Arch Enemy: No show em Belo Horizonte, a primeira impressão foi ótima
Resenha - Arch Enemy (Armazzém 841, Belo Horizonte, 03/02/2007)
Por Maurício Gomes Angelo
Postado em 06 de fevereiro de 2007
Com um público até muito além do esperado, a trupe de Michael Amott chegou a Belo Horizonte para mostrar toda a tradição do death metal melódico sueco. Mas... será que eles se encaixam na descrição?
Muito mais gostoso que tentar encontrar um rótulo apropriado é entender o porquê disto tudo. Para chegarmos ao DNA do Arch Enemy é preciso voltar quase 20 anos no tempo. Antes de montar seu próprio grupo de metal extremo, Amott ajudou os ingleses do Carcass a saírem de seu grind extremamente gore e tosco (porém, não menos influente) para uma sonoridade intrincada e original, gerando obras primas como "Necroticism" e principalmente "Heartwork". Na mesma época, surgia na Suécia um grupo considerado o fundador do death melódico: At The Gates, criando a pedra base do estilo, "Slaughter Of The Soul" – que ainda não foi e, talvez, levará muito tempo para ser superada.
Bom lembrar que Adrian Erlandsson, baterista, irmão de Daniel, era membro do grupo. Explodia o "Gothenburg Sound". In Flames, Dark Tranquillity (o que mais se assemelha ao Arch Enemy), The Haunted, Soilwork e Darkane apareciam para o mundo. Junte a isso o tempero stoner – não conhece o estilo? Deveria... – da outra banda de Amott, o também ótimo Spiritual Beggars. Por fim, some todo o aprendizado heavy que o baixista Sharlee D’Angelo adquiriu no Mercyful Fate e terás uma boa noção do resultado.
A feliz conclusão dessa papagaiada toda é que, muito diferente de algumas bandas citadas neste texto, o Arch Enemy jamais perdeu o rumo e a coerência de sua sonoridade, evoluindo em álbuns de extremo bom gosto e composições que beiram a primazia. A melodia, longe de significar incursões proeminentes de teclados, serve para lubrificar as estruturas rígidas do death e dar vida aos solos e harmonias carregados de feeling de Amott. Claro que o fato do Japão ser terra fértil para eles há tempos contribui, e muito, para a ênfase neste quesito. "Hybrids Of Steel", "My Apocalypse", "Burning Angel" e "Skeleton Dance" dão mostras nítidas disto.
A entrada de Frederik Akkeson, um virtuose que não se sentia em casa no bom grupo de hard Talisman, sem dúvida contribuirá ainda mais para o desenvolvimento do quinteto. Ao vivo, pode-se constatar que ele não teve dificuldade nenhuma para alcançar um bom entrosamento.
O Armazzém, lotado, viu boquiaberto a irrepreensível tríade de abertura: "Nemesis", "Enemy Within" e "Dead Eyes See No Future". Simplesmente três dos melhores momentos da história da banda. "Nemesis" é um open-act perfeito... riff esmagador e pura base thrash oitentista. O som da casa, normalmente muito bom, comportou-se exemplarmente durante todo set, em especial nas guitarras, o que pode ser sentido nos solos de Amott e Akkeson – curtos e suculentos, longe da fritação gratuita.
Muito se fala sobre o "fator Angela Gossow". Que a entrada dela significou uma guinada fundamental na carreira da banda. Sim, é verdade. Mas isto não se dá porque ela canta muito melhor que o anterior, John Liiva. Claro que ela manda bem, inclusive ao vivo, mas é limitadíssima e, no fim das contas, nada espetacular: comparando-a com outros vocais guturais, obviamente. Ouçam Mikael Stanne, por exemplo. A louvação toda se dá em virtude do aspecto inusitado da performance e do posto ocupado por ela. De fato há pouquíssimas mulheres sendo frontwoman’s de bandas extremas. E aqui temos uma certa "boa vontade forçada" da mídia, um sentimento de dívida histórica não muito saudável. Algo como que, pelo simples fato de Angela ser mulher, a exigência se tornasse menor e a predisposição para adorá-la fosse maior que a normal. Isto, pra mim, não passa de preconceito e machismo enrustido – justamente o contrário do que tentam aparentar. Não se trata de peninha, mas competência. E isto ela tem. Ponto. É desnecessário, e forçado, exagerar nos elogios direcionados a ela.
"Diva Satanica", o clássico "The Immortal" e "Bury Me An Angel", além de incendiar o público, que de modo geral respondeu muito bem durante todo o show, serviram para comprovar a admirável sintonia instrumental de D’Angelo, Amott e Erlandesson, facilitada, claro, pelos quase 10 anos tocando juntos.
"Ravenous", "Dead Bury Their Dead" e "We Will Rise" (ao contrário das outras duas, uma música fraca e elevada à condição de "obrigatória" apenas pelo clipe e promoção feitas...), fecharam a noite com maestria. No fim, era nítido a satisfação e o contentamento nas expressões e comentários de todos. Talvez um dos poucos shows em que vi uma unanimidade até agora.
Nada indica que eles vão descambar para o eletrônico ou flertar com o duvidoso metal de jeitão estadunidense, como vários colegas de cena fizeram. Então, que continuem refinando sua acerta mistura de death, thrash, heavy, stoner e prog, que é o mais tímido e seria muito bem vindo em doses maiores. Com um guitarrista como Michael Amott liderando os trabalhos, não há muito para se preocupar.
A primeira impressão foi ótima. Que voltem mais vezes.
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