Jethro Tull: Algumas apresentações não têm como ser ruins
Resenha - Jethro Tull (Claro Hall, Rio de Janeiro, 19/03/2004)
Por Rafael Carnovale
Postado em 19 de março de 2004
Alguns shows não têm como ser ruins. Algumas bandas jamais conseguem fazer más apresentações, devido à alta qualidade de suas músicas e o inegável talento ao vivo de seus componentes. Isto se encaixa como uma luva no caso do Jethro Tull, banda com mais de 30 anos de carreira e incontáveis "hits". Um grupo que já flertou com o progressivo, folk-rock, e até com o heavy metal. Hoje a banda possui apenas dois de seus integrantes originais, o guitarrista Martin Barre e o folclórico vocalista e flautista Ian Anderson, que vieram acompanhado de um time de feras: o tecladista Andrew Giddings (ex- Eric Burdon), o baixista Jonathan Noyoe e o excelente baterista Duane Perry, que contribuíram para que Ian e Martin pudessem despejar mais de 30 anos de carreira em duas horas de show.
Ao chegar no Claro (com sua configuração de teatro, com mesas e pista reduzida), a primeira impressão que tivemos foi de que não teríamos casa cheia, o que foi se desfazendo aos poucos com filas enormes para comprar ingressos (muitos deixaram para comprar suas entradas em cima da hora) e uma fila gigantesca para entrar na casa. Ainda havia muitas pessoas na fila quando às 22h30, pontualmente a banda entra em ação, com uma "Intro" tirada de "Aqualung", incendiando os já presentes. De cara vemos que Ian está inspirado, fazendo sua tradicional pose de pernas cruzadas com a flauta e saltando de um lado para outro, enquanto Martin esquece os cabelos brancos e solta "riffs" inspirados de sua guitarra. "Living in the Past" e "Beggar's Farm" (do primeiro cd "This Was") incendeiam o público. E a fila na entrada continuava... muitos acabaram conseguindo chegar ao final desta música. O Jethro não trouxe nada de especial a nível de produção de palco, apenas um belo jogo de luzes, com bons efeitos. A música era a grande estrela.
Neste momento a banda emenda várias músicas antigas entrecortadas com algumas do novo cd, "Songs for Christmas", de 2003 e ainda inédito por aqui. "Nothing is Easy","With you There to Help Me" e "A Week of Moments" fazem bem seu trabalho, enquanto que músicas novas como "Holly Herald" e "God Rest Ye Merry Gentlemen" são recebidas um tanto quanto friamente pela platéia. Inteligentemente a banda inseriu um belo solo de Martin Barre e "Thick as a Brick" no meio junto com a bela "A New Day Yesterday", o que manteve a atenção dos presentes.
Neste momento cabe fazer um parêntese: muitos fãs pareciam literalmente desconhecer a banda, principalmente os localizados na pista, já que os mais fanáticos optaram por ir para as mesas, aonde poderiam curtir mais a performance de Ian e cia, impecável até o momento. Mas em alguns momentos a frieza por parte do público chegou a ser incômoda, pois afinal ali estavam mais de 30 anos de rock and roll.... mas tudo bem. A banda não liga para isso e continua seu show, com a excelente "Mother Goose" e um belo "medley", que incluiu "From The Wood", "Too Old to Rock and Roll" e "Heavy Horses". Apesar do vocal de Ian estar um tanto quanto fora de forma, o mesmo esbanja carisma e simpatia, e Martin Barre é um mestre nas quatro cordas. O resto da banda prima pela excelência, com destaque para o preciso e talentoso Doane Perry na bateria. Ian também aproveitou para executar uma música de sua carreira solo, a boa "Eurology"
Mas era chegada a hora de incendiar a galera, e "Aqualung" vem para que todos cantem cada verso, cada estrofe. A banda sai do palco e volta com "Wind Up", seguida da mais que conhecida "Locomotive Breath", emendada com "Protect and Survive". O show seria encerrado com uma "jam" ("Cheerio") e Ian agradecendo a cada momento por estar mais uma vez no Brasil, embora seu inglês seja carregadíssimo no sotaque escocês, sendo realmente complicado entender seus discursos, mas tudo isso é compensado ao vê-lo como um garoto, pulando com sua flauta e cantando, mesmo que de forma mais contida.
Um ótimo show, uma banda que apesar do tempo não cansa de surpreender e uma pena que alguns fãs só vão prestar mais atenção neles a partir deste show, mas mesmo assim uma grande noite.
Agradecimentos:
CIE BRASIL / CLARO HALL: Bianca Senna
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