Mainstream: será que é tão ruim assim?

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Por Mateus Ribeiro
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Quando se está em algum show de rock ou em qualquer conversa com fãs do estilo, algumas frases e gritos são normais, tais como o famigerado "Toca Raul" e o "SLAYEEEER" que todo mundo com a cara cheia já soltou. Porém, existe outra afirmação que invariavelmente sai da boca de alguém como verdade absoluta: "Banda X não presta mais, se vendeu depois daquele disco". Você possivelmente pensou em uma banda, não é mesmo?

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O conceito é bem amplo, mas normalmente quando algum fã considera que o grupo se vendeu, basicamente aconteceram mudanças no visual, no som e na postura que de uma ou outra forma acabaram tornando a banda mais acessível. E pensando friamente, não há mal algum nisso, por uma série de fatores.

Antes de qualquer coisa, é necessário colocar na cabeça que apesar de ser uma arte e mexer com o sentimento de um bom número de pessoas (em alguns casos centenas, em outros milhões), a música é uma profissão e é feita por seres humanos. Sim, pessoas comuns iguais você e eu. Tanto nós quanto eles passamos por mudanças na vida, causadas por uma infinidade de coisas, desde uma doença até mesmo a "simples" vontade de mudar. Algumas vezes, essas mudanças são um pouco mais pesadas e acabam caindo em cima da vida profissional. No caso de um artista, modifica a sua arte. Resumindo, não dá para medir o direcionamento de alguma banda com a nossa régua, ainda mais que pouco sabemos da rotina dessa turma além dos shows e infinitos compromissos profissionais. Algumas vezes, seu astro preferido só cansou de tocar na velocidade da luz, em outras, não pode mais forçar a voz e teve que diminuir a intensidade do som. A lista é bem longa...

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Outro ponto que deve ser considerado é o reconhecimento. Seja você o roadie de uma banda de garagem ou o Paul Stanley, ser reconhecido pelo máximo número de pessoas por conta de seu trabalho é algo legal. Falando em música, por vezes, é necessário tirar o pé para alcançar um número maior de pessoas. A não ser que você seja o Slayer, dificilmente você vai tocar na rádio da sua cidade caso sua banda seja de brutal death metal. É claro que não é preciso fazer um KLB cover para se aparecer, mas que tal tentar um Death And Roll estilo o que o Carcass fez em "Swansong"? Ser underground é legal, mas será mesmo que não dá uma vontade de atingir um público maior? Claro que não é necessário perder a essência, mas ver mais gente de outros nichos apreciando o som deve ser uma parada bem legal.

Bem, se o artista se vendeu, ele deve estar ganhando mais dinheiro, ao menos na teoria. E do fundo do coração, sei que existem algumas pessoas que gostam de dinheiro mais que as outras, mas quem não quer ter um troco sobrando pra tomar um goró ou comer uma pizza no dia 31, não é mesmo? Agora, imagine que você tem que arcar com uma equipe enorme (seja ela terceirizada ou não) que vai te providenciar desde um roadie até um motorista confiável pro busão? Pior, pense que seu último disco foi um fiasco de vendas. Lembra aquele lance que são humanos quem escrevem as notas pra você bater cabeça com a cara cheia na grade do show? Então... essa turma por vezes também tem preocupações financeiras meio grandes, e uma vez que se descobre a fórmula mágica composta por sucesso, dinheiro e estabilidade financeira, tchau braceletes e cruzes de cabeça pra baixo. O que no fundo é uma arte, para alguns nada mais é do que um negócio, doa a quem doer.

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O exemplo clássico disso tudo é o Metallica. Coroado como o maior expoente (veja bem, eu não afirmei que é a melhor banda) do thrash metal, começou a colocar pulgas atrás das orelhas dos fãs em 1988, com o lançamento de "...And Justie For All". O som ficou mais obscuro, intrincado e um pouco diferente do apresentado nos aclamados três primeiros discos. Já em 1991, com o disco que leva o nome da banda, a coisa ficou mais séria. Músicas como "The Unforgiven", "Enter Sandman" e "Nothing Else Matters" explodiram, chegando até mesmo a tocar em rádios e ter seus vídeos veiculados na MTV. Veja só que absurdo, o metal estava se tornando acessível. Os fãs mais radicais ficaram emputecidos. E certamente, James Hetfield e sua turma também devem ter chorado oceanos por conta dos milhões de discos vendidos. E quem ouve essa conversa de que o Metallica se vendeu imagina que James se vestiu de Patati, Lars de Patatá e o grupo começou a tocar músicas infantis. Nem quando o boi deitou de vez no pavoroso "Reload" a banda deixou de tocar músicas pesadas (tocava músicas diferentes, mas o peso ainda estava lá). Se serve de consolo, o Megadeth com "Risk", o Kreator com "Endorama" e o Exodus com "Force Of Habit" tentaram entrar no mainstream com composições bem mais pesadas e caíram do cavalo, pois além de queimarem o filme com os fãs, passaram longe do sucesso almejado.

Seja como for, mudar não é tão ruim, e se essa mudança fizer com que o trabalho alcance mais pessoas, deve ser encarada com bons olhos. Na verdade, quem faz parte da mudança enxerga bem. Quem fecha os olhos é quem não achou a chave para sair do labirinto chamado anos 1980 e que se veste como o saudoso Paul Baloff até os dias de hoje pelo centro da cidade, querendo dar porrada em poser.
Portanto, vale a pena ser menos radical. Se o mainstream é bom para as bandas, pode ser bom pra nós. Afinal de contas, ninguém começou a ouvir som com o Cronos entregando uma fitinha k7, não é?

Um abraço e até a próxima!




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Sobre Mateus Ribeiro

Fanático por Ramones, In Flames e Soilwork. Limeirense com muito orgulho (e sotaque).

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