Misfits: o horror punk invade a capital gaúcha

Resenha - Misfits (Opinião, Porto Alegre, 18/05/2008)

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Por Henrique Caveira
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Dezenas de coisas negativas sobre a atual formação da clássica banda de punk rock THE MISFITS vêm sendo ditas nos últimos anos. Só para citar as mais recorrentes, estão as alegações de que não existe Misfits sem Danzig, que a última formação digna de nota foi a que gravou os excelentes álbuns "American Psycho" (1997) e "Famous Monsters" (1999), que Jerry Only é um centralizador que usurpou o legado da banda para si, que além disso o baixista ter assumido os vocais da banda é uma verdadeira pirataria, que a formação atual não passe de caça-níqueis de velhos roqueiros desempregados e por aí vai.

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O pior é que os fatos corroboram algumas destas críticas. Criada após a dissolução da formação "ressurrected" (que tinha o ótimo Michale Graves nos vocais), a formação Jerry Only / Dez Cadena / Marky Ramone (atualmente substituído por Robo) tinha a desculpa de ser uma mera "reunião festiva" em homenagem aos 25 anos do Misfits. O nome daquela formação, sugestivamente, era M25. Todavia, mais uns bons anos se passaram, Marky saiu do grupo e - em oito anos - a única gravação que essa formação registrou foi um álbum de covers de antigos clássicos do rock cinquentista, o obscuro (porém divertidíssimo) álbum "Project 1950". É verdade que a banda promete há dois anos um novo álbum "de verdade", mas até o momento a verdade é que a formação pós-Michale Graves não contribuiu com nenhuma nova música para enriquecer o legado de horror do Misfits.

Outra coisa que dava força aos críticos do Misfits atual é o fato de que, quando a banda veio fazer os primeiros shows da M25 por aqui, em 2001, o que se constatou era mesmo o que todos temiam: Jerry Only cantava mal pra caramba! É verdade que todo mundo curtiu adoidado aqueles shows, até porque tinham o folclórico Marky Ramone na bateria e um setlist imenso cheio de clássicos do Misfits e dos Ramones. Ainda assim, a verdade é que Only simplesmente assassinava todas essas músicas ao vivo. E a presença de Dez Cadena, egresso da antiga Black Flag, não ajudava em nada. Ele era um pálido substituto para a emblemática figura do guitarrista anterior, Doyle Von Frankenstein, um membro clássico do grupo.

E eis que o Misfits volta a Porto Alegre como trio, pela terceira vez (a outra foi em 2003). E o que se viu é que Only & Cia arregaçaram as mangas para calar a boca dos críticos de plantão de uma vez por todas.

Primeira diferença: a consistência do setlist e da formação. No lugar daquele circo festivo que envolvia Marky e pérolas dos Ramones, o Misfits voltou a prezar pela sua identidade e conta com Robo, um dos antigos bateristas da banda, novamente no comando das baquetas. Dez Cadena continua não sendo um Doyle no aspecto visual, e investe menos numa sonoridade característica de guitarra do que Doyle fazia. Ainda assim, seu visual morto-vivo e precisão na maior parte das músicas mostram que ele se integrou decentemente no Misfits do século XXI.

Mas a grande surpresa do Misfits atual é mesmo o bom e velho Jerry Only. Meus amigos, vocês não têm idéia de como esse sujeito melhorou nos vocais! Sua performance esgoelada, desafinada e sem fôlego de 2001 foi substituída por uma atuação irretocável, precisa e que manteve o nível do histórico da banda ao vivo. Digo para vocês, com absoluta certeza, que Only está cantando muito melhor do que Myke Hideous, o vocalista temporário que veio para o Brasil com a banda na tour do álbum "American Psycho" em 1998. Only executou duas dezenas de clássicos do Misfits com a mais absoluta perfeição, não deixando nada a desejar a qualquer registro ao vivo da banda em qualquer época. Foi de tirar o chapéu. O baixista já tinha exibido um bom potencial como cantor no bom álbum "Project 1950", mas todo mundo sabe que em estúdio é muito fácil fazer bonito. O desafio real para um vocalista é encarar uma performance ao vivo, e jerry Only - do alto de seus 47 anos de idade - cumpriu a tarefa com louvor.

O setlist do show foi uma diversão à parte. O célebre tema do clássico de horror "Halloween" começa a tocar anunciando a banda, e um minuto depois o trio entra em cena desossando sua música de mesmo nome, uma de suas músicas mais antigas. Na sequência, diversas pérolas do Misfits "fase Danzig", executadas furiosamente na maior velocidade possível, com destaque para hinos do horror punk como "20 Eyes", "Hybrid Moments", "Horror Hotel", "Hollywood Babylon", "Attitude", "Earth A.D", "Angelfuck" e a maravilhosa "Some Kinda Hate", que fez todo mundo pular e cantar ensandecidamente.

A parte do setlist dedicadas às velharias clássicas dá lugar ao som dos primeiros acordes de "The Abominable Dr.Phibes", seguida de "American Psycho", "Walk Among Us" , "From Hell They Came" e da sensacional "Dig Up Her Bones", que é indiscutivelmente a mais clássica música do Misfits dos anos 90. A euforia com a qual esses sons do álbum American Psycho de 1997 foram recebidas pelo público presente mostra que a banda tem o mérito inegável de ter reciclado o seu público. Que o diga o público presente, constituído majoritariamente pela garotada de 15 a 18 anos. A maioria dos presentes neste show do último dia 18/05 certamente era recém saída do jardim de infância quando eu vi o Misfits pela primeira vez ao vivo em 1998 - e a banda já era velha naquela época!

Depois dos sons do "American Psycho", a banda emendou algumas músicas do álbum seguinte, "Famous Monsters": "Kong at the Gates", "Forbidden Zone", "Crawling Eye" e "Helena". Muita gente contava com a presença da popular baladinha-terror "Saturday Night", mas essa infelizmente ficou de fora do setlist. Por fim, a banda ainda apresentou mais alguns clássicos da fase Danzig, incluindo a célebre e famosa "Last Caress" (amplamente coverizada ao vivo e em estúdio pelo Metallica, dentre outras bandas) e "Die Die my Darling" (outro tema que ganhou notoriedade por causa do cover feito pelo Metallica).

Ao longo do show, foram tocadas ainda duas ou três músicas da Black Flag (antiga banda punk da qual participaram Dez Cadena e Robo), com destaque absoluto para a divertidíssima "Rise Above".

Terminado o show, Jerry Only volta ao palco, pede ovações (sendo plenamente atendido) e oferece autógrafos para a multidão presente, que "aluga" o velho Misfit pedindo fotos e autógrafos em tudo o que se possa imaginar, incluindo roupas, papéis diversos e até tênis!

O show de Porto Alegre lavou a alma dos fãs do Misfits. Foi uma oportunidade admirável, quase sem paralelos, de testemunhar ao vivo a performance de alguns dos últimos representantes do legítimo punk rock de primeira geração. São poucos os autênticos pioneiros do gênero que continuam vivos e na ativa.

Vale ainda destacar que um público admirável compareceu no Opinião, virtualmente lotando o lugar apesar da fraquíssima divulgação e do potencial comercial nulo que a banda tem. Tecnicamente, esse foi o melhor dos três shows que eu vi da banda como trio, só perdendo para a apresentação do grupo em Curitiba em 1998, que foi inesquecível. O setlist foi ótimo, Jerry Only pela primeira vez na vida faz jus ao seu posto de vocalista da banda e o público do Misfits não só encontra-se preservado como continua crescendo e reciclando-se, o que é simplesmente admirável para uma banda que não apresenta material inédito há quase uma década. Esta foi a quarta vez que eu vi Only & Cia ao vivo em dez anos, e estou aguardando ansiosamente não só por um novo álbum de inéditas da banda, mas também pela oportunidade de ouvir esses clássicos do horror ao vivo pela quinta vez. Afinal de contas, WE ARE THE FIEND CLUB!




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