Focus: Movimento realmente unido, mobilizado e entusiasmado
Resenha - Focus (Minascentro, Belo Horizonte, 12/11/2002)
Por Thiago Sarkis
Postado em 12 de novembro de 2002
Nada melhor do que ver um movimento realmente unido, mobilizado e entusiasmado. A cena do progressivo em Minas Gerais comprovou estar exatamente assim - o que já fora dantes expresso nas colunas do nosso brilhante colega Cláudio Fonzi -, no dia 12 de Novembro, uma Terça-Feira, no Minascentro. Finalizando sua passagem inédita pelo Brasil, o Focus foi ovacionado por cerca de mil e trezentas pessoas, dentre as quais brilhavam estrelas consagradas do estilo em pauta, como Marcus Viana (Sagrado Coração da Terra), Renato Savassi (Cálix) e Bhydhu (Cartoon). Sem falar noutros excelentes e renomados músicos que não vimos pela felicidade de termos um teatro cheio e agitado, se preparando para um total êxtase.
Antes de entrarmos no contexto do show em si, devemos falar um pouco dos momentos que o precederam.
A banda holandesa chegou a Belo Horizonte às três da madrugada e tinha em sua agenda uma coletiva marcada para as dez da manhã. Nos dias anteriores, já haviam realizado entrevistas por telefone com os maiores jornais do Estado e, desta forma, amanheceram com seus rostos em destaque nas notícias do dia, com divulgação nunca vista por eles nem em seu próprio país de origem. Grande surpresa, mesmo com tantos anos de estrada e vivência.
Cansados, os músicos pediram um tempinho e receberam a imprensa ao meio-dia. Fotos pra cá e pra lá, poses infinitas, autógrafos, audição de CDs, etc. Um pra cima, outro pra baixo, olhando para o céu, engolindo a revista Musical Box, virando cambalhota, escrevendo e assinando o set list a próprio punho, - como você pode ver no final deste review – e o bom dessa experiência foi que, apesar de tanto aluguel, o grupo não expirou em qualquer segundo aquele ar de "saco cheio" (o que seria altamente compreensível), sorrindo por três horas e meia ou mais, tocando músicas, e mostrando toda a simpatia que fãs e jornalistas poderiam querer de qualquer artista / banda.
Por volta das cinco da tarde partiram à passagem de som, no local onde o show ocorreria. Novamente, liberdade, descontração, improvisos, e, é claro, a seriedade necessária ao momento, para que nada saísse da linha à noite. Agradabilíssima prévia àqueles que, como nós, perambulavam pelos arredores.
Chegamos à hora do espetáculo e, como sobredito, muita agitação, expectativa, alta venda de discos, camisas, revistas, kits, balinhas, entre outras bugigangas.
Aquele atraso quase tão típico quanto o de "noiva" não poderia faltar. A abertura na apresentação do Arion, marcada para começar às oito horas, só se concretizou depois de mais ou menos nove e vinte. E que início para a noitada. Com Tânia Braz (vocais), Luciano Soares (guitarra), Sergio Paolucci (teclados), Carlos Linhares (baixo) e Nelson Rosa (bateria), o conjunto montado em Viçosa / MG, confirmou todos os positivos comentários feitos a seu álbum de estréia auto-intitulado, num progressivo sinfônico apurado, executado com emoção e repleto de desenvolvimentos e criação de climas belíssimos. As quatro músicas expostas, "Eyes Of Time", "Daybreak Child", "Every Way" e "Land Of Dreams", de durações razoavelmente longas, foram bem além de simples petiscos para a audiência, que aplaudiu o quinteto de pé após a última canção.
Com aquelas melodias de alta qualidade já circundando nossos ouvidos, só faltava o Focus para recheá-los com seu magnífico repertório, construído em mais de três décadas de glórias e inovações ao rock.
Bem apresentados, as cortinas se abrem, e finalmente os mineiros estavam cara-a-cara com o quarteto batavo. Talvez não do jeito que esperavam quando do lançamento do LP "Moving Waves" (1971), especialmente pela ausência de Jan Akkerman. Porém, sem dúvida alguma, frente a músicos de primeira categoria, altamente capacitados a fazerem às vezes daqueles da formação original.
Ao maravilhoso som do órgão Hammond de Thijs Van Leer, se inicia "Focus I", revelando, logo de cara, um músico de "feeling" único e presença de palco fantástica, o quase brasileiro Jan Dumée. Com o fervor e sentimento de quem vem ao Brasil freqüentemente - desenvolvendo até algumas frases e expressões em nosso português - e sendo fortemente influenciando por nossa cultura musical (Heitor Villa-Lobos, Hermeto Pascoal, Tom Jobim & cia), o guitarrista conquistou os presentes e executou com perfeição as belas melodias e a intensidade das mudanças induzidas por Akkerman no passado. Formidável!
No decurso, clássicos que mudaram a história do progressivo, como "House Of The King", a grande e longa "Eruption" numa versão mais que fiel a sua gravação de estúdio, com destaque para o baterista Bert Smaak, um verdadeiro monstro. "Sylvia", hit de tempos que se restauravam no real, ali, naquele instante de empolgação e exaltações, e a inspiradora, de tirar factualmente suspiros, "La Cathedrale de Strasbourg".
Depois dessas e outras, que podem ser checadas no set list assinado exclusivamente a nós por Van Leer, um acontecimento inusitado em meio à já excitante "Harem Scarem": Bobby Jacobs dá passos à frente no palco e se aproxima dos entusiastas. Quando tenta retornar ao lugar onde ficou por quase todo o tempo, escorrega no amplificador, num tombo histórico, levando o público ao delírio. Deitado, segue tocando, e se surpreende com Dumée, que também se esborracha no chão e continua a interpretar minuciosamente a música. Levantam-se e dão de cara com as cadeiras abandonadas e as pessoas em pé batendo palmas até o fim da execução.
Mais inacreditável é que os presentes sabiam que a bagunça maior ainda estava por vir. Num solo de flauta, o único remanescente dos idos do Focus acalma e encanta os expectadores. Chegando ao fim de seu virtuosismo e criatividade, solta um pequeno trecho em canto no estilo "yodel", avisando algo fantástico e fazendo com que alguns se preparassem para o delírio total na insana "Hocus Pocus". Com certeza, o momento máximo do show, como era de se esperar.
Despedem-se aos gritos de "Thijs" e posteriormente "Focus, Focus, Focus". Aplausos e lá vêm eles de volta, trazendo duas composições do novo lançamento (Focus 8), chamadas "Brother" e "Neurotika". Leer nos disse à tarde que retornariam ao elevado a partir da demanda da platéia. Pois bem, nem isso puderam fazer, pois os fãs simplesmente não os deixavam sair do palco. Os holandeses chegavam a se separar de seus instrumentos, contudo, sequer se retiravam e reintegravam-se para tocar novamente. Foi assim nas músicas novas e também no fechamento com a repetição de "Sylvia".
O líder do grupo, numa brincadeira se referindo ao fim do show, mencionou "Silence..." (Silêncio) como a número quinze do set list. Mal sabia ele que tudo o que não aconteceria era o silêncio após esse espetáculo incrível. Os instrumentos e músicos pararam, mas o falatório e os comentários sobre essa exibição vão permanecer por anos na roda do movimento progressivo mineiro.
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