Dream Theater: James LaBrie comanda maratona épica em São Paulo
Resenha - Dream Theater (Espaço das Américas, São Paulo, 22/06/2016)
Por Mateus Alves
Postado em 25 de junho de 2016
No Brasil, são raras as vezes em que, ao entrar em um local prestes a receber um show de metal, o headbanger, acostumado às cotoveladas amigáveis do mosh pit, encontra-o tomado por cadeiras marcadas com números e distribuídas em filas, tal qual uma apresentação teatral.
Mais raro, porém, é o talento e a capacidade criativa e artística de uma banda como o DREAM THEATER. A condição de maior banda de metal progressivo da história liberta-os de amarras, pois tudo podem e nada mais devem para o seu fiel público ou para a crítica especializada que não cansa de tecer opiniões favoráveis para o quinteto norte-americano.
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Com tal carta branca, os veteranos de Long Island escolheram a inusitada distribuição de assentos (peculiares cadeiras de madeira, na verdade) pela maior parte do Espaço das Américas, na zona oeste de São Paulo, como o formato para o público desfrutar da nova e ambiciosa turnê de divulgação de seu mais recente trabalho, "The Astonishing" (2016).
O show apresentado nada mais é que o último álbum da banda tocado integralmente. Com mais de duas horas de duração, "The Astonishing" é uma invenção das mentes do guitarrista John Petrucci e do tecladista Jordan Rudess. Sua história, nitidamente influenciada por clássicos épicos de fantasia e ficção científica como Game of Thrones, Star Wars e Dune e por obras clássicas da ópera rock dos anos 1970, desenvolve-se sequencial e indivisivelmente. No disco, a ideia da banda foi criar uma experiência auditiva similar à uma experiência cinematográfica, com o ouvinte digerindo a obra integralmente do começo ao fim, sem interrupções.
Essa ambição não poderia ter sido traduzida de outra maneira para os palcos que não a que vemos na atual turnê da banda. Divididos em dois atos, os shows são uma fiel reprodução daquilo que foi registrado em estúdio, da primeira à última música do álbum. Nada mais, nada menos. Não há "Pull Me Under", não há "Metropolis", apenas as faixas de "The Astonishing", do começo ao fim, em sequência.


Todos os detalhes musicais e todas as trilhas incidentais e eletrônicas (as chamadas "Womac Tracks") do álbum constam na apresentação de quase três horas, com o devido intervalo para que banda e público recuperem o fôlego físico e o mental após a primeira hora e meia do show. Os telões acrescentam o elemento visual que faltava no álbum, proporcionando uma imersão ainda maior no universo distópico criado pela banda.
Em São Paulo, o começo da apresentação, embora impecável musicalmente, encontrou alguns problemas técnicos. Em "The Gift of Music", o primeiro single de "The Astonishing", os vocais de James LaBrie estiveram inaudíveis nas primeiras linhas; o alto volume dos instrumentos também atrapalhou um pouco nas músicas iniciais, algo rapidamente solucionado pelos técnicos de som.
Mesmo sentado, o público respondia bem às habilidades musicais e performáticas da banda. Não há como cansar de elogiar a maestria e a paixão que os membros do DREAM THEATER possuem em relação ao seu trabalho. Faltam palavras para descrever a genialidade de Petrucci e Ruddess em seus instrumentos. O baterista Mike Mangini, o mais novo membro da banda, demonstra, disco após disco, turnê após turnê, competência, destreza e dedicação, uma somatória de elementos que faz com se esqueça completamente que outrora a banda contava com outro titular nas baquetas.

O outro membro da cozinha, o baixista John Myung, continua como sempre: preciso, inabalável, essencial. Junto com Mangini, a coesão de ambos é tamanha que seus instrumentos se fundem, tornando-se a imutável e indissociável sustentação de toda a magistralidade sonora do DREAM THEATER.
No entanto, assim como em "The Astonishing", a grande estrela do show é só uma: James LaBrie. A entrega e a intensidade do vocalista canadense é impressionante. Sua habilidade vocal dá vida aos personagens da história de "The Astonishing" de maneira irretocável e causa espanto saber que, dia após dia, três horas por noite, LaBrie continua beirando a perfeição no palco.
Como no álbum, "Brother Can You Hear Me" e "A Life Left Behind" são os maiores destaques do primeiro ato do show. Os detalhes sonoros das músicas impressionam, controlados por Jordan Rudess ou pelos triggers da bateria de Mangini. Em muitas turnês do DREAM THEATER eram comum improvisos e jams espontâneas entre os músicos; estes, na divulgação de "The Astonishing", foram deixados de lado e o que o público recebe é uma aula de sincronia e perfeição musical.


Pouco antes do encerramento da primeira parte, John Petrucci toma as rédeas da apresentação em "A New Beginning", com um majestoso solo que figura entre os melhores de sua carreira. Inspiradíssimo, o guitarrista invoca de Joe Satriani a David Gilmour em seus licks e cria um momento tão épico quanto a sua enorme barba, causando uma grande catarse no público – que, como sempre, é composto por muitos músicos que apreciam momentos como este.
Após o intervalo, o segundo ato, assim como no disco, é um pouco menos intenso. A complexa e pesada "Moment of Betrayal" e a épica "Our New World", esta última já com o público em pé a pedido de LaBrie, são os grandes destaques, sendo as músicas que mais se aproximam dos singles de outras obras da banda. Baladas como "Losing Faythe" também arrancam aplausos efusivos do público, novamente conduzidas pela habilidade vocal de LaBrie.


Três horas de show podem, inicialmente, parecer morosas e cansativas; quando a banda no palco é o DREAM THEATER, no entanto, a apresentação passa longe disso. Ao final, nota-se claramente no sorriso do público a felicidade e a realização de que participaram não apenas de um show de metal progressivo, mas de algo que transcende riffs, acordes e ritmos. Dessa forma, quebrando paradigmas e extrapolando a zona de conforto que muitas bandas insistem em não deixar, o quinteto norte-americano continua cativando o seu fiel público e garantindo a sua posição como uma das bandas mais influentes dos últimos anos.
LINE UP
James LaBrie – Vocais
John Petrucci – Guitarra
Jordan Rudess – Teclados
John Myung – Baixo
Mike Mangini – Bateria
SETLIST
Ato 1
Descent of the NOMACS
Dystopian Overture
The Gift of Music
The Answer
A Better Life
Lord Nafaryus
A Savior in the Square
When Your Time Has Come
Act of Faythe
Three Days
The Hovering Sojourn
Brother, Can You Hear Me?
A Life Left Behind
Ravenskill
Chosen
A Tempting Offer
Digital Discord
The X Aspect
A New Beginning
The Road to Revolution
Ato 2
2285 Entr'acte
Moment of Betrayal
Heaven's Cove
Begin Again
The Path That Divides
Machine Chatter
The Walking Shadow
My Last Farewell
Losing Faythe
Whispers on the Wind
Hymn of a Thousand Voices
Our New World
Encore:
Power Down
Astonishing
Fotos: Fernando Yokota
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