Queensryche: Massacre Heavy Metal para pouco público no Rio de Janeiro
Resenha - Queensryche (Citibank Hall, Rio De Janeiro, 08/05/2008)
Por Rafael Carnovale
Postado em 12 de maio de 2008
Como definir um show memorável? Como um ótimo show? Ou um show FODA? Como explicar o massacre "heavy metal" que o quinteto norte-americano (me desculpem, mas o termo estadunidense me dá náuseas) Queensryche promoveu para um Citibank Hall vazio? (cerca de 800 pessoas estavam presentes). Seriam estes poucos, mas fervorosos fãs testemunhas da magia do heavy metal? Ou apenas pessoas que tiveram a felicidade de estar no lugar certo na hora certa e com a banda pronta para detonar 1h50 de toda a sua carreira? Vai saber...
Fotos: Carolina Santiago
O fato é que a banda, ausente de nossos palcos desde 1997, não veio ao Brasil para promover a turnê do DVD "Mindcrime At The Moore", que contava com a execução das duas partes da saga "Operation Mindcrime", com direito a atores, telões e muitos efeitos. Como desde 1997 foram lançados diversos trabalhos, o grupo priorizou nos brindar com o melhor de sua extensa carreira... e houve quem achasse que não teríamos um bom show. Mas mesmo assim a noite prometia, já, que além dos grandes sucessos na manga, ainda poderiam ser executadas as belas versões do recente "Take Cover". Ou seja, prato cheio para quem gosta do estilo.
Vou tirar um parágrafo desta resenha para falar sobre o pouco público presente, mas opto desta vez por não apontar culpados. Poderia dizer que a meia-entrada (que é um direito legal) ajuda a dificultar as coisas, poderia por a culpa nos promotores, ou até mesmo no fato de o poder aquisitivo de nossa população não permitir arcar com tantos shows rolando ao mesmo tempo (se o dólar está baixo o salário também). Vejo sinceramente que a solução para tal problema, não só no Rio, mas em qualquer estado (vamos parar com a hipocrisia de dizer que este ou aquele é o lugar certo para shows, qualquer estado do Brasil tem seu público amante de heavy metal, independente de sua localização, desde que respeitadas as características regionais de cada espaço, logo... parem de bairrismo e acusações ok?). A solução ideal passa por um consenso entre público, bandas, promotores, UNE e qualquer pessoa envolvida no meio... enquanto cada pessoa só olhar para seu umbigo (e vejam que não estou tomando partido de A,B ou C) podemos nos contentar com preços altos, público insatisfeito e cada vez menos shows em nosso estado. E tenho dito! (Opine no fórum: o que fazer para que mais fãs de metal tenham acesso aos shows?)
Voltando ao evento, era perceptível que tudo seria concentrado na música, sem atrativos como atores ou efeitos especiais, já que apenas um "backdrop" com o nome da banda e o famoso símbolo se encontrava no palco. Às 22h10 (o show estava marcado para 21h30), Geoff Tate e asseclas sobem ao palco detonando tudo com "Best I Can" (música do CD "Empire", também tocada no Rock In Rio II), seguida por "NM156" e "Screaming In Digital". Era perceptível que os músicos nem notaram o público reduzido, e mandaram brasa, mesmo que ao vivo a banda não seja adepta de grande movimentação, que fica a cargo do elegante e sensacional vocalista Geoff Tate (aliás... aonde esse cara ta comprando voz? Desde o Rock in Rio não o via cantando tanto...).
Uma pausa para Tate agradecer ao público e anunciar que teríamos uma seleção vasta de músicas, do passado ao presente, e duas do "Operation Mindcrime II" são executadas: "Hostage" e a sensacional "The Hands", que mexeu com um público que a princípio parecia mais observar e filmar (a geração "Youtube"), mas que agitava e ouvia atentamente os discursos de Tate (filosóficos, sacanas e respeitosos), um legítimo "gentleman", com postura de palco única e um dos poucos vocalistas que interpreta cada palavra que canta, escorado pelas guitarras de Michael Wilton e Mike Stone, e a cozinha de Eddie "EdBass" Jackson e Scott Rockenfield (outro monstrinho do instrumento).
A banda aproveita o momento para executar a bonita "Bridge" (balada de "Promised Land") e "The Killing Hands" (precedidas por discursos de Tate, que falava de tudo: pessoas que erram em suas escolhas, as "mãos que escolhem errado", e sobre sonhos e destino). O público, que alternava o silêncio de quem escuta um messias quando o vocalista falava, entrava em êxtase ao ouvir músicas como "Another Rainy Night (Without You)" e "Walk In The Shadows" (com "Gonna Get Close To You no meio". Geoff começa a falar dos primórdios da banda e diz claramente que "o Black Sabbath foi uma das bandas que nos inspirou quando começamos em 1981", apresentando a versão matadora para "Neon Knights". Mesmo que o Queensryche possua um repertório memorável, ouvi-lo executando um clássico do metal foi emocionante, ainda mais com uma performance que beira a perfeição e escorada por um som quase perfeito (um dos melhores que já pude presenciar na casa desde 2002, quando comecei a cobrir shows).
"Last Time In Paris" (bônus da versão "remaster" de "Empire") é executada, e serve para dar uma esfriada, que não dura muito com "Breaking The Silence" (primeira do clássico "Operation Mindcrime" a ser executada) e "Anybody Listening?". A platéira urraria (800 vozes que pareciam 2000) ao ouvir "Jet City Woman" e "Eyes Of A Stranger", encerrando o "set" normal.
Acreditam que 1h20 passou por nossos olhos como se fossem 20 minutos? Isto é a magia de um show perfeito!
Voltando para o "bis", uma versão com andamento mais lento de "The Lady Wore Black" é executada, seguida das excelentes "Empire" e "Take Hold Of The Flame". Quem pensava que já tinha visto de tudo iria se surpreender com o fato da banda encerrar o show com a balada "Silent Lucidity".
Ao término todos eram pura alegria, banda enrolada na bandeira do Brasil, e cariocas surpresos e até estupefatos por presenciarem um grupo com quase 30 anos de vida e que ainda parece dar seus primeiros passos. Perdeu? Perdeu mesmo cara... porque este já é forte candidato a melhor show de 2008.
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