Resenha - Evergrey (Armazzém 841, Belo Horizonte, 02/10/2005)

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Por Maurício Gomes Angelo
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A marcação de um show do Evergrey em Belo Horizonte certamente havia me surpreendido, e o nível de apreensão a partir dali foi palpável. Novos queridinhos do prog metal (?) mundial, reverenciados exaustivamente e ídolos na Suécia, a popularidade da banda na capital mineira é mínima e os riscos de tal produção, muitos. Um público pequeno já era esperado. Mas, se considerarmos que duas novas bandas – Silent Cry e Khallice, grandes nomes do metal nacional – foram adicionados posteriormente ao cast, e a promoção foi boa, divulgando o espetáculo em rádios locais, flyers e cartazes, os 300 presentes constituem uma recepção decepcionante.

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Mesmo com um Armazzém vazio, o Silent Cry sobe ao palco apresentando a solidez de seu gothic metal e promovendo o novo álbum, “Darklife”. E a ênfase foi toda para o trabalho citado, indo desde pedradas como “Sufocated In Darkness” e “Sweet Serenades”, passando pela intrincada “My Tears Are Still Falling” até a classuda “Wine’s Dance”. Sandra Felix, a vocalista, é uma surpresa positiva ao vivo, pois consegue levar com a mesma competência que em estúdio suas linhas vocais balanceadas. A eficaz “frontwoman” representa uma banda coesa e que está, passo a passo, conseguindo se diferenciar dentro do poluído cenário do gothic metal, se afastando, dentro dos limites, de suas influências.

O título de “Dream Theater brasileiro” conferido ao Khallice pela imprensa nacional gerava suspeitas e uma alta expectativa. O desconhecimento do público era outro problema. Contudo, não foi preciso ter consciência da capacidade destes brasilienses para que o Armazzém ficasse estupefato diante da performance. Impondo um respeito magistral à assombrada platéia, que, sem dúvida, se converteu a fã instantaneamente, o Khallice provou ser digno de todos os elogios possíveis. Instrumentalmente impecáveis, sincronizadamente inumanos, eles conseguem ser perfeitos na execução sem esquecer da interação e do divertimento, elementos indispensáveis de um show ao vivo. Alírio Neto, de timbre bem particular, lembra um mix entre James LaBrie, Geddy Lee, Geoff Tate e John Arch, e creio que esta dica já dê uma bela noção do tamanho de sua qualidade. Marcelo Barbosa (guitarra), Michel Marciano (baixo), Maurício Barbosa (bateria) e Renato Gomes(teclado) formam um dos times mais técnicos, azeitados, inteligentes e impressionantes (ufa!) do prog metal mundial. O set list, claro, foi todo calcado no debute – ainda que o tempo de estrada já beire os 10 anos – “The Journey”, uma das maiores unanimidades dos últimos tempos, com destaque para “Loneliness”, “Wrong Words” e o cover de “Balada Do Louco” dos Mutantes, totalmente metalizada e rebatizada como “Madman Lullaby”. O Khallice, acreditem, terminou sua apresentação deixando a sensação de que o Evergrey não poderia superá-los.

Como última banda de abertura, o Ata D’Arc. Sem dúvida a pior da noite e um tremendo anti-clímax. Deveriam ter sido mais cuidadosos consigo mesmos e escolhido ficar como primeira banda do opening-act, não última. Postura fake, execução apenas razoável de Avantasia e Gamma Ray, músicas próprias ruins e tristemente clichês (pense que há clichês trabalhados magistralmente, e este não é o caso) e um feito que eu julgava impossível: estragar “Princess Of The Dawn”. Este CLÁSSICO (assim mesmo, grafado em maiúsculo) do Accept foi inacreditavelmente mal tratado. Levado com um desprezível ar “melódico” e “sofisticado”, eles destruíram com a essência da música. Salvaram-se com “Painkiller” – excetuando a engasgada no solo - quando Sandra Félix e Alírio Neto dividiram os vocais com o duvidoso Túlio Torres. Em suma, se continuarem assim, chance de reconhecimento e futuro promissor zero, porque, além de incorrer em erros típicos de principiantes (achar que a velocidade é tudo, por exemplo), até as bandinhas mais medíocres do heavy melódico estão muito acima deles.

Enfim, os headliners. Tom S. Englund, Henrik Danhage, Michael Hakansson, Rikard Zander e Jonas Ekdahl sobem ao palco, todo modificado para comportar sua apresentação, e mostram o porquê de tanta reverência com o tradicional número de abertura “Blinded”. O prog / thrash / gothic / hard (!?!?!?!) destes suecos, ou simplesmente “dark metal”, como o próprio Englund definiu, é muito eficaz e empático. E, aproveitando a presença do Khallice, podemos conferir as várias facetas do prog metal numa mesma noite. De um lado, a extrema complexidade e técnica dos brasileiros, do outro, a junção de vários estilos, melodias trabalhadas, refrãos grudentos e toda a aprazibilidade do Evergrey. Na seqüência, "End Of Your Days" traz uma característica presente em muitas músicas da banda: o refrão decrescente. Em vez de, como é normal, os refrãos representarem a explosão da música, no Evergrey os estribilhos são um declínio estrutural em comparação com o peso da composição até ali. É criada toda uma atmosfera melódica e sentimental nestas digressões, o que, ao invés de enfraquecê-los, tornam os refrãos muito mais marcantes e expressivos. Recurso usado com abundância e inteligência, como nas pegajosas "More Than Ever" e "As I Lie Here Bleeding".

Englund, além de cantor único e brilhante, é um frontman energético e simpático, interagindo, provocando e conquistando seu público. Michael Hakansson, baixista, é o madman do grupo, performance totalmente louca e visceral. Henrik Danhage é apenas mediano na guitarra, enquanto Zander e Ekdahl, se não espetaculares, oferecem totais condições para um concerto marcante. E o público, embora pequeno, era constituído por verdadeiros fãs do Evergrey, já que todos os refrãos foram acompanhados sem dificuldade e a satisfação era visível no rosto de todos.

“She Speaks To The Dead” fez a festa dos headbangers – mostrando ser uma música “intirável” do set list – assim como a convidativa “Rulers Of The Mind”, numa interpretação convincente de Englund, dono de um feeling monstruoso. “I’m Sorry”, cover da cantora pop Dilbahar Demirbag, acalmou as coisas, novamente turbinadas pelo clássico “Solitude Within”, exemplar mor do “dark metal” referido, e com um solo maravilhoso. “Recreation Day” – no hall das minhas três preferidas do grupo – teve participação massiva da platéia, e por ter todas as características que fazem da banda uma entidade ímpar no metal mundial, capaz de mostrar a completude da peculiar classe do conjunto, é um ponto altíssimo e muito esperado do show. A seqüência da angustiante instrumental “When The Walls Go Down” e a progressividade da intocável “Mark Of The Triangle” acabam de exemplificar a louvável diversidade do Evergrey. O bis ficou com o ótimo single “A Touch Of Blessing” e o clássico maior, “The Masterplan”, tendo Englund fazendo a tradicional brincadeira de dividir a platéia em lado direito e esquerdo, entoando o refrão o mais alto possível. Pronto. Finda sua 1h10 de show. Espera aí. Uma hora e dez minutos? Sim. A economia da banda é algo IMPERDOÁVEL. Tão pouco tempo fez com o que o concerto fosse apenas excelente, não histórico. E se lembrarmos que o Evergrey estava tendo a chance de atuar como headliners nesta turnê, o que não pôde fazer no Rio de Janeiro e em São Paulo, quando dividiu as atenções com o Pain Of Salvation, seria natural esperar um set list muito mais longo que os anteriores, o que não aconteceu. Frustração total e que empalidece todos os elogios que mereceram até aqui.

Fora que assistir a um show deles sem “Nosferatu” e “For Every Tear That Falls” é, no mínimo, revoltante. O público, sim, era reduzido, mas fanático e fiel, e por isso mesmo merecia mais consideração. Por estas razões, um bom show, mas não perfeito. Por pouco conseguiram superar o Khallice. Mas fica a esperança de que, na próxima turnê, o descaso do tempo seja eliminado.

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Sobre Maurício Gomes Angelo

Jornalista. Escreve sobre cultura pop (e não pop), política, economia, literatura e artigos em várias áreas desde 2003. Fundador da Revista Movin' Up (www.revistamovinup.com) e da revrbr (www.revrbr.com), agência de comunicação digital. Começou a escrever para o Whiplash! em 2004 e passou também pela revista Roadie Crew.

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