Biquíni Cavadão: Deu Biquíni de novo na edição 2003 do Ceará Music
Resenha - Biquíni Cavadão (Ceará Music, Fortaleza, 10/10/2003)
Por Taís Bleicher
Postado em 10 de outubro de 2003
Deu Biquíni de novo no Ceará Music 2003. Em outra ocasião, tivemos a oportunidade de comentar que por dois anos consecutivos do festival Ceará Music, que ocorre em Fortaleza, a banda Biquíni Cavadão ocupou lugar de destaque. Em 2001, o grupo, que há 11 anos não vinha à cidade, apresentou-se com o show de seu CD "80". A energia que Bruno Gouveia, em palco, passava ao público, os hinos do rock nacional que embalaram a década de oitenta somados aos grandes sucessos da banda fizeram com que a aprovação, tanto por parte da platéia como da organização do evento, fosse total.
Tanto foi que o Biquíni Cavadão foi a primeira grande atração confirmada para o Ceará Music 2002. Antes disso, a banda passaria pela cidade apresentando o mesmo show – "80" – , numa barraca de praia, junto a outras grandes bandas de renome nacional, e contando, novamente, com grande receptividade.
Em 2002, havia uma grande expectativa para a apresentação do grupo. Além da boa impressão que deixaram na cidade, neste ano eles gravariam um videoclipe ao vivo, durante o Ceará Music. Novamente com o show "80", foi a última atração nacional do festival. Devido à desorganização do evento, a banda começou a tocar quando o dia amanhecia. Problema algum. O público fez questão de ficar até o final, com ânimo de se estranhar para quem já estava há tantas horas pulando, dançando, gritando. Segundo Bruno Gouveia, o vocalista do grupo, "o show que nós demos no Ceará Music no ano passado [2002] encabeça a lista dos cinco shows inesquecíveis da minha vida", e eu completo: não só para ele, mas também para grande parte dos que estavam ali.
Se o Biquíni Cavadão fechou com chave de ouro o Ceará Music 2002, este ano causou um certo estranhamento a programação, uma vez que tocaria no segundo dia do evento, como a primeira banda de grande porte (no palco Brasílis, antes do Biquíni, apresentar-se-ia a banda local Jumenta Parida). Tudo bem. Afinal a ordem dos shows acabou se invertendo e tocaram, em seguida à Jumenta Parida, no mesmo palco, Los Hermanos e Charlie Brown Jr.. Independente de horários e atrasos, foi notável a dedicação do Biquíni em passar ao público o afeto que aquele festival parecia possuir na história da banda. Para demonstrar isso, fizeram um pequeno vídeo-clipe dirigido pelo guitarrista Carlos Coelho, mostrando como foi para eles gravar o clipe de "Toda Forma de Poder". Este vídeo-clipe foi apresentado ao público do Ceará Music antes da banda entrar no palco. Depois, Bruno surgiu trazendo consigo a bandeira do estado do Ceará. Desnecessário dizer que tanto uma coisa como outra deixaram, nas palavras do próprio Bruno, "a galera ensandecida".
Após a "entrada triunfal", pasmem, o que se seguiu foi a apresentação do show... "80"! Pela quarta vez trazendo à Fortaleza o mesmíssimo show, no espaço de três anos, quase nada havia de novo naquela apresentação. Se a preocupação de Bruno era fazer algo parecido ao que se viu em 2002, o fato é que infelizmente a banda conseguiu. O que o público percebeu foi que tudo o que parecia emoção no palco e que o contagiava, toda a "performance", era, afinal, "performance" mesmo.
Explico. A receita de se fazer uma performance biquiniana, do show "80", é mais ou menos assim: a banda inicia cantando covers presentes no CD de mesmo nome, mesclando-os com velhos sucessos de autoria do próprio grupo. De repente, chega a hora da canção "Zé Ninguém", que contém os seguintes dizeres:
"Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém
Aqui embaixo, as leis são diferentes"
Neste momento, Bruno se joga na platéia. Andando por entre o público (e sendo despedaçado por ele), por alguns instantes o cantor não é visto, todos o procuram. Entre exclamações a respeito da sua coragem (ou insanidade), finalmente ele consegue retornar ao palco.
Em seguida vem "Chove, Chuva", que também tem a sua própria performance. Ao cantá-la, Bruno diverte-se jogando copinhos de água na platéia, e sempre, sempre mesmo, encerra derramando um copo de água sobre si.
A seguir, em "No Mundo da Lua", chama alguém da platéia para dividir o palco. Este Desconhecido, usualmente, entre berros e com voz esdrúxula, leva a multidão ao completo delírio.
Finalmente, alguns truques básicos de animação de público. Antes de "Vento, Ventania", treina os pulos do pessoal, para dar o clima de animação que a música permite. Em outros momentos, passa intermináveis minutos entoando vogais para que a platéia repita em coro.
A coisa é mais ou menos assim. Às vezes muda a música em que se faz uma performance, mas a receita mesmo é essa.
Mesmo assim, o Biquíni, mais uma vez foi o grande causador de comentários. Isto porque a banda, que retornaria imediatamente para o Rio de Janeiro, foi convidada, durante o evento, pelos organizadores do festival, a novamente fechá-lo. Circulavam boatos pela cidade, a notícia corria nas rádio e, na internet, o próprio Bruno já anunciava o novo show (novo?) através do seu Blog pessoal. Palavras dele sobre o show de domingo: "Novamente, o 'making of', e como se estivesse tudo acontecendo de novo, o público ali estava na maior festa, aceso como se fossemos a primeira atração do primeiro dia".
Resultado: segunda-feira, dia treze de outubro, quem ia para o trabalho logo de manhã cedinho passando pela avenida Leste-Oeste ainda via o movimento das pessoas saindo do hotel Marina Park. A noite foi longa, e pelo rosto dos que lá estavam, foi também boa. Não se pode dizer de forma alguma que as pessoas não gostaram. Mas o fato é que depois de cinco shows praticamente iguais em três anos, a frase de Coelho sobre as pretensões para 2004 – "Vamos fazer tudo de novo!" – soa tal qual uma ameaça.
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