Faith No More: maturidade com o vigor adolescente no Rio

Resenha - Faith No More (Citibank Hall, Rio de Janeiro, 05/11/2009)

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Por Vitor Bemvindo
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Uma das características mais marcantes da adolescência e juventude é o vigor. Mas o excesso de vigor vem, na maioria dos casos, acompanhado de imaturidade. Normalmente, quando a maturidade vai chegando é acompanhada por uma queda no vigor, naturalmente. Isso acontece também na música. São incontáveis os números de artistas e grupos que em inicio de carreira eram extremamente vigorosos em suas performances, mas claramente imaturos em suas composições e executando seus instrumentos. O tempo é responsável pela maturidade e, muitas vezes, pela diminuição do vigor. Este, porém, não é o caso do FAITH NO MORE, que se apresentou ontem no Rio de Janeiro, demonstrando estar no auge da maturidade musical, sem perder o vigor da adolescência e dos primeiros anos de carreira.

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Não há quem tenha sido adolescente na virada da década de 1980 para a de 1990 que não tenha curtido o som do Faith no More. A entrada da MTV no Brasil fez com que a banda estourasse no país, tornando-se mais popular por aqui do que em muitas outras partes do mundo. No início de carreira, a banda era sempre associada a cena funk metal californiana (que contava com bandas como o RED HOT CHILI PEPPERS) e de outras partes dos Estados Unidos. Mas aos poucos a banda foi amadurecendo e se tornando mais versátil, fazendo um som pesado e de qualidade, apesar de não ter mais tanto reconhecimento do público. Os últimos álbuns da banda ("King for a Day, Fool for a Lifetime", de 1995, e "Album of the Year", de 1997) não chegaram, nem de perto, a alcançar as vendagens dos "The Real Thing" (1989) e "Angel Dust" (1992), mas foram bastante elogiados pela crítica e apontavam o caminho que a banda queria seguir. Só que aí veio o fim da banda.

Em 2009, a formação do Faith No More que gravou os dois últimos álbuns se reuniu para a turnê que passou ontem pelo Rio. Quem esteve no Citibank Hall para asssistir aquela banda adolescente do início dos anos 1990 talvez tenha se decepcionado. Daquela banda só restou o vigor das perfomances. A banda que se apresentou na noite passada era a dos elogiados "King for a Day" e "Album of the Year", só que ainda mais madura e mais sóbria. Claro que alguns pontos da esquizofrenia adolescente de Mike Patton ainda sobrevivem, mas fica nisso. Há tempos o vocalista abandonou a forma esganiçada de cantar dos primeiros álbuns com o Faith No More e adotou um estilo vocal mais sóbrio e técnico. Ontem foi ele quem comandou a festa.

A platéia carioca surpreendeu, tanto pela quantidade de pessoas, quanto pela animação e participação que teve no show. A grande presença de público se deve, principalmente, a redução nos preços dos ingressos, de R$150 para R$100, o que demonstra que a cobrança de preços honestos pode trazer de volta aos shows o público consumidor de Rock do Rio de Janeiro. Ou isso, ou a "Cidade Maravilhosa" deixará de ser, definitivamente, uma das rotas dos espetáculos musicais.

A banda subiu ao palco com extrema (e surpreendente) sobriedade. Um cenário clássico, com cortinas vermelhas ao fundo e figurinos que lembram o clássico filme "Scarface", estrelado por Al Pacino. Para começar, eles tocaram a calma instrumental "Midnight Cowboy", trilha do filme "Perdidos na Noite" (1969), composta por JOHN BARRY, e que foi coverizada pela banda em "Angel Dust".

A aparente sobriedade foi irrompida por um dos clássicos da banda, "From Out of Nowhere", que levou o público ao delírio. Todos pulavam freneticamente acompanhando o vocalista. Na seqüência, veio um par de canções do "Angel Dust": a porrada "Be Agressive" e a não menos agressiva "Caffeine".

A simpatia de Patton e seus companheiros pelo Brasil passou a ser demonstrada a partir de "Evidence", antecedida por algumas palavras do vocalista e do tecladista (Roddy Bottum) que tentaram se comunicar com a platéia em português (ou algo que lembrava levemente a nossa língua). Patton cantou a faixa, original de "King For a Day..." em um português quase incompreensível. No pouco que se deu pra entender o refrão que diz "I didn't feel a thing, It didn't mean a thing" virou "eu não senti nadá, não tem significado". Mas isso pouco importou... O esforço do vocalista em cantar em português cativou o público, que a partir dali ficou em suas mãos definitivamente.

Após a balada, veio o petardo "Suprise! You're Dead!" (do "The Real Thing"), que mais uma vez levou o público ao nirvana. A cadenciada "Last Cup of Sorrow" (do "Album Of The Year") mostrou uma característica marcante dos show: muitos efeitos adicionados aos vocais. Patton usou, em muitas partes da apresentação, efeitos para distorcer sua voz, entre eles o uso de megafones. Mas isso, em nenhum momento, retirou a naturalidade do show.

O peso de "Ricochet" contrastou com a doçura de "Easy", que veio logo em seguida. O cover do THE COMODORES fez sucesso entre as meninas e o público fez a já tradicional coreografia com seus isqueiros em riste. A balada serviu para a banda e o público tomarem fôlego "Midlife Crisis" e o principal hit da banda, "Epic", que quase pôs a casa abaixo. Pareceu evidente que a banda não tem muita paciência para tocar os ditos "clássicos". O guitarrista Jon Hudson chegou a dar uma "escorregada" em algumas notas do solo. A atuação do responsável pelas seis cordas do Faith No More se não comprometeu, também não esteve à altura dos seus excelentes companheiros de banda.

O ritmo deu outra guinada quando eles executaram sua bossa nova estilizada, "Caralho Voador". A canção, totalmente non sense, demonstrou ao menos que o português de Patton evoluiu de 1995 pra cá. A música foi intercalada por "Ela é Carioca", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Ao cantá-la, Patton apontava pra si próprio como se quisesse dizer que também é carioca. A simpatia em fazer essas referências cativou ainda mais o público.

A bossa foi seguida pela esquizofrênica "The Gentle Art Of Making Enemies", e logo depois mais uma do mesmo álbum "King for a Day". A faixa-título do álbum de 1995, apesar de ser uma boa canção, foi o ponto baixo do show. O interlúdio feito para uma série de efeitos sonoros enfadonhos com sirenes e outras chatices tornou a canção longa e desnecessária. Essas loucuras sonoras são heranças da primeira banda de Patton, o MR. BUNGLE, que apesar de não terem agradado não chegaram a comprometer o show.

Na seqüência foi executada uma das melhores canções do último disco da banda "Ashes to Ashes". O riff e o trabalho de guitarra dessa faixa é sem dúvida a melhor contribuição de Hudson para o grupo (e também para o show). O primeiro set foi encerrada pela melodiosa "Just a Man", quando Patton regeu a platéia em uma coreografia com de movimentos coordenados com os braços suspensos.

A banda deixou o palco, para retornar poucos minutos depois, fazendo uma jam instrumental, que lembrou o tema de "Scarface", introduzindo a única faixa da era pré-Patton tocada no Rio: "We Care a Lot" que, mais uma vez, fez que todos pulassem à exaustão.

O grupo foi para os bastidores mais uma vez e a platéia em uníssono começou a pedir "Falling to Pidces", faixa que a banda não costuma tocar na turnê, mas que fez um enorme sucesso no Brasil por conta da enorme reprodução feita nas rádios e na MTV no início dos anos 1990. Meio desconcertados, eles voltaram ao palco e atenderam ao pedido dizendo em bom português: "Só porque é no Rio!". O público foi à loucura e mal percebeu que os caras visivelmente não estavam confortáveis em tocar a faixa. Patton esqueceu boa parte da letra obrigando o excelente baterista Mike Bordin e Roddy Bottum cantarem. Mesmo assim atenderam o pedido com a maior simpatia e fecharam o show com chave de ouro.

Sem dúvida um dos melhores shows internacionais do ano no Rio. O Faith No More demonstrou ontem que estão no auge da maturidade musical, sem perder o vigor adolescente dos primeiros anos de carreira.

Mike Patton, apesar de abusar de efeitos, está em plena forma, cantando como nunca cantou em toda carreira. Mike Bordin esteve excelente como sempre, mantendo-se como um dos melhores bateristas do mundo há quase vinte anos, apesar dos longos dreadlocks estarem cada vez mais brancos. O baixista Billy Gould tem um evidente talento para tocar com peso e ao mesmo tempo com swing. O tecladista Roddy Bottum, apesar de aparentar ser um tiozinho da loja de sapatos, continua teclando com propriedade e o guitarrista Jon Hudson não compromete. Uma banda de rock com todos os requisitos para fazer um excelente show de rock, como o presenciado ontem.

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Sobre Vitor Bemvindo

Historiador de formação, tem verdadeira adoração pelo Rock and Roll desde sua infância. Seu instinto de pesquisador fez com que "se especializasse" em bandas velhas, especificamente as das décadas de 1960 e 1970. Produz e apresenta o MOFODEU (www.mofodeu.com), o Programa que tira o MOFO do ROCK, juntamente com seu parceiro Luiz Felipe Freitas (a Enciclopédia do Rock). O Programa está no ar desde 2007, tocando só bandas sessentista e setentistas sempre com muita informação e bom humor.

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