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Primal Fear: Formação original aliada a organização bastante superior

Resenha - Primal Fear (Via Funchal, São Paulo, 07/12/2002)

Por Leandro Testa
Em 07/12/02

Fotos: Century Media Latina

A segunda passagem da banda alemã Primal Fear por terras tupiniquins trouxe o que provavelmente os fãs gostariam de ver quando do seu primeiro show aqui, em novembro de 1999: a formação original aliada a uma organização bastante superior. Tudo bem que, até então, esta era uma nova empreitada, com o sucessor de seu debute recém lançado na época, e ainda que para uns isso fizesse uma diferença mínima, não dava para negar que melhor seria ter o próprio criador Tom Naumann no ensejo, do que Alex Beyrodt (Sinner, The Sygnet e Silent Force), independentemente de sua competência no manejar das seis cordas (cuja permanência se deu apenas naquela tour).

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Passados aí dois anos, e com o dobro de álbuns nas costas, talvez seja válido questionar qual a preferência atual do público, já que muitos começaram a acompanhar a carreira desta após o ingresso de Henny Wolter, guitarrista que junto a Stefan Leibing formou uma dupla sempre muito elogiada, desfeita mui recentemente quando, de forma amigável, este resolveu se desligar por não estar conseguindo conciliar sua vida pessoal com a profissional (a patroa devia estar pra lá de furiosa).

Caso algum dos presentes tivesse assistido a cada qual em ação (quem sabe alguém da imprensa), a dúvida poderia ter sido tirada no palco; todavia, esta não parecia uma preocupação importante, visto que não raro as atenções eram voltadas a Ralf Scheepers e Mat Sinner, respectivamente vocalista e baixista, além de compositores e mantenedores mor do conjunto (como me atentei muito às guitarras, não foi o meu caso).

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O início do espetáculo estava marcado para as 22:00hs e apesar da noite chuvosa consegui chegar ao recinto com uma antecedência de cinqüenta minutos. No lado de fora da casa, onde costuma ter uma fila dobrando meio quarteirão, tudo vazio, então pensei comigo: "kibon, ninguém se encharcou dessa vez". Não obstante, assim que adentrei a Via Funchal, o susto: algo em torno de setecentas pessoas!!! Acredito que nunca vira a pista "vazia" daquele jeito, nem na primeira apresentação do Shaman em SP logo após a sua formação, nem no show extra que o Helloween deu por aqui da última vez, pois em ambos os casos havia algo em torno de três mil espectadores , numa quantidade já satisfatória. O jeito era torcer por haver "quorum suficiente" e não dar ‘prejú’ para ninguém, enquanto rolava nos PA’s o CD A tribute to the Priest, lançamento nacional do combinado Nuclear Blast/Century Media composto em 50% pelo cast da primeira, e na outra metade, por representantes de diversas gravadoras. A propósito, adivinha quem participa dele... nem um palpite? Quem mais senão o próprio Primal Fear coverizando o Judas Priest? Tá bom, tá bom, não começarei com isso tudo de novo... (na verdade, eles continuam detendo a fama de "official ‘cover’ band" dos ingleses, seguidos do Iron Savior, e, ali colado, como concorrente direto, o Gamma Ray em seu último trabalho, ficando, pois, no meio do fogo cruzado o ilustríssimo Kai Hansen).

Exatamente dez minutos antes do previsto, adentrou à parte elevada o quinteto santista Shadowside (SP), formado no ano passado por jovens músicos que a despeito da idade demonstram maturidade o suficiente para já terem gravado um EP e encarado em julho último a exigente platéia do Nightwish. Sua proposta é um metal melódico, que, (leiam bem) AO VIVO, ficou pesadíssimo, sendo uma pena que o registro mencionado não contenha a mesma pegada e espontaneidade. O início foi típico de um ‘opening act’, pois a mesa de som se esforçava para nivelar os instrumentos, sendo mais prejudicados justamente os fundadores da banda, a vocalista/tecladista Dani Nolden (mais nova que eu!) e o guitarrista Bill Shadow (esse nem se fala), que, de onde eu estava, a primeira pouco se ouvia e o segundo permanecia muito abafado. Não significa que ‘eles’ estavam baixos, mas sim que os ‘outros’ estavam incrivelmente altos (não esquecendo que a bateria foi microfonada erroneamente), e assim se manteve depois que tudo ficou no mesmo patamar de decibéis (foi aí que danificaram meu ouvido direito e fui acometido por uma chata dor-de-cabeça - que falta de consideração...).

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Bem, mas antes disso intercalaram músicas próprias num ‘set’ de pouco menos que cinqüenta minutos, como "Kingdom of Life", "Believe in Yourself" e a porrada "Illusions", com as covers "Land of the Free" (Gamma Ray), "Future World" e "Steel Tormentor" (Helloween, antiga e nova fase) e a ‘arroz-de-festa’ Painkiller (bem você sabe de quem...). Apesar de um ou outro problema e de um guitarrista por nome Ricky, que insistia em ser (infinitamente) exibicionista (numa próxima oportunidade que for executar um solo, tente, por favor, tocar uma nota inteira... valeu?), fizeram um bom show, demonstrando potencial, time este que se completa por um baixista tímido e um baterista correto. Há de se dizer que o diferencial fica por conta da vocal, pois, ao contrário do que se ouve por aí, segue uma postura mais agressiva, ainda que seja impreterível melhorar muitas de suas linhas, principalmente nos ‘bridges’ e refrões, algo que se explicita na canção "Believe in Yourself" por ter nesses dois detalhes seu grande empecilho (ah! e o título de todas poderia ser menos ‘óbvio’, OK?).

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Tentando me recuperar da bordoada em meus tímpanos, fiquei ali estirado, até que às 23hs em ponto um belíssimo prólogo clássico ressoou na casa inteira, quando águias metálicas desceram ao fundo no cenário, continuado pela intro "Countdown to Insanity", cujo título dava a dica do que viria a seguir, "Chainbreaker", perfeita para abrir o show, mas que agora, de frente para o palco, parecia-me um tanto baixa. O frenesi crescia com a faixa-título do último trabalho, "Black Sun" e finalmente chegava à pancadaria de fato com "Church of Blood", escorada pela melodiosa "Mind Control" e seu refrão marcante, mais a cadenciada "Running in the Dust", que ao final teve Ralf fazendo uma média com a camisa da seleção brasileira que um fã lhe emprestara por alguns instantes. Conforme comentei a pouco, Tom Naumann está de volta ao ‘Metal Commando’ e a ele foi dado a devido espaço para algumas firulas, que, vacilantes, pouco empolgaram.

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Para retomar o público em suas mãos detonaram a magnífica "Silver and Gold", e nos vimos de volta ao metal germânico das antigas com "Eye of an Eagle", que durante sua execução teve Mat estourando a corda do baixo, sendo necessário antecipar o solo de Stefan (opa, agora sim!) para entreter o público, que, por sua vez, abriu alas a um dos sons mais empolgantes por eles já feitos, "Fear" (coitado de quem estava no meu lado nessa hora... e do meu pescoço também). Que lindo: eu, a um ou dois sujeitos da grade, e vendo aquela demolição toda... (pena ela ser repetitiva depois dos solos). Para manter o nível, seguiu-se a ‘title track’ do terceiro CD, "Nuclear Fire", aparentemente uma das músicas preferidas do Ralf para cantar, aliás, um belo trabalho efetuado por ele.

Era hora de escutar meu hino predileto do Primal Fear quando anunciaram "Tears of Rage", outra que ficou perfeita, sendo apenas atrapalhada por uma parcela do público que invariavelmente não entendia o seu ‘caminhar’, e não só naquele momento, mas do começo ao fim da noite teve uma participação deprimente, apenas gritando o epíteto do grupo, quando na verdade cada um de seus integrantes merecia ser louvado individualmente. Não adianta: eu comecei a freqüentar shows quando todos interagiam, e assim mantive minha postura, pulando, agitando, murmurando até mesmo as letras que eu não sabia direito, mesmo tendo trabalhado no dia de sábado e corrido para chegar ali a tempo. Cada vez mais me convenço que para muitos o importante não é ver seu "ídolo" de perto e ali fazer acontecer, porque a obstinação de chegar à grade se sobrepõe a todo o resto, um simples troféu com o qual o meliante será enterrado daqui a alguns anos. Não fosse o carisma e o empenho de Ralf para mantê-los acesos, a coisa sequer pegaria fogo, apenas chamuscaria, ou seja, ficando preta, pois ao contrário do que se possa imaginar, se o "brasileiro" é ou já foi o melhor público de metal, muitas e muitas vezes vem deixando a desejar.

Voltando propriamente às baladas metálicas, outra que ficou excelente ‘ao vivo’, melhor que no próprio CD, foi a semi-romântica "Under your Spell" (só não me perguntem em que seqüência ela estava... acho que foi entre o meu quinto e sexto parágrafo), mas dando continuidade ao nosso organograma, depois de um momento reflexivo, obviamente viriam músicas muito energéticas como foi o caso de "Armageddon", "Final Embrace" e aquele plágio de "Painkiller" denominado "Angel in Black". Depois disso já poderíamos nos dar por satisfeitos, pois além de tudo, o batera Klaus Sperling fizera um solo grandioso, muito bom mesmo, e precisava de um ligeiro descanso, para assim retornar ao ‘bis’. Contudo, foi aí que infelizmente surgiu em mim um sentimento inverso, pois tocaram a simples, desnecessária, piegas e ridícula "Living for Metal". Ralf perguntara se ao acordarmos ouvíamos metal... respondi que sim... e aí continuou a sessão de questionamentos com uma do tipo "vocês chegam da escola e dizem ‘mamãe, quero ouvir um bom disco de metal’?". Tô dentro, mas não um disco que tenha uma música como esta... que refrão vergonhoso, mamãe! Na zilionésima repetição deste, toda a banda parou para nos deixar cantar, culminando num momento extremamente hilariante ou vergonhoso porque como resposta somente algumas almas a acompanharam, algo que, por conseguinte, seria um bom motivo para avaliarem a sua exclusão do ‘setlist’ (que nesta turnê, mundo afora, vem sendo o mesmo). A situação melhorou bastante com "One with the World", dos longínquos tempos em que Ralf era integrante do Gamma Ray, num medley que se seguiu com "Born to Rock" do Sinner e "Metal Gods" do ‘você sabe quem parte II - A Missão" (só os perdôo porque esta é a faixa constante no tributo supracitado, servindo como meio de promoção – nota: no primeiro show aqui no Brasil eles tocaram "You’ve Got Another Thing Coming"...então, melhor seria que não existisse esse bendito tributo...)

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Voltaram para o ‘bis’ do ‘bis’, ainda trajando a camiseta de times paulistas em homenagem "ao melhor futebol do mundo", só que em vez de tocar mais umazinha sequer do Black Sun ("Mind Machine", "Lightyears from Home ou ‘peloamordedeus!’, "Controlled" – não vieram aqui para promovê-lo?), fecharam como já era de se esperar com a "Batallions of Hate", boa música, que eles dizem ter recebido uma excelente repercussão em não-sei-que-lugar, mas duvido que tinha sido aqui na nossa terra, ainda mais para se encerrar o espetáaculo...

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Apesar do repertório democrático e da ausência de muitas preciosidades do último trabalho (ou do primeiro, meu predileto), o balanço disso tudo foi positivo, pois é compreensível o fato de esta ter sido apenas a segunda vez que eles aportaram nestes palcos, e quiçá num futuro retornarão, a despeito da inesperada resposta quantitativa de público (não obtivemos uma posição da organização do evento em relação a uma apuração final estimada, porém calculo que esta tenha sido em média de 1.300 a 1.600 presentes, baixa, aliás, considerando que aproximadamente um terço disso comparecera à sessão de autógrafos dias antes). De qualquer modo, Ralf não parecia desanimado e soltou um "See you in Rock in Rio" (será? Se não dependesse só dos organizadores...). Assim, resta-nos desejar uma alta longevidade à Top Link, que com isto comemorou o seu primeiro aniversário no mercado brasileiro, sempre se empenhando para nos trazer grandes nomes do cenário mundial.

OBS: Foi uma pena a banda paranaense Dragonheart ter sido descartada da apresentação de SP por problemas contratuais, pois, com isso, a ‘noite’ certamente teria muito mais brilho - mas não menos chuvosa (tal participação se restringiu apenas a sua cidade-natal, Curitiba).

OBS 2: O que mais me incomoda no Primal Fear? Particularmente, não consigo aturar os `backing vocals` e vejam só como foi fácil encontrar a chave da minha felicidade: fui até lá mentalizando que por não haver um clone do Ralf, responsável por aqueles agudos fininhos ao fundo, o cargo ficaria com o vocalista do Sinner, o próprio Mat ‘bochechas de Fofão’ Sinner. E que alívio!!! Ele ‘salvou a minha pele’ (auricular, é claro)...


Outras resenhas de Primal Fear (Via Funchal, São Paulo, 07/12/2002)

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