Metallica: energia e uma aura de empatia sobrenatural

Resenha - Metallica (Parque Condor, Porto Alegre, 28/01/2010)

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Por Amir R. De Toni Jr., Fonte: Collector's Room
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Eram 21:46 da noite de quinta-feira, 28 de janeiro de 2010, quando o rock 'n' roll mudou a minha vida novamente. Ao ver Clint Eastwood levantando o rosto nos três telões à minha frente, todo o cansaço e dores resultantes de quase dez horas em pé simplesmente desapareceram, como que aliviadas pelo grito de mais de 26 mil pessoas. Meu primeiro show de verdade começava.

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E durou uma eternidade aquela corrida frenética em busca do ouro, os olhos correndo entre o telão central, com uma resolução absurda, e o palco, em busca de algum dos integrantes da banda. Num dos extremos do palco um vulto foi equipado com seu instrumento, um baixo. E antes que pudesse gritar alguma coisa, as luzes se acenderam sobre a bateria e Lars acenava para o público. Eu estava tão aturdido que não consegui me concentrar na música que abria o show, apenas me perguntando se aquilo era mesmo real. Eu via centenas de braços na minha frente e ao meu lado, sentia que uma multidão pulava mas eu não estava sendo esmagado contra a grade. Então entendi que estava no local certo, num dos cantos da grade da pista comum, onde não seria sufocado pela massa, onde conseguia pular e tocar todos os air instruments sem agredir ninguém. E enquanto “Creeping Death” terminava, já haviam pessoas sendo atendidas nos corredores entre as áreas do show. Desmaios, entorses, crises de asma derrubavam metaleiros antes do fim da primeira música.

Quando o primeiro sino soou percebi que estava mesmo ali e que uma das músicas que eu tanto desejava ouvir despejava vigorosamente do som, alto e claro. Berrei e pulei como nunca poderia ter feito em outra ocasião, sentindo uma liberdade e uma comunhão difícil de explicar. E quando “For Whom..” terminou foi como se um sino tivesse caído nos meus ombros, pareceu-me que eu desmaiaria sobre a grade. Por sorte havia um vendedor passando ali e gesticulei por uma garrafa da água (R$7).

A garrafa da água e a exaustão que eu sentia me tiraram a atenção durante algum tempo, que depois eu descobri ter sido suficiente para perder duas músicas. Mas quando soaram os primeiros acordes de “Fade to Black” eu já não sentia nenhum mal-estar. Evitei cantar ou mandar qualquer solo tão cedo. As duas músicas do “Death Magnetic” que se seguiram me deram tempo para respirar mais fundo e pensar no que viria logo adiante. E o Metallica foi extremamente feliz (e eu muito mais) na escolha do que veio depois. “The Day That Never Comes” foi um enorme presente. Eu poderia jurar que James Hetfield ouviu aquela letra que eu urrei descontroladamente, e quando ele puxou uma conversa com galera sobre “heavy music” a imensa maioria dos presentes soube que vinha “Sad But True”, seguida por “Cyanide”, outra bela pedida do último álbum.

Então as luzes se apagaram e as metralhadoras rugiram. Em um intro irretocável, com lança-chamas e dezenas de explosões o Metallica executou a majestosa “One”. E sem querer perder o pique recebendo uma merecidíssima ovação a banda disparou a sua jóia da coroa “Master of Puppets”. Eu realmente desejei que houvessem cordas para me mover naquele instante, o esforço de gritar e 'tocar' aquelas duas músicas tinha me transformado num farrapo humano. E eu balbulciei um 'Não pode..' quando “Battery” se anunciava para me atingir em cheio, com mais lança-chamas.

Se em algum momento um show do Metallica pode ser ruim, digo que é quando não se tem quem abraçar bem forte pra murmurar “Nothing Else Matters”. James teve a audácia de deixar todos os pobres mortais da pista comum babando pela palheta estilizada da “World Magnetic Tour” antes de liquidar a fatura, com fogos de artifício e mais lança-chamas, executando “Enter Sandman”.

Não houve muito tempo para respirar antes do bis. O riff de “The Frayed Ends of Sanity” me surpreendeu e confundiu, já que todas as minhas expectativas apontavam para algo mais curto e vibrante. E não foi “Fuel” que eu ouvi em seguida, mas algo que veio para finalmente liquidar minhas articulações, “Die, Die My Darling”. Não bastando esse petardo, “Phantom Lord” deixou muita gente (eu inclusive) sem saber o que pensar. Depois de mais de uma hora e quarenta minutos de show o Metallica resgata um dos grandes trunfos daquele thrash metal vigoroso de quase três décadas atrás. “Seek & Destroy” foi o aguardado e merecido tiro de misericórdia. Já não havia mais pescoço, joelho ou espírito que não pedisse por descanso. Depois vieram os presentinhos pros VIPs, palhetas, baquetas e afins. Os agradecimentos, a gafe de James (que ele já havia cometido no início do show, se eu ouvi bem), enfim.

E no final reuni os pensamentos para olhar para aqueles caras, que haviam me proporcionado a noite mais recompensadora que eu consigo imaginar. Percebendo como James soa mais 'caipira' e humano ao vivo do que nos DVDs. Como ele tenta transmitir um espírito de comunhão para o público, instigando uma festividade intensa e pacífica. Como Kirk Hammet sorria ao final de cada música, com uma sinceridade tão emocionante quanto sua virtuose nos (nem tão) pequenos solos que costurou entre as canções. Como Lars Ulrich parece um criança, feliz por mostrar a língua e golpear sem dó peles e pratos e falando palavrões no agradecimento. Como Robert Trujillo cumpre seu papel e faz o possível para empolgar o público com suas posturas exóticas e a girada insandecida com o baixo ao final do show. Como aquelas quatro seres humanos parecem dotados de uma energia e uma aura de empatia sobrenatural.

P.S: Ponto positivo para a fraternidade dos metaleiros. Um espectador da VIP prestou atenção aos meus gritos antes do início do show e veio conversar com um amigo meu sobre a camiseta com o brasão de Porto Alegre que era vendida na loja do evento. E ele pegou o dinheiro (R$70) e foi em direção à loja. Os 'Staff' do show riram da 'inocência' do meu amigo, que entregara tamanha quantia a um estranho. E em dois minutos ele retornou com a camiseta em mãos. Se você, caro espectador VIP, é leitor do Whiplash, eu te saúdo!

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Sobre Amir R. De Toni Jr.

20 e poucos anos, engenheiro. Começou muito tarde no rock, aos 17 anos, com "The Dark Side of The Moon" e não conseguiu mais parar. Pink Floyd, Rush, Metallica, Dream Theater e Rammstein em bom volume são o sinal de que está em casa. A vontade de ser músico é suprida com resenhas e invencionices no www.figment.cc.

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