Marcelo Nova: um concerto de Rock no Sesc do Ipiranga

Resenha - Marcelo Nova (Sesc Ipiranga, São Paulo, 21/10/2012)

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Por Alexandre Campos Capitão
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Minha filha perdeu a virgindade com Marcelo Nova! Essa afirmação que poderia ser sucedida por um processo criminal ou um por um tiro de 38 Special, na verdade revela a felicidade desse ter sido o primeiro show da minha filha, e o orgulho de estar estabelecendo pra ela um padrão elevado e a referência do melhor dentro do rock, antes dos seus quatro anos. Percebi que haviam outras crianças por ali, como a filha do baterista que acompanha Marceleza, e pelo menos outras três. E assim perco a conta de quantas gerações estavam dentro desse teatro, dos remanescentes oitentistas até esses pequenos. Já temos por aí netinhas orgulhosas gritando “bota pra fudê”, descabelando as professoras na segunda-feira. As sementes plantadas pelas palavras e pela guitarra de Marcelo Nova vão perpetuando sua obra.

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Um grande show, num belo teatro e com uma platéia educada. Assim poderíamos resumir esse concerto de rock na unidade Ipiranga do Sesc.

A programação apresentava Marceleza no sábado e no domingo, com dois sets lists diferentes. É preciso dizer que esse tipo de espaço compõe o cenário perfeito para o trabalho do maior rocker do país. Qualidade de som, acústica, conforto, e até a ausência do bar, apresenta um ambiente pronto para ouvir as músicas, as letras, as histórias, com o foco no artista, sem distrações, sem “toca Silvia”, sem engraçadinhos, e até sem cerveja, que incentiva os excessos. Apenas um palco e muito conteúdo à sua frente. Três dias depois fui assistir ao lendário Jack Bruce também num teatro, e pude novamente comprovar essa tese.

Marcelo Nova abre os trabalhos com Bomba Relógio Ambulante. E me valendo da experiência da minha filha, comecei a pensar que é possível rever coisas com “os olhos da primeira vez”, como se aquele também fosse meu primeiro show. E em se tratamento de um homem que não se repete, seja em arranjos, seja em interpretações, “os olhos da primeira vez” tornam-se ainda mais viáveis. E acompanhei a explosão dessa bomba como se fosse meu primeiro estrondo.

Em Faça a Coisa Certa, o arranjo trouxe uma longa pausa no verso com o título da canção. “E ninguém mais................. sabe fazer a coisa certa”. Drake Nova (guitarra), Leandro Dalle (baixo) e Célio Glouster (bateria), essa fantástica banda, trabalha a dinâmica de maneira soberana durante o show. E assim surpreenderam a plateia. Mais uma vez o fator teatro favoreceu o espetáculo, pois as pausas foram dominadas pelo silêncio absoluto, e nada mais impactante num concerto de rock do que o silêncio. E pensar que está cheio de roqueiro pensando por aí que o impacto está no volume das guitarras. Pobres... E nós lá, vendo tudo com “os olhos da primeira vez”.

A partir de Bete Morreu Marcelo começou a falar mais entre as canções, e todos nós ganhamos em conteúdo e diversão. Na sequência veio Poeira no Chão do fantástico álbum O Galope do Tempo, e que trata do que vai restar de nós no final.

Entre tantas histórias, Marceleza falou sobre os críticos que dominavam os veículos e sobre as bobagens ditas sobre ele e sobre seu trabalho. Lembrou que foi chamado de plagiador diante do sucesso de Só o Fim, em razão da referência que a canção faz à Gimme Shelter dos Rolling Stones. Mais do que uma referência, uma reverência, o refrão “O, crianças, isso é só o fim” teve a intenção de homenagear a obra da banda de Richards e Jagger. No próprio vídeo clip da canção, Marcelo aparecia com o álbum Let it Bleed nas suas mãos, escancarando a homenagem. Mas os críticos não entenderam... Bom, esperávamos o que?

Ainda revelou que foi convocado para uma reunião com um diretor da gravadora, que queria falar sobre esse sucesso. Primeiramente deu os parabéns pela repercussão da canção, e em seguida mostrou-lhe um cheque, que seria utilizado para pagar mais execuções de Só o Fim, mantendo-a em evidência por mais tempo. Mais um episódio sobre como funcionam os escritórios acarpetados da indústria fonográfica.

Em Deus Me Dê Grana a banda cometeu um pequeno erro, daqueles que poucos percebem. Qualquer músico seguiria em frente mais do que rapidamente, provavelmente começando imediatamente a próxima canção. Mas não estamos falando de qualquer um, o rei do rock, ao contrário, chamou a atenção para o erro e destacou a veracidade do seu trabalho. E “os olhos da primeira vez” ganhavam o primeiro contato com a transparência.

Escrita para Janio Quadros, Forças Ocultas não é presença constante no repertório, e talvez tenha sido a primeira vez que a ouvi ao vivo. Com o pano de fundo eleitoral na capital paulista, foi divertido acompanhá-la.

Quando Eu Morri ganhou um andamento mais lento, e durante seu solo/performance que caracteriza essa canção ao vivo, Marcelo se aproximou de Drake e começaram a tocar juntos, dobrando as mesmas notas em suas guitarras. Pai e filho no palco, pai e filha na platéia, dividindo a mesma escala, dividindo a mesma visão, em situações análogas diante daquela composição tão biográfica, foi difícil conter as lágrimas.

Marceleza contou que seu pai nunca teve um Simca Chambord, e se divertiu dizendo que quando fala isso as pessoas costumam não acreditar. O velho Simca tinha um preço elevado para a época, e que seu pai teve mesmo um DKW, conforme conta na canção Outubro de 65. Esse é o típico caso em que a canção acabou se tornando maior do que o próprio carro, ela na verdade deu sobrevida ao bólido, e muitos nem o conheceriam se não fosse por ela. Na sequência apresentou a música homônima, que veio dominada por acordes menores.

Mas à essa altura os olhos da minha pequena Melinda estavam cansados com tanta novidade, e ela pediu para ir embora. Após mais de uma hora de bom comportamento, com “os olhos da primeira vez” fixos, sem perder um movimento se quer em tudo que acontecia no palco, entendi que deveria atender seu pedido, e assim não assistimos as últimas canções do show. E até isso acabou se tornando uma primeira experiência, pois nunca havia deixado um show de Marcelo Nova antes do seu final.

Fomos indo em direção ao carro ouvindo os primeiros acordes de Rock´n Roll que soavam distantes. Segui pensando nas crianças ali presentes e no efeito que o show causou dentro delas, nunca mais olhariam para a música como antes. Elas e todos mais que se permitiram usar dos “olhos da primeira vez” a partir daquele dia poderiam encarar todas as canções de maneira diferente, mesmo valendo-se dos mesmos olhos e ouvidos.

Set List
1-Bomba Relógio Ambulante
2-Faça a Coisa Certa
3-Século XXI
4-Bete Morreu
5-Poeira No Chão
6-Robocop
7-Deus Me Dê Grana
8-Muito Além do Jardim
9-Forças Ocultas
10-Quando Eu Morri
11-A Garota da Motorcicleta
12-Simca Chambord
13-Rock n' Roll
14-Eu Não Matei Joana D'arc

Fotos: Denise Rodrigues

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