P. Forneria Marconi: A emoção de ver os dinossauros em palco do Brasil

Resenha - Premiata Forneria Marconi (Credicard Hall, São Paulo, 01/07/2005)

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Sérgio Alpendre
Enviar correções  |  Ver Acessos






No início, o bate-papo é atualizado. Bom encontrar amigos e aguardar com eles um show há muito esperado. A graça do reencontro subitamente é acrescida da emoção de ver os dinossauros no palco. Di Cioccio, Djivas e Mussida, rodeados por três calvos integrantes, entre eles o ótimo violinista Lucio Fabri. Flavio Premoli, infelizmente, não pôde vir, e os erros cometidos pelo tecladista substituto devem ser perdoados. Afinal, queremos máquinas ou humanos tocando? Erros em shows são bem-vindos, dão um calor especial à noite. Ainda mais se for de um músico que teve de substituir um dos mais idolatrados membros da banda.

Fotos de Toni de G

Franco Mussida, camiseta preta de manga longa, alto e tímido, começa a dedilhar em seu violão. A melodia deixou-me um tanto anestesiado, e logo reconheço "Appena um Po'", a faixa que abre Per um Amico, bela canção, seguida da faixa título do mesmo disco. Um alívio: eles resolveram cantar em italiano, esquecendo (exceto nas faixas da fase Lanzetti) aquele inglês Massarella típico de Photos of Ghosts. Faixas antigas convivem muito bem com as mais novas. Destas, a melhor é "La Rivoluzione", belíssima faixa de Serendipity, álbum de 2000, o último de estúdio da banda. Uma execução animada e bem suingada, com Di Cioccio empolgado e empolgando a platéia.

Franco Mussida está com artrite, e em certo momento pede ao tecladista que estique seus dedos. Mesmo assim, arrasa nos momentos mais agitados, e comove nos mais líricos. Seu domínio do violão clássico leva-nos às lágrimas, menos pela habilidade, maculada pelos problemas de não ser mais jovem, do que por uma imensa noção de tempo e uma infindável sensibilidade. Atrasando a entrada de sua voz, cantando fora de tom algumas passagens que eram da responsabilidade do ausente Premoli, lembrando nomes de jogadores brasileiros que atuam no Milan, Mussida brilha, um pouco por sabermos o quanto ele fez no passado, e o quanto de história da boa música tem debaixo daqueles cabelos brancos. Mas brilha também por puxar as mais belas melodias em sua guitarra chorosa (algo entre Gilmour e Hackett, mas um tanto mais improvisado que os dois).

"Il Banchetto", que já vinha recebendo um arranjo meio bossa desde o retorno da banda nos anos 90, tem os elementos de Bossa Nova ainda mais evidentes. Basta comparar a execução mais fria do famoso DVD no Japão em 2002 com a do show de sexta, com um pouco de brasilidade a mais. Curiosa melodia, com um arranjo à altura. É um dos momentos altos do show. Assim como as canções de Chocolate Kings, onde mesmo com Di Cioccio imitando o Lanzetti, que imitava o Peter Gabriel, dá pra se empolgar com o esmero técnico dos músicos. Tanto "Out of the Roundabout" - uma maravilha que nem Lanzetti, em sua época, conseguiu diminuir - quanto "Harlequin" mereceram os aplausos entusiasmados da platéia.

"Dolcissima Maria" obviamente foi um dos momentos mais festejados. Mas o arranjo que a tornou mais lenta e um tanto melosa a prejudicou. O mesmo aconteceu com "Dove...Quando", antecipada por alguém na platéia (algumas pessoas adoram mostrar que conhecem o repertório dos shows - prova de infantilidade compulsiva), e cantada de maneira bem mais lenta do que na versão original. E mais lenta, salvo engano, que no show do Japão. Deslizes menores, que não comprometem o show.

O início piegas toda vida de "Suonare Suonare" ameaça embalsamar tudo. Mas na metade da música, a ordem é reestabelecida, e o açucar é cortado pela pegada jazz-rock virulenta, com perfeita simbiose entre baixo/batera e guitarra. "Maestro della Voce", canção do mesmo álbum, o irregular Suonare Suonare (do qual fez falta a maluca "Si Puo Fare"), foi anunciada como a homenagem a Demetrio Stratos, exímio vocalista da banda Area, falecido um ano antes do lançamento do disco (1980). Di Cioccio, como vocalista, está a milhas de distância de Stratos, mas a homenagem foi muito bem executada.

"Luna Nuova" foi o momento esperado de extrapolação sinfônica, que causou até um comentário bufo do amigo e editor Bento. Moog correndo solto, platéia alucinada: voltamos, por alguns momentos, ao ano de 1974. Fizeram falta no repertório "Generale", L'Isola di Niente" e "Via Lumiere". Mas o bis veio com as esperadas "Impressioni di Setembre", com o crescendo mais belo do rock progressivo e "E Festa", na qual Di Cioccio mostrou sua faceta entertainer. No final, fotos com os figuras, autógrafos, e a certeza de ter visto um belíssimo show. Certamente é o tesão que move essa banda, não o dinheiro. Apesar de ser difícil saber ao certo em que medida esses dois ingredientes estão presentes, nota-se que, para os velhinhos do Premiata Forneria Marconi, a música é vital. Uma celebração.

Agradecimentos: Bento - Poeira Zine



GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Os comentários são postados usando scripts e logins do FACEBOOK, não estão hospedados no Whiplash.Net, não refletem a opinião dos editores do site, não são previamente moderados, e são de autoria e responsabilidade dos usuários que os assinam. Caso considere justo que qualquer comentário seja apagado, entre em contato. Respeite usuários e colaboradores, não seja chato, não seja agressivo, não provoque e não responda provocações; Prefira enviar correções pelo link de envio de correções. Denuncie os que quebram estas regras e ajude a manter este espaço limpo.


Todas as matérias da seção Resenhas de ShowsTodas as matérias sobre "Premiata Forneria Marconi"


Green Day: 10 coisas que você não sabe sobre a bandaGreen Day
10 coisas que você não sabe sobre a banda

Cradle Of Filth: Dani Filth explica seu conceito de religiãoCradle Of Filth
Dani Filth explica seu conceito de religião

Mini Iron Maiden: tocando Ghost Of The Navigator na escolaMini Iron Maiden
Tocando "Ghost Of The Navigator" na escola

Slipknot: Corey explica as nojentas desvantagens das máscarasSlipknot
Corey explica as nojentas desvantagens das máscaras

Loudwire: as dez melhores bandas da era GrungeLoudwire
As dez melhores bandas da era Grunge

Slash: um resumo de suas experiências ao longo dos anosSlash
Um resumo de suas experiências ao longo dos anos

Márcio Guerra Canto: o Axl Rose paraguaio que parece o Sebastian Bach (vídeo)Márcio Guerra Canto
O Axl Rose paraguaio que parece o Sebastian Bach (vídeo)


Sobre Sérgio Alpendre

Autor sem foto e/ou descrição cadastrados. Caso seja o autor e tenha dez ou mais matérias publicadas no Whiplash.Net, entre em contato enviando sua descrição e link de uma foto.