Sisters Of Mercy: Muito gelo seco e poucos hits no show de São Paulo

Resenha - Sisters Of Mercy (Via Funchal, São Paulo, 19/05/2006)

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Por Valdir Antonelli (Drop Music)
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Foram 16 anos de espera para uma boa parcela dos fãs que estiveram no Via Funchal. Vários tiozinhos com seus quase 40 anos - muitos outros acima disso - resolveram tirar o sobretudo do armário, resgataram a velha e surrada camiseta preta com o logo da Merciful Release e pintaram os olhos para relembrar os bons tempos de Retrô, Cais, Madame Satã e Anny 44. A outra parte do público, formada por uma molecada bem mais nova, conheceu o Sisters por meio destes mesmos fãs antigos ou em baladas alternativas. Eram os góticos tomando de assalto a Vila Olímpia e pintando de preto o Via Funchal.

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Originalmente publicado no site www.dropmusic.com.br

Fotos por Ricardo Zupa (www.ricardozupa.com.br)

Muita gente assistiu ao show com um pé atrás, as críticas das apresentações no exterior foram categóricas em dizer que era uma perda de tempo, mas o que vimos foi uma banda tentando sobreviver ao estigma de ser conhecida apenas pelos seus sucessos passados, tanto que das 20 canções do set, 7 eram músicas mais novas e ainda não lançadas em disco. A banda confirmou o que Eldritch disse em entrevista coletiva e não tocou nenhuma canção do primeiro disco, First and Last and Always, e, ainda, apresentou apenas três canções da primeira fase da carreira. Mas a apresentação não agradou a todos, uma boa parte do público saiu decepcionada e os motivos são vários, desde a fumaça, passando pela qualidade do som - quem estava longe do palco recebia o som distorcido - e pela falta de hits.



Começando pontualmente às quinze para as onze da noite, o Sisters of Mercy não se rendeu ao público, que queria os antigos sucessos, e logo de cara apresentou Crash and Burn, uma das novas. Recebida com certa frieza, apesar dos gritos da multidão, Crash and Burn representou bem o que seria a apresentação da banda, guitarras pesadas - sim, beirando o metal - durante todo o show. Na seqüência, duas do Vision Thing, a sensacional Ribbons e Doctor Jeep/Detonation Blvd, que só foi reconhecida pelo público no refrão. As mudanças em alguns arranjos, talvez, foram os maiores problemas durante o show. Algumas canções tiveram suas introduções tão modificadas, principalmente pela falta de baixo, que só quando Eldritch começava a cantar é que o público sacava qual a música estava sendo apresentada. Foi assim até mesmo com Dominion/Mother Russia e This Corrosion. E, por mais que o vocalista afirmasse que o baixo não faria falta, fez, principalmente no material antigo, calcado nas linhas de baixo e no vocal gutural de Eldritch. Até mesmo onde o baixo estava presente, como em Alice, o volume estava tão baixo (desculpem o trocadilho) que seria o mesmo se o instrumento tivesse sido esquecido.

Os músicos que acompanham a banda são competentes, mas ficou visível, lá no segundo bis, enquanto apresentavam Top Nit Out (instrumental), que a presença do "dono" do Sisters no palco podava as investidas dos dois guitarristas Chris May e Ben Christo, ambos se mostraram bem tímidos durante toda a apresentação e se não fizeram besteira, também não surpreenderam ninguém. Já a performance de Andrew Eldritch foi contida, assim como sempre foi, apenas alguns passinhos robóticos e alguns trejeitos, mas mesmo que ficasse estático o tempo todo, compensaria com a voz, ainda potente mesmo depois de 25 anos. A respeito das dúvidas de alguns fãs, achando que o vocalista usou playback, se fosse assim a voz sairia perfeita durante todo o show, algo que não aconteceu. Por diversas vezes o vocal ficou inaudível, mesmo para quem estava do lado das caixas acústicas.

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E não adianta os fãs radicais falarem que o show foi perfeito, só porque tocaram músicas que não costumam apresentar ao vivo, como a irreconhecível versão para When You Don`t See Me. O show só teve uma boa resposta do público quando as músicas mais conhecidas foram apresentadas. Nem mesmo Alice, um dos primeiros sucessos da banda em nossas baladas underground, conseguiu levantar o público da forma que Dominion e This Corrosion fez. Mas nem nisso Mr. Eldritch ajudou, já que tirou uns bons minutos de This Corrosion. E onde foi parar a introdução de Temple of Love??? O hit máximo da banda foi violentado e encurtado pela metade, tudo para cumprir a hora e meia exata de show.

E o que era aquela fumaça? Sim, eu sei que os shows da banda são cheios de fumaça, e isso desde o começo da carreira, mas é só lembrar do ótimo show de 90, também com fumaça e pouca iluminação, para termos uma noção; desta vez houve um certo exagero com o uso do gelo seco. Talvez usando uma iluminação mais potente o efeito tivesse sido mais positivo. Junte-se isso à proibição pela banda do uso de telões, então é possível dizer que metade do público apenas ouviu o show.

O grande senão da apresentação se deve à falta de canções do First and Last and Alway. Por mais que ele não toque estas músicas há muito tempo, por mais que Eldritch não vá com a cara de Wayne Hussey, por mais que ele não goste do disco, ele teria que se lembrar que quem manteve o Sisters vivo durante todo este tempo, e tem lotado todos os shows da banda, são os fãs, e estes têm o direito de querer ouvir Marian, Walk Away, Black Planet e outras. Ao substituí-las por canções mais novas, e sem muito apelo junto ao público, o líder do Sisters perdeu a chance de fazer história. Claro que sabemos que o show do Via Funchal, assim como o deste sábado no Circo Voador, segue o set-list usado na turnê, mas poderiam abrir algumas exceções para as apresentações no Brasil. Ao contrário dos públicos pela Europa e América do Norte, que têm a chance de ver o grupo com mais freqüência, nós ficamos 16 anos sem ver a banda e merecíamos uma atenção um pouco maior.

Não adianta chegar no final do show e dizer que estava no melhor lugar do planeta.




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Sobre Valdir Antonelli (Drop Music)

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