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Por Rodrigo Contrera
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Dia destes, após publicar um texto aqui no Whiplash, um sujeito colocou uma observação, meio que reclamando de meu jeito depressivo, e coisa e tal. Eu comentei, como sempre faço, pessoalmente ou por internet, contando a verdade nua e crua. Mas o sujeito não aguentou a pegada e retirou o comentário. Assim como o meu. Talvez tenha querido me proteger.

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Meu jeito se deve a uma doença de que sofro e a um contexto de que sofro ainda mais. Mas meu jeito de comentar também se deve a que quase tudo o que hoje acontece me reacende um sentido de morte. Como no caso do Chris Cornell, do Chester, do Lemmy, do Fast Eddie ou mesmo da Dolores. É o ambiente em que eu me sinto, digamos, "bem". Ocorre que o sofrimento da doença e do contexto vai mais além. Sempre vai.

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Para muitos, é difícil imaginar como se sentem esses sujeitos e moças que parecem ter vindo ao mundo para agradar com suas sensibilidades, mas para desagradar, com suas mortes. A maioria entende que depressão é coisa séria. Muitos compreendem hoje como se comportam, ao menos em linhas gerais, aqueles que sofrem de esquizofrenia, TDAH, asperger, síndrome do pânico, TOC ou transtorno bipolar. Mas poucos vivenciam isso por dentro.

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Quando a Dolores morreu, nem me ative a procurar se ela teria se matado ou coisa desse tipo. Nem importava, realmente. Porque eu, que vivo esse contexto todo dia, sei que muito pouco, para quem sofre, se torna realmente expresso. Vi o vídeo em que o Chester comentava sobre sua depressão, mas também não me comovi muito. Reparei contudo que havia uma tensão clara no ar. Até que veio para ele o momento em que a corda se rompeu. Em que não aguentou.

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É ilusão ficar procurando, no retrospecto de gente como ele, o motivo para suas mortes. Isso eu também sei, porque no nosso caso algo como que nos puxa para o outro lado. E não é algo sobre o que podemos muitas vezes pensar claramente. No meu caso, é meu casamento malogrado, minha carreira acadêmica idem, minhas decepções de expressão, minha síndrome de Asperger não diagnosticada, meus momentos de solidão na Paulista, em São Paulo, e coisas das quais, embora não me lembre, me acompanham o tempo todo.

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É como se arrastássemos um rastro de sangue, de dor e de lágrimas. Não quis dizer deixássemos um rastro. É como se o arrastássemos, realmente. Como se ele nos seguisse. Sabem aquelas pessoas que parecem deixar uma impressão amarga no olhar? Pessoas perdidas no meio do nada? Como um sujeito velho, alquebrado, sem viço no olhar? Pois é, é mais ou menos assim mesmo.

Muitos se perguntam como é que, apesar de tanto sofrimento, gente como eu ainda consegue se expressar bem, nem que seja por meio de escritos. Saibam que é também uma forma de pedir socorro. Um jeito de tentar criar (ainda) uma conexão onde não sentimos mais nada. Percebo isso nos últimos momentos (expressos por gente alheia) de gente que se foi recentemente. Há porém aquele momento em que o silência predomina. E que não há como nele entrar.

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Tenho tentado ajudar gente como eu em grupos de autoajuda de boa qualidade que existem no facebook. Minha última iniciativa foi um relato em 5 partes para parentes de quem sofre de um mal psíquico em particular. Falei para gente que vê tudo do lado de fora, tentando enxergar algo do lado de dentro. Muitos curtiram e alguns agradeceram. De minha parte, não é difícil de compreender nem de escrever sobre meus últimos passos. Difícil é aceitar. Difícil é dormir em paz, ou acordar com uma sensação de novo dia. Isso é difícil.

As memórias é que geralmente nos pegam pelo contrapé. Que nos fazem afundar em sensações que nos puxam para baixo. Dolores deve ter sido as suas. Chester, as dele. As memórias, e a sensação de não podermos ter feito nada no passado e mesmo de não podermos mudar no presente, é que nos matam. No meu caso, não consigo ouvir algumas músicas da Adele. Não consigo passar sequer dos primeiros 20 segundos. É sério. Coisas que só ela entenderia, coisas de que só eu me lembro agora.

Há quem pense: mas será tão difícil olhar para a frente? Esquecer o que foi, e apostar num novo dia? Saibam que todos nós temos novos dias. Mas que algo em nós parece ter se quebrado, realmente. E que não conseguimos mais. Tudo o que vocês vêem como lindo do lado de fora, uma espécie de premonição de que todos conseguem auferir lindas sensações, para nós é quase o carma que nos leva para o além. Tornamo-nos especiais por conseguirmos vivenciar o que os outros não conseguem. E por expressarmos nossa dor em lirismo. Mas o preço é alto. Longe de me comparar à Dolores, ao Chester, ao Chris. Mas há similaridades. São passos para além da linha.

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Infelizmente, tenho de lhes dizer que não haveria como ajudá-los, a nenhum deles. De que também não tenho como ser (mais) ajudado. De que estamos distanciados, no fundo, e de que o destino de cada um vai depender de fatores claramente fora do controle. Não há como ultrapassar certas muradas. À noite, cada um precisa vivenciar seu próprio silêncio. E as pessoas, quando se vão, o fazem de forma egoísta, quase sempre. Sem ligar muito para o rastro que deixam. É normal.

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Lembro-me bem de que comecei a escrever no Whiplash, em meados de 2016, tentando me sentir acompanhado por alguém com as mesmas paixões do que eu. Consegui. Foi interessante, e ainda continua sendo. Não pretendo ir embora logo, mas lembro-me claramente da sensação que eu pretendia auferir. É lindo perceber que, por detrás de tantas diatribes, ainda existem pessoas. Gente com seu jeito particular de ser. E com emoção que podemos tentar ajudar a expressar.

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Claro que a vida não é necessariamente essa sucessão de mal-entendidos e dores que alguns de nós, mais depressivos, podem fazer crer. A vida é também a curtição por músicas, a sucessão de diatribes, o sem parar de asneiras que nos fazem rir todo santo dia. E por isso não precisamos nos aproximar só quando choramos a morte de alguém. Podemos soltar besteiras e rir enquanto vemos o mundo avançando, e envelhecendo.

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Só lhes digo que para muitos dos que se vão, e muitos dos mais talentosos, o mundo não conseguiu ser mais assim. Restou para essas almas penadas algo que só elas podem tentar compreender, ou que não conseguiram mais aguentar. Para nós, fica a obra, quase sempre. E uma tentativa - quase sempre malograda - de entender.

Dedico este pequeno artigo à Paula (em período de tratamento), à sua tartaruga Cacá (que hoje alimentei com camarõezinhos) e aos meus colegas de trajetória que ainda persistem tentando ajudar quem está pior do que eles. Ou tentando ao menos entender.

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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

Mais matérias de Rodrigo Contrera no Whiplash.Net.