Abril Pro Rock: Resenha da segunda noite do festival

Resenha - Abril Pro Rock (Baile Perfumado, Recife, 28/04/2018)

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Por Renan Soares
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Após um primeiro dia marcado pelo baixo público no Baile Perfumado, as expectativas para a tradicional "noite dos camisas pretas" no Abril Pro Rock 2018 eram as maiores possíveis.

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Seguindo com a mesma dinâmica da sexta-feira (apresentações alternadas em dois palcos), a segunda noite do festival contou com dez bandas em seu cast, que se apresentaram na seguinte ordem: Autopse (AL), Matakabra (PE), Heavenless (RN), Armored Dawn (SP), Damn Youth (CE), Noturnall (SP), Uganga (MG), Moonspell (POR), Decomposed God (PE) e Immolation (EUA).

Por conta do número maior de bandas, os portões se abriram às seis da noite, com a primeira apresentação marcada para se iniciar meia-hora depois. E um pouco depois das cinco e meia da tarde, a movimentação nos arredores do Baile Perfumado já mostrava que a presença do público seria em um número muito maior do que o primeiro dia.

Mais uma vez o Abril Pro Rock mostrou que a pontualidade é um dos pontos fortes da produção do evento, tendo aberto os portões exatamente no horário marcado e iniciado o primeiro show sem nenhum atraso.

Exatamente às seis e meia da noite, a banda alagoana Autopse subia ao palco secundário para iniciar os trabalhos do dia do metal no Abril Pro Rock, e ao mesmo tempo, o grupo de Maceió vinha para mostrar que metal extremo também é coisa para mulher, tendo duas em sua formação (Daniela Serafim no vocal e Janaína Melo na bateria, que compõem a banda junto com Raphael Felipe na guitarra e Christian David no baixo).

Tocando ainda para um pequeno público que chegava aos poucos no Baile Perfumado, a Autopse demonstrou durante a meia-hora de show um death metal pesado, rápido e intenso para marmanjo nenhum botar defeito.

Quero destacar principalmente toda a energia e presença de palco mostrada pela vocalista Daniela Serafim, coisa que julguei está em falta em um clipe que tinha visto da banda antes de ver sua apresentação, e felizmente, não só ela, mas como a banda toda, calaram minha boca nesse aspecto.

Como é normal se tratando de bandas de abertura, o público curtiu o show mais na deles, tendo apenas formado o primeiro mosh pit na última música.

Mas de qualquer forma, a Autopse fez por merecer o título de "grata surpresa da noite" no segundo dia do festival.

Ao mesmo tempo que a Autopse encerrava sua apresentação no palco secundário, outra pedreira se iniciaria no palco principal com a banda pernambucana Matakabra, considerada uma das principais revelações da geração atual do metal pernambucano.

Essa não foi a primeira em que vi o Matakabra ao vivo, sendo assim, sabia muito bem o que esperar do show. A banda apresenta aquele tipo de som para ninguém ficar parado durante a apresentação, um death metal pesado com letras fortes que retratam críticas sociais, como a questão racial no Brasil, apresentado no seu último EP "Marginal".

Uma coisa que gosto muito na banda é a presença de palco insana do vocalista Rodrigo Costa, que constantemente instigava o público para formarem moshs pits (sendo atendido apenas no início da apresentação) e baterem cabeça freneticamente ao som dos "breakdowns" da banda.

Mas o ponto alto do show foi quando o grupo fez uma homenagem a banda pernambucana Hanagorik, que seria uma das atrações do festival, mas acabaram cancelando por conta de um problema de saúde do guitarrista Tuca Araújo.

Sendo assim, André Arcelino, vocalista da banda originária de Surubim, interior do estado, foi chamado ao palco para executar junto ao Matakabra o cover da música "Unknow" do Hanagorik, com direito a um pequeno coro dos que acompanhavam na grade.

O show dos recifenses só não foi o mais brutal da noite por conta do público, ainda em menor número, que parecia estar acanhado ainda. Por isso, o título de "show mais brutal da noite" acabou ficando com o grupo que se apresentou depois no palco secundário.

Foi durante a apresentação da banda potiguar Heavenless que a plateia (já em maior número) finalmente acordou e mostrou a que veio, e não era para menos, o death metal do trio de Mossoró chegava ao nível mais alto de brutalidade possível.

E assim, finalmente começamos a ter moshs pits dignos de Abril Pro Rock, fazendo com que a pista virasse em um verdadeiro "pandemônio" a cada riff de guitarra tocado.

Essa foi outra banda cuja presença de palco e energia mostrada na apresentação me impressionou muito, via-se que o baixista e vocalista Kalyl Lamarck dava tudo de si no palco, não tendo pena, inclusive, de ficar sem seu instrumento no ápice da empolgação. Isso sem esquecer também de quando o guitarrista Vini Martins largou sua guitarra na última música e fez um "stage diving".

Encerrado o show do Heavenless, finalmente saímos um pouco da vertente mais pesada do metal e fomos para uma mais melódica. Sem brecha para descanso, a banda paulista Armored Dawn iniciou sua apresentação no palco principal do Baile Perfumado mostrando o seu Viking Metal.

Em frente ao palco, um grupo de fãs da banda (alguns caracterizados com maquiagens vikings) clamavam pelo nome da mesma enquanto o nome do grupo ainda era anunciado pelo sistema de som da casa.

E nesse momento, a pista do Baile Perfumado já parecia um mar de camisas pretas.

Apesar daquele típico problema quando o microfone fica mais baixo do que o som dos instrumentos, o Armored Dawn promoveu uma grande batalha viking em cima do palco. Tendo eles lançado o "Barbarians in Black" recentemente, todas as músicas do setlist foram referentes ao novo disco.

O ponto alto da apresentação foi durante a execução da música "Sail Away", primeiro single do novo álbum, que segundo o vocalista Eduardo Parras, não seria inclusa no setlist de início, sendo essa uma homenagem a Kato Khandwala, produtor do álbum da banda que faleceu na mesma semana.

Com a plateia fazendo coro durante o refrão da música, via-se que o Eduardo Parras colocava toda sua emoção e dor pela perda do amigo na música, parecendo até que choraria em algum momento.

E ao som de "Beware of the Dragon", o Armored Dawn encerra sua curta apresentação no festival (com apenas cinco músicas), o que é uma pena, pois eles mereciam um tempo a mais, levando em conta tudo que o grupo teria para mostrar para o público. E se eu fosse citar outro ponto "negativo" no show, seria a falta de músicas do "Power of Warrior", primeiro álbum da banda.

Retornando ao palco secundário, o show da banda cearense Damn Youth se inicia com um mini-discurso do vocalista Elton Luiz o qual não consegui ouvir direito na hora sobre o que se tratava.

Chamados de última hora para suprir a lacuna deixada pelo cancelamento da banda Hanagorik, a Damn Youth conseguiu transformar a pista do Baile Perfumado em mais um "pandemônio" com seu Thrash Metal/Crossover "sujo", pesado e old school. Não é o tipo de som que me cativa, mas o público pareceu ter curtido bastante, pois não pararam de "moshar" e de "banguear" em nenhum minuto.

Em meios há alguns discursos politizados, o show foi seguindo seu curso com o público cativado, enquanto isso, fui dar uma volta pelo Baile Perfumado para comprar uma água, encontrar alguns amigos e olhar os estandes.

Terminado o show do Damn Youth, um nome de peso subia ao palco principal logo em seguida, a banda paulista Noturnall.

Nascido de uma junção de ex-integrantes da última formação do Shaman junto com o consagrado baterista Aquiles Priester (que não está mais na banda), o Noturnall apresenta um metal progressivo com um pouco de melódico, e uma pegada bastante pesada.

Agora com a formação Thiago Bianchi (vocal), Fernando Quesada (baixo), Júnior Carelli (teclado), Henrique Pucci (bateria) e Bruno Henrique (guitarra), a banda iniciou a apresentação mesclando músicas dos seus três álbuns, o "Noturnall" (2014), "Back To Fuck You Up" (2015) e "9"(2017).

O público, mesmo em grande número, parecia ainda estar acanhado no início, mesmo as músicas do Noturnall sendo do tipo que um mosh pit se encaixa perfeitamente, com isso, o Thiago Bianchi se esforçava para instigar o público, tendo em um momento pedido para que uma roda punk se formasse.

Mas o grande momento do show ficou para quando Thiago Bianchi chamou o vocalista Alírio Netto, que tem ganhado destaque a nível internacional após ser escolhido para ser vocalista do Queen Extravaganza. Afinal, atualmente o vocalista tem participado da turnê que o Noturnall vem fazendo ao redor do Brasil, então, não podia faltar sua presença no Abril Pro Rock.

Com isso, Thiago deixa o palco por um momento, e Alírio comanda a público ao som do cover "The Show Must Go On" do Queen.

Ao fim da música, Thiago retorna ao palco e exalta o vocalista Alírio Netto, valorizando a participação que fará no Queen Extravaganza, anunciando pouco depois o cover "I Want Out" do Helloween ainda com o ex-Age of Artemis.

Nesse momento, aproveito para fazer um relato um tanto que peculiar. Lá estava eu curtindo o som, até que de repente sinto um pequeno "empurrão" do meu lado, quando olhei, achando ser alguém instigando o mosh, me surpreendi ao ver o Thiago Bianchi andando pela plateia sem segurança e nem nada do tipo. E certamente, nessa hora muitos aproveitaram para tirar uma "selfie" e cantar junto com ele ao microfone, valendo ressaltar que Bianchi andou por quase toda a pista do Baile Perfumado até o fim da música.

Ao retornar ao palco, Thiago disse "Finalmente vocês acordaram, hein? Esse é o Recife que me falaram", tendo assim, anunciado a última música da apresentação, ainda com o Alírio Netto, onde foi formada, finalmente, a roda punk pedida pelo Bianchi no meio do show.

Como o Noturnall tem levado essa turnê com o Alírio Netto em várias cidades em shows "solos", imagino que eles apresentaram apenas uma parte dela no Abril Pro Rock por conta do tempo concedido a banda, por isso, espero que ocorra uma oportunidade deles voltarem a cidade em breve trazendo o show completo da mesma.

No palco secundário, a banda mineira Uganga se apresentara pela primeira vez em Recife, mostrando um som denominado por eles como "Thrashcore", com letras de forte cunho político.

Esse mais um show que não faltou peso na música da banda, e nem energia por parte do público, principalmente quando foi tocado o cover de "Troops of Doom" do Sepultura.

Após a Uganga mostrar seu som com muita responsabilidade para uma plateia instigada no palco secundário, as atenções se voltaram para o palco principal, onde a atração mais esperada do dia iniciaria sua apresentação exatamente às dez e meia da noite.

Um ano após cancelar toda a turnê que faria no Brasil (com Recife incluso) por conta de problemas com a produtora, o Moonspell finalmente tocaria na capital pernambucana pela primeira vez, e a expectativas dos fãs era a melhor possível.

A banda portuguesa subiu ao palco trazendo um verdadeiro espetáculo de imagem e som, isso sem precisar de uma estrutura "a lá Iron Maiden". O grupo veio com sua turnê referente ao seu último disco "1755", gravado todo em português, contando a história do terremoto que devastou Lisboa em 1º de novembro de 1755.

O show se iniciou com o vocalista Fernando Ribeiro sozinho ao palco, vestido com roupa de pescador e carregando uma lanterna, cantando a faixa "Em Nome do Medo", cuja mesma foi ecoada em uma só voz pelos presentes, que se aninavam enquanto o resto da banda aparecia.

Fernando Ribeiro soube muito bem usar a carta do figurino, logo em "1755", faixa-título do último álbum, ele aparece utilizando as famosas pragas dos médicos da peste, bastante comum nos tempos de praga na idade média, época em que ocorreu o grande terremoto de Lisboa.

Em quase todas as músicas referentes aos "1755", Fernando carregou uma cruz junto ao pedestal do microfone, como uma forma de representação da Igreja Católica, que tinha o poder sob as pessoas na época. Enquanto na faixa "Todos os Santos" ele levantou um grande crucifixo com um laser vermelho, fazendo-o "passear" pela plateia.

O "1755" foi tocado quase todo na íntegra, com a exceção das músicas "Abanão" e "1º de Novembro", mas claro, o Moonspell não resumiu o repertório apenas nesse disco, tendo também clássicos como "Night Eternal", "Extinct", "Opium", "Vampiria" e "Alma Mater", tendo nessas últimas, Fernando aparecido no palco com uma roupa "vampiresca".

Claro que não podia faltar o cover de "Lanterna dos Afogados" da banda brasileira Paralamas do Sucesso, uma música que achei que o público cantaria junto com o Moonspell em uma voz, mas não foi o que aconteceu.

Além da ótima apresentação em todos os aspectos, também destaco a simpatia e carisma do vocalista Fernando Ribeiro com o público recifense, tendo ele conversado com a plateia constantemente ao longo da apresentação e ressaltado a união existente entre Brasil e Portugal por conta da língua portuguesa.

Definitivamente, se fossemos eleger o melhor show dessa edição do Abril Pro Rock, a escolha com certeza seria o do Moonspell.

Sem a ficha da apresentação do Moonspell ter caído ainda, os pernambucanos do Decomposed God começou a tocar seu death metal brutal no segundo palco do Baile Perfumado.

O público chegou perto para conferir, mas já era claro o cansaço de todas por conta da maratona de shows da noite (o que acontece em todas as edições), por isso, no início os mesmo não interagiram tanto assim com a apresentação, formando um mosh pit apenas pelo meio da mesma.

A banda, que já é uma veterana no cenário underground recifense, tocou clássicos dos seus discos "The Last Prayer" (2000) e "Beastily" (2008), além da música "Delusion", única inédita do novo disco "Storm Of Blasphemies", lançado no mesmo dia do show deles no Abril.

Só não podemos dizer que a performance do Decomposed foi perfeita por conta de algumas falhas técnicas ocorridas, como em um momento em que não se ouvia a guitarra do Marco Antônio, e outro quando o microfone do vocalista Luiz Boeckmann falhou.

Com o fim do show do Decomposed God, faltava apenas os americanos do Immolation subir ao palco para encerrar a noite com chave de ouro.

Antes de tudo, tivemos o primeiro (e único) atraso do festival, ao contrário do que ocorreu com todas as outras atrações, o show do Immolation não se iniciou na mesma hora em que o Decomposed God encerrou o seu, tendo demorado uns quinze minutos para começar o mesmo.

Por volta de uma e quinze da manhã, o Immolation subiu ao palco principal do Baile Perfumado e iniciou a última apresentação do Abril Pro Rock 2018. Trazendo a turnê do "Atonement", seu mais recente disco (2017), a banda americana, sem muita conversa fiada, mostrou toda a brutalidade de seu death metal para uma plateia já cansada, mas ainda em grande número. Mas invés de rodas punks, os presentes interagiram apenas batendo cabeça.

Já eram um pouco mais de duas da manhã quando o Immolation tocou a última música, encerrando assim a 26ª edição do Abril Pro Rock.

Agora, farei uma rápida "considerações finais", pois o texto já está extenso demais.

No geral, o saldo do festival foi positivo, com a exceção do Immolation, nenhum outro atraso foi registrado nas apresentações, cuja as mesmas foram inesquecíveis, tendo apenas um problema técnico ou outro, o que é normal de acontecer.

A escolha de mudar o festival do Classic Hall para o Baile Perfumado acabou sendo sábia no fim das contas, por apesar de menor, o local comportou melhor o público que compareceu.

E apesar da estrutura do Classic Hall ser naturalmente melhor, tendo inclusive, espaço para mais estandes (como sempre ocorreu nas edições sediadas lá), provavelmente, o público que encheu o Baile Perfumado não encheria a tradicional casa de shows de Olinda.

A única sugestão que dou a produção do festival, é que eles mantenham a dinâmica dos dois palcos, mas que eles comecem a darem um intervalo de cinco a dez minutos entre um show e outro, para dar uma chance para a plateia descansar um pouco, e até mesmo de olhar as outras coisas que o festival oferece.

No mais, a noite dos camisas pretas não decepcionou mais uma vez, deixando a expectativa para a edição de 2019.

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Sobre Renan Soares

Nascido em Recife no dia 03 de novembro de 1994, Renan adentrou ao mundo do rock/metal a partir dos 13 anos de idade e até hoje permanece fielmente no mesmo. Desde que se formou em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, tem se dedicado a conseguir dar a relevância merecida ao nome do estilo.

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