Vinnie Paul: menos um animal na "Selva"
Por Agmar Raimundo
Fonte: O Esboço do Calabouço
Postado em 02 de julho de 2018
Eu não creio nas divindades religiosas, as cultuadas historicamente, nada contra aqueles que compactuam dessas culturas e costumes. Mas vejo e percebo que os headbangens, em sua maioria - não estou dando um dado concreto de estatística já pesquisada -, os headbangens não são muito dados para esse mesmo lado judaico-católico-cristão. A maioria dos headbangens devotam grande parte de suas vidas não a imagens e/ou santos católicos, mas às grandes bandas de Metal e aos seus ídolos identificados através delas. Isso é fato! Eu, por exemplo, sou um deles...
Quando acontece a tragédia de um desses supostos "deuses" nos deixarem a comoção é rapidamente tomada de uma tristeza que une toda a comunidade que curte Metal mundo afora.
Pois, então, com a morte de mais um ícone essa semana, podemos perceber que uma vela se apagou do grande "Santuário dos Deuses do Metal". Se já não bastasse Darrell, seu irmão, nos deixou essa semana Vinnie Paul, o insano ex-baterista e co-fundador do Pantera - a outra metade de um dos grupos de thrash mais importantes de todos os tempos que nunca mais se reunirão novamente. Basta a nós – reles mortais -, conservar em nossas memórias o grande legado deixado pelos irmãos texanos e sua trupe.
O primeiro álbum que escutei do Pantera não foi o "Cowboys From Hell", mas o "Vulgar Display of Power", até porque em 1990, ano de lançamento daquele disco eu nem curtiu metal ainda. Mas quando comecei a gostar desse tipo de som, juntamente com a invasão grunge, fui descobrindo o Thrash Metal – Sepultura, Metallica, Slayer, Megadeth -, mas não transitava nessa órbita, ainda, essa galera do deserto.
O Sepultura tomava a cena com o fabuloso "Arise"; o Metallica vinha com o icônico "Black Álbum"; o Slayer lança um disco quase perfeito para o estilo – o "Seasons in the Abyss"; e para fechar o caixão o Megadeth havia lançado o muito bom "Rust in Peace". Parecia que a música pesada estava muito bem representada, obrigado! E não registrei lançamentos de veteranas no Metal tradicional. Mas qual foi a mágica que conseguiu dar a notoriedade entre tantas feras e tantos álbuns espectaculares, que hoje são verdadeiros clássicos inquestionáveis? O Pantera conseguiu reunir toda velocidade dos seus pares – peso, virtuosismo, atitude de um frontman insano que foi privilegiado com uma voz diferenciada. Outra coisa bastante salutar a se levar em conta era o fato de se perceber peso, velocidade, juntamente com incríveis distorções e solos guitarristas, apesar de a banda apresentar apenas um guitarrista – Dimeg Darrell -. Isso chamou muita a atenção das pessoas.
Mas quando eu comecei a curtir o Metal de verdade mesmo - a podreira – meio que acéfalo, ainda, sem me importar com toda atmosfera que envolve esse mundo, não me importava como soava o timbre de um solo, uma guitarra base, um groove, um backing, tampouco a diferença entre a presença ou a falta do baixo na música. Por mais que Igor Cavalera, Dave Lombardo e Lars Ulrich tenham revolucionado as linhas de bateria naquilo que se resume à velocidade da luz, foi somente com os primeiros acordes de músicas como "Walk", "Mouth of War", "A New Level" e Fucking Hostile" que eu realmente pude perceber a diferenciação de uma música tocada com pedal simples e outra tocada com pedal duplo. Na bateria de Paul soava um som diferente, como se um dos bumbos estivessem estourados, mas ainda assim continuava funcionando. Com ele, a bateria não é um exercício físico, mas uma parte de uma orquestra sinfônica. Dá-se para notar que quem dá o ritmo do 1,2,3... é sempre ele. Não há sincronia sem a atmosfera que cria todo o tribalismo, todo o percussionismo que ele vai impingindo ao conceito destinado a cada canção. Phil, Darrell e Rex têm o tempo exato.
Na maioria das outras bandas, geralmente quem dirige o ritmo são os vocalistas e os guitarristas, ou o baixista, no caso do Iron Maiden.
E pensar que ele quase não seria um baterista no início de sua carreira, como contam no grandioso livro "Heaver Than Hell" de Jon Wiederhorn e Katherine Turn: "A nossa história é igual à dos irmãos Van Halen. Dime começou a tocar bateria duas semanas depois de mim. Como me saí melhor, ele pediu ao meu pai que lhe comprasse uma guitarra."
Vinnie Paul fez parte da maior banda de Thrash Metal no início dos anos 90. Era a fórmula perfeita: quatro membros que constituíam uma horda infernal – Phil Anselmo: o vocalista demoníaco; T. Rex: o baixista catastrófico; Dimebag Darrell: o guitarrista que não era um só, mas uma Legião; e Vinnie Paul: o baterista que estourava tímpanos, e não destruia baterias, destruía o silêncio.
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