Fortaleza: Selvagens a Procura de Lei e Cidadão Instigado

Resenha - Selvagens a Procura de Lei e Cidadão Instigado (Fortaleza, 07/02/2016)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Você já pensou que leria uma resenha de um show de carnaval no Whiplash? Pois a hora chegou. Acabou o carnaval, mas ainda temos a falar sobre ele. E sabe a música da metralhadora? Pois é, nós também não. Até soubemos através das redes sociais que uma nova praga tinha se espalhado pelo Brasil, mas, graças ao nosso bom gosto musical, a única coisa que conseguimos lembrar ao falar de "musica de metralhadora" é a versão enghaw de "Era um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones". E em Fortaleza, quem procurou por um bom rock nesse carnaval encontrou sim (e o melhor de tudo, em shows gratuitos). Confira abaixo como foram os shows de SELVAGENS A PROCURA DE LEI e CIDADÃO INSTIGADO no Aterro da Praia de Iracema.

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Foto: Chris Machado
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SELVAGENS A PROCURA DE LEI

Foto: Chris Machado
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Os dois nomes são dois filhos pródigos de Fortaleza, duas bandas que, assim como ARTUR MENEZES, MAFALDA MORFINA e JONNATA DOLL, deixaram a capital cearense em busca de maior visibilidade no país inteiro, levando sua cearensidade e mostrando sua arte a partir da capital paulista. Eles repetem os passos de outros artistas como FAGNER, BELCHIOR e EDNARDO, sem jamais perder as raízes, mas buscando ter asas mais largas. A primeira banda da noite, anunciados por um humorista (estamos no Ceará, esqueceu?) foi a SELVAGENS A PROCURA DE LEI, apresentando muitas canções de seu vindouro CD "Praieiro", sucessos dos álbuns anteriores e algumas surpresas. Os fãs fieis aplaudiram bastante os quatro rapazes, Gabriel Aragão e Rafael Martins (vocais/guitarra), Caio Evangelista (baixo) e Nícolas "Nicão" Magalhães (bateria/vocais), que começaram o show com "Brasileiro" e "Massarrara", seguida de "2 de fevereiro", uma das canções novas (mas que a moçada da plateia já conhecia bem). A canção recebeu Rafael Maia e Leandro Rodrigues para enriquecer o som nos teclados e na percussão. O resultado foi uma faixa dançante, funkeada, um clima levemente disco. A dupla permaneceu no palco, transformando os SELVAGENS num sexteto, até o final da apresentação. A participação de ambos foi boa. Será que tem vaga na república?

Foto: Chris Machado
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Nicão assumiu a semelhança de timbre e ficou responsável pelos vocais em "Vale Tudo", do eterno Tim Maia, com letra levemente atualizada. "Também vale dançar homem com homem e mulher com mulher", dizia. A festa continuou na vibe TIM MAIA com "Não quero dinheiro", que já tinha recebido uma versão rocker pelo VIPER. "Sangue Bom" e o reggae "Felina" foram mais duas do novo disco que abriram espaço para "Enquanto Eu Passar Na Sua Rua", "Juventude Solitude", "Claudia" e a linda "Mar Fechado". A iluminação assume tom avermelhado para a densa canção que talvez não combine com o período festivo. Who cares? O público cantou junto emocionado. A brisa ... A areia...

Foto: Chris Machado
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"Sr Coronel", uma das mais belas composições do quarteto, com Gabriel nos teclados, também foi outro momento atípico para um carnaval (aliás, ali era atípico), mas de extrema beleza. As recentes "O Que Será O Amanhã" e "Bem vindo ao Brasil", single de 2014 com letra esperta como faziam PARALAMAS, LEGIÃO e ENGENHEIROS na época em que não tínhamos Facebook pra "xingar muito no Twitter" dão voz aos jovens no público além de os colocar pra pular novamente. "Musica pra cabeça, mas também para o pé". Como era um show especial "de carnaval", a banda abriu espaço para um número considerável de covers, ou, melhor dizendo, homenagens aos artistas que os influenciaram. Nicão, cada vez mais seguro dividindo-se entre as baquetas e o microfone mandou "Agora Só Falta Você", de RITA LEE. Além de Tim e Lee, o também cearense FAGNER também teve a sua versão da empolgante "Cartaz", seguida de "Frevo Mulher", do paraibano Zé Ramalho. Uma do Belchior fez falta, mas uma do Ednardo também faria.

Foto: Chris Machado
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"Tarde Livre", o primeiro single de divulgação do "Praieiro", com clipe filmado bem perto dali, no Mara Hope, navio encalhado que se incorporou à paisagem da Praia de Iracema não podia ficar de fora. Nem "Mucambo Cafundó", a canção que apresentou os SELVAGENS à LEI. E se lembramos LEGIÃO URBANA, os garotos não fogem da comparação, permitindo-se um final catártico com "Geração Coca-Cola", enriquecida por duas guitarras solando e um teclado pulando na cama criada pelo baixo e bateria.

"Eles vão encontrar lei é lá em casa, na minha cama. Vou levar eles pra lá". Arrematou o humorista, de volta ao microfone ao fim do show.

CIDADÃO INSTIGADO

Foto: Chris Machado
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Não demorou muito, menos que o esperado na verdade, para que subisse ao palco mais uma banda cearense que tem feito barulho em Sampa. A primeira parte do show foi bastante baseada em "Fortaleza", ode do CIDADÃO INSTIGADO ao próprio torrão natal. Os guitarristas Fernando Catatau e Regis Damasceno, o baterista Clayton Martin, o baixista Rian Batista e o tecladista Dustan Galas produziram em 2015 uma obra prima, um disco "legal que só", figurando em diversas listas de melhores discos do ano . E desse disco já vieram "Até Que Enfim" e a Astronomy Domine mambembe "Ficção Científica". Catatau, com sua voz característica (podemos dizer que é horrorosa? Sim, podemos) passou todo o show com uma enorme pena na cabeça. Era carnaval, oras.

Foto: Chris Machado
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"Essa longa estrada que se chama te esperando", diz um verso de "Os Viajantes", numa poesia que só o CIDADÃO consegue aglutinar. Veio também "Borboletas", com um brega requintado (isso existe? Sim, existe. Taí). O ponto alto da apresentação seria, no entanto, algo que não deve se repetir (a não ser no próximo carnaval). "Fortaleza", que dá nome ao disco, que dá nome à cidade, que dá nome à música, sendo tocada ali, bem de frente ao antigo Iracema Plaza Hotel, que ilustra o miolo do álbum, representando em si toda a cidade que um dia foi e que hoje é. A coincidência não acontece em shows no Dragão do Mar. A coincidência não acontece em shows em São Paulo. A coincidência só é coincidência ali, naquele ponto exato de Fortaleza. De um lado o palco, tô outro o San Pedro. Chega a dar calafrios. É algo assombroso. No prédio, poucas luzes acesas.

Foto: Chris Machado
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E a desilusão traduzida pro inglês em "Land of Light" parece guardar, mesmo no idioma estrangeiro, o sotaque que jamais vai deixar nem o Catatau, nem este que aqui fala. Essa é a verdade. A luz na Terra da Luz é uma mentira. Shalon Israel, morador da Barra do Ceará, testemunha, cúmplice e autor da realidade de Fortaleza, foi o convidado especial que chegou para cantar "Cabeça de Gelo", um reggae fumacento (se é que vocês me entendem). "Green Card", também com parte da letra em inglês, "Dizem Que Sou Louco Por Você" e "Quando a Máscara Cai" encerraram o set baseado em "Fortaleza". Embora isso tenha tornado o show bem especial, sobrou pouco tempo para outras canções esperadas pelo público, como "O Tempo", "Deus É Uma Viagem", "O Pinto de Peitos" ou "O Nada".

Foto: Chris Machado
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Felizmente, a psicodelia extrema de "La Fora Tem" teve lugar antes do anunciado encerramento (que todos sabiam ser apenas uma pausa para os zé doidins tomar uma água). De volta ao palco, "Homem Velho", com sua letra inusitada. Em meio ao público, dançava a gueixa (de barba), um dos 300 de Esperta, o velho novo e o novo velho, a nativa, personagens de um carnaval que começara ainda pela manhã. E continuaram dançando em "Contando Estrelas".

Foto: Chris Machado
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Foto: Chris Machado
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"Pra que tanta indecisão se o Sol está aí pra nós assar", diz "Escolhas Pra Quê?", que teve um duelo de solos hipnotizante. Os gringos do Alabama tem o LYNIRD SKYNYRD, nós temos o CIDADÃO INSTIGADO pra botar as guitarras pra brigar. E como brigaram. Shalon ainda voltou para cantar a mesma canção, "Cabeça de Gelo", transformando o CIDADÃO em uma banda de reggae, mas perdendo a oportunidade de mostrar um pouco mais do seu trabalho.

Porque cada um dos 365 dias do ano é dia de ouvir BEATLES, "Her Magesty" e "Number 9", agora já em "som mecânico, puseram o ponto final na trilha sonora diferente que esse carnaval teria. Nos 290 anos da cidade, foi uma iniciativa louvável da prefeitura garantir música boa e honesta para os cidadãos instigados ou não. O ponto negativo da noite, principalmente durante o show do CIDADÃO INSTIGADO, vai para os telões. Em muitos momentos (e não só no intervalo, como seria esperado), os dois telões laterais exibiam repetidamente a mesma propaganda institucional. E quando buscavam imagens do palco, apenas Fernando Catatau aparecia, como se fosse uma cantora pop qualquer abusando do playback. Clayton fazia um trabalho interessante na bateria, o telão mostrava Catatau. Era a vez de Regis brilhar, o telão mostrava Catatau. O convidado Shalon corria de um lado pro outro, o telão mostrava Catatau.

O carnaval de Fortaleza ainda engatinha, é verdade. Nem mesmo a Secretaria de Turismo da Prefeitura Municipal considera o evento como algo que realmente traga uma quantidade expressiva de turistas. E, a despeito das dezenas de blocos que começaram a surgir nos últimos anos, a cidade ainda guarda a fama de se tornar praticamente uma cidade fantasma na época momina, quando boa parte das pessoas prefere viajar para os festejos em cidades interioranas como Beberibe e Aracati ou em outras capitais nordestinas como Recife e Salvador (onde esse ano teve até ANGRA e SEPULTURA), ou mesmo para o já tradicional Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga (prometo resenha no ano que vem). Por causa destes blocos e de ações como a que levou os SELVAGENS e os membros do CIDADÃO ao Aterro da PI, esta situação começa a mudar. E o carnaval de Fortaleza começa a ficar mais atraente, até para quem não gosta de carnaval. Com uma programação de duas bandas no palco do Aterro todas as noites, o Carnaval de Fortaleza teve dois filhos pródigos encantando uma pequena multidão ao som de muito rock, ora jovem, ora denso, ora apenas alegre, ora psicodélico, ora inocente, ora malandro.

Agradecimentos:
Sílvia Cristina, pelo seu amor e companhia.
Cristiano Machado, pelas imagens que ilustram esta matéria.

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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