido a própria arte.

Setlist:
1. Ategnatos
2. King
3. Nil
4. Omnos
5. Lvgvs
6. Catvrix
7. Artio
8. Epona
9. Thousandfold
10. Quoth the Raven
11. The Call of the Mountains
12. A Rose for Epona
13. Kingdom Come Undone
14. Alesia
15. Drum Solo
16. Havoc
17. Tegernakô
18. Helvetios

Bis:
19. Rebirth
20. Inis Mona

Eluveitie

Tuatha de Danann




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Sobre Diego Camara

Nascido em São Paulo em 1987, Diego Camara é jornalista, radialista e blogueiro. Seu amor pelo metal e rock começou há 6 anos. Um amante da nova geração, é um grande fã de Arjen Lucassen, Andre Matos e bandas como Nightwish, Hammerfall, Sonata Arctica, Edguy e Kamelot. Também não deixa de ter amor pelos clássicos, como Helloween, Gamma Ray e Iron Maiden e do Rock de bandas como Oasis, Queen e Kings of Leon. Atualmente seus textos podem ser lidos no blog OCrepusculo.com sobre assuntos diversos, além de planos para criação de um projeto totalmente voltado aos blogs de Rock e Metal.

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