Resenha - Marcelo Nova (Empório Eventos, Indaiatuba, 31/03/2012)

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Por Xande Capitão
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Eu vi dois pontos de luz pulsando no escuro. Parodiando a canção "Fecundado", que abre o álbum O Galope do Tempo, essa aventura começava pra mim, com os faróis da van se aproximando do ponto onde aguardava, no km 53 da rodovia Castello Branco.

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A bordo, me juntei à Marceleza, Drake Nova (guitarra), Leandro Dalle (baixo), Célio Glouster (bateria) e Ari Mendes (produtor e MC). De cara percebi que o "titular" Luxemburgo não era estava no volante, e isso tornava a viagem mais perigosa, não pela perícia em dirigir, mas porque aumentavam as chances de com sua ausência me tornar alvos das brincadeiras. Bom, mas pensando bem, isso acaba sendo inevitável, e fez com que a curta viagem passasse ainda mais rápidamente.

A desenvolvida Indaiatuba se apresentava bela, mas o GPS insistiu em nos conduzir por um caminho mais difícil. Sua sorte é que não te alcanço, satélite de merda. Uma rápida passagem pelo local do show e todos foram jantar.

De volta à casa de shows a banda recebeu a notícia de que um problema logístico impediria a passagem de som. Isso acabou não permitindo aos fãs presentes assistirem uma nova canção ser tocada pela primeira vez. Um blues denso e pesado chamado A Escuridão, que aguardará um outro show para ver a luz.

Já no palco e "fazendo a coisa certa", Marceleza abria os trabalhos. A arrasa inquisição "Eu não matei Joana D'arc" foi a segunda canção da noite. Fogo que queimava vinha da fornalha de uma locomotiva chamada rock'n roll, alimentada por Marcelo Nova, maquinista com sua pá de cabo dourado. E seguia atiçando o fogo, carvão sobre carvão. A locomotiva acelerava, ele limpava o suor, tocava o apito, e lançava mais uma pá fornalha à dentro.

E de repente você olha pra aquela banda no palco, e fica em dúvida se trata-se de uma elegante e tradicional Maria Fumaça, ou de um moderno e complexo Trem Bala, tamanhas são a técnica e refinamento apresentados. Espera aí, mas não é apenas um show de rock'n roll? Por que um baixista tão bom, um batera tão técnico, um guitarrista tão minucioso? Erroneamente há anos estamos sendo induzidos a pensar que música com refinamento técnico somente é encontrada no jazz ou em bandas como Dream Theather, e que o rock direto e tradicional deve ser executado com economia e pobreza. Um mestre na arte dessa contradição, Marceleza mantém seus pés fincados na tradição dos grandes rocks e rockers, sem abrir mão do elevado nível de execução. E por isso sempre teve grandes bandas ao seu lado.

Sua banda atual também segue essa fórmula. O que dizer de Drake Nova, um guitarrista tão jovem, mas já com tanta quilometragem? Que não fica buscando o recorde mundial de notas por segundo, nem as milhares de escalas de um Stevie Vai. Mas sim a construção de uma canção, colocando camadas e camadas de guitarras, procurando edificar, com cores, texturas e tessituras. Drake é o engenheiro dessa ferrovia. Canções como "Bomba relógio ambulante", "A ferro e fogo", "Hoje", ganham outras encarnações em sua prancheta.

Leandro Dalle é um baixista exuberante. Seus solos e passagens marcantes elevam o nível da performance. "A ferro e fogo" e "Quando eu morri" são exemplos do patamar que esse músico se encontra. "Lá no alto mar a tempestade desabou", verso seguido de uma escala, que poderia ser chamada de tormenta. Leandro é o fiscal do trem, verificando se todos estão com seus bilhetes e sentados em seus acentos. Está tudo lá, velocidade, técnica, tapping, two hands, bom gosto... Célio Glouster é o chefe da estação, controla o horário das chegadas e partidas. E executa seu trabalho com mão de ferro, e que mão... Célio tem a pegada de um John Bonham e o groove de um Carmine Appice. Preciso dizer mais? Um trem rápido, potente e confortável. Mas sem excessos.

Mas todo trem tem seu maquinista. Carvão e carvão na fornalha, Marcelo Nova ocupa todo o palco, convoca o público, interpreta suas canções e apita alto antes de entrar no túnel. Em "Rock'n roll", do álbum com Raul, ele diverte à todos com suas frases. Em meio à uma inserção incidental de "Highway to hell" do ACDC, ele dispara "aqui na Highway to hell tem whisky e tem cerveja, melhor do que ficar em casa ouvindo musiquinha sertaneja", e tem mais, "nem tudo que você quer você pode, melhor do que ficar em casa ouvindo disquinho de pagode". Todos se divertem e a locomotiva acelera. No clássico "Hoje" ele insere "Negue" de Adelino Moreira, que registrou em seu primeiro álbum lançado, e "Tamborine man", do insuperável Bob Dylan.

Uma garota estendeu a mão e tocou o pé de Marcelo chamando-o para ver um fã que tinha tatuado uma caricatura sua no braço. Marceleza saudou-o, e retribuiu dando à ele sua palheta. Após o show o recebeu no camarim e pousou para foto ao seu lado.

"Pastor João e a igreja invisível" anunciava a chegada à última estação. Seria preciso muita água para esfriar aquela fornalha. Mais ninguém pensava nisso, era hora de limpar a fuligem e voltar pra casa.

Fiquei no km 53 da Castello e 2 pontos de luz pulsando no escuro seguiram de volta pra capital. Esse foi o último show antes da apresentação no Lollapalooza. Pelo que se viu em Indaiatuba, e pelos músicos que virão compor essa já fantástica banda, trazendo ainda mais carvão para trincar a estrada de ferro, já está definido qual será o melhor show do festival. Marcelo Nova vai conduzir sua locomotiva em uma grande viagem, coloque sua melhor roupa e aguarde na estação. Bota pra fudê, Lolla.

Set list:

Faça a coisa certa
Eu não matei Joana D'arc
Bomba relógio ambulante
Gotham City
O mundo está encolhendo
Cocaína
Ela me trocou por Jesus
A ferro e fogo
Quando eu morri
Simca Chambord
Rock'n roll
Hoje
Só o fim
Pastor João e a igreja invisível




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