Resenha - Deep Purple (Gigantinho, Porto Alegre, 25/11/2006)

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Por Alcio Mota
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Quando meu filho de 14 anos apareceu em casa com dois ingressos para o show do Deep Purple em 25/11/06 no Gigantinho em Porto Alegre, da turnê “Rapture of the Deep”, admito que não me entusiasmei muito. Já tinha visto o Purple no mesmo Gigantinho, em agosto de 91, e havia me decepcionado.

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Naquela época, a formação, que já mudou várias vezes, trazia um tal Joe Lynn Turner no vocal, um cara muito mais preocupado com trejeitos efeminados e saltinhos de gazela do que honrar a tradição dos vocalistas poderosos do Deep Purple. Um “poser” representante do rock farofa como diriam os detratores. Fora isto, os outros integrantes da época, estes sim, legítimos exemplares da velha estirpe, estavam ali só para cumprir contrato: a má vontade era evidente e o show foi um desastre. Foi uma das poucas vezes que saí antes do fim do espetáculo e isto me deixou por muito tempo com um pé atrás com a banda. Não acompanhei mais a carreira dos caras e nem me cansei em assistir ao show de março de 97, no Opinião em Porto Alegre. Depois de ontem, me arrependi.

A formação atual traz o velho (mesmo) vocalista original Ian Gillan, o não menos velho baixista Roger Glover, o também decano baterista Ian Paice, única posição que se manteve a mesma desde os anos 60, o tecladista Don Airey, que substituiu Jon Lord, aposentado por idade, e Steve Morse, o “garotinho” do grupo (que já tem mais de 50), substituto do “guitar hero” Ritchie Blackmore, que saiu, dizem, por incompatibilidade de gênios (literalmente) com Ian Gillan.

Esta turma de velhinhos entrou em cena numa produção espartana. Nada de telões, raios laser, gelo seco, backing-vocals e músicos de apoio. Somente os cinco numa estrutura honesta de som e luz, e um pano de fundo com o nome da banda em letras garrafais. Diga-se de passagem, a banda Scelerata de Porto Alegre, que abriu o show e faz um heavy metal na linha do Iron Maiden (pra quem gosta, é uma boa pedida), sofreu com a falta de luz e microfonias. Tive pena desta gurizada, que queria mostrar a que veio, mas foi seriamente prejudicada pela parte técnica. Isto aumentou meu receio quanto ao show principal. Não se pode esquecer que eu estava com meu filho, e seria muito ruim para o moral das bandas dinossauro dos anos 70, que eu tanto propagandeio para ele, se o Deep Purple fizesse outro fiasco.

Mas, que bom que eu estava errado! Quando a “garotada” entrou no palco, como uma prosaica banda de colégio, o Gigantinho veio abaixo. Aliás, que platéia! Como sempre em shows deste tipo, a amplitude da faixa etária era enorme. Gente de 10 a 60 cantando refrões de “hits” de mais de 30 anos como se fossem marchinhas de carnaval que já estão no inconsciente coletivo. Uma beleza! Tudo funcionou bem, até a qualidade de luz e som que foram negadas à banda de abertura.

Os primeiros temas mostraram um Ian Gillan carismático como sempre. Aquele jeitão de tiozão bacana, que todo mundo gostaria de ter na família, vestindo uma singela camiseta preta, calça de abrigo e pés no chão. Sorridente, laconicamente falante (“fantastic”, “unbelievable”...), meio desajeitado, mas ainda em forma para a idade, Gillan continua sendo um grande vocalista. É certo que não alcança mais os agudos que o mitificaram, mas quando solta a voz... Parece que aquele timbre inconfundível hipnotiza os ouvintes, que perdoam sorridentes uma ou outra semitonada. Além disto, Gillan é um vocalista experiente e inteligente: se uma passagem exige mais do que sua voz pode dar, ele simplesmente altera o tom e bola pra frente.

Entre temas recentes, do novo álbum “Rapture of the Deep”, clássicas da primeira fase da banda, do período pré David Coverdale-Glenn Hughes (vocal e baixo de 73 a 76). Aqueles standards que todo mundo quer ouvir: “Highway Star”, “Smoke on the Water”, “Space Truckin’”, “Into the Fire”, “Strange Kind of Woman”, “Lazy”, “Hush”, entre outros, tocados sob as marteladas e estocadas da competentíssima dupla da cozinha Paice-Glover. Os “novos” da turma, Airey e Morse, não deixaram pra menos. Os teclados do aposentado Jon Lord, de formação erudita, sempre foram um diferencial do Purple. Don Airey mantém a tecladeira da banda em boas mãos: bases potentes e pesadas (é, no Purple isto é possível) e solos virtuosos, em freqüentes diálogos com voz e guitarra, com pitadas de música clássica, jazz e outras influências do tecladista (incluindo uma passagem do tema de “Star Wars” e até uma inusitada homenagem à música gaúcha: Canto Alegretense). Já Steve Morse, o único americano entre os ingleses, é um caso a parte. Os saudosistas diriam que Ritchie Blackmore é insubstituível. Por um lado eles estão certos: Morse não é o showman que foi Blackmore, não tem a carismática antipatia do guitarrista original, nem faz aquela quebradeira de equipamentos. Ele toca guitarra, e como toca! Aliás, creio que foi daqueles adolescentes que decoravam tudo de seus ídolos e, sem dúvida, Blackmore foi um deles. Num pout-pourri de riffs, ele citou Jimi Hendrix, Black Sabbath e Guns’n’Roses. Mas ele não é só um intérprete de primeira, cria muito e bem. De 94 para cá, tudo o que o Purple fez tem a ajuda dele.

O que faltou? Bem, pra não dizer que tudo foram flores, senti falta de um telão. De onde estava, na arquibancada (não me arrisco mais a ir para a pista), mal dava pra distinguir os rostos no palco. Um telão tem a qualidade de democratizar a visão, pelo menos em parte. E, claro, sempre falta “aquela” música que a gente espera. Apesar de Ian Gillan dizer que não consegue mais cantar “Child in Time”, bem que ele podia ter tentado: se desafinasse, ninguém ia se importar.

No bis final, “Black Night”, rockão básico e envolvente, juntou a galera num coro afinado, que se manteve firme mesmo depois de acenderem as luzes. Apesar de toda história, eles tocam para o público, de verdade, sem jogo de cena, como iniciantes que querem mostrar seu talento numa garagem de porta aberta. O Purple atual não tem nada a ver com o enorme dinossauro que foi no meio dos 70, um verdadeiro brontossauro, pesadão e voltado para si. Talvez o movimento punk tenha deixado algum legado: hoje ele é pequeno, rápido e voraz, um velociraptor, um dinossauro do tipo que nunca será extinto, para a alegria de seus fãs, que embora também envelheçam, se reproduzem com a mesma voracidade.

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