Comparações: aquelas desnecessárias no rock/metal são, também, nocivas
Por Igor Miranda
Postado em 07 de março de 2017
A chamada "comunidade rock" - à qual a famigerada "comunidade metal" pertence - tem, como todo grupo social, sua cultura. Há características corriqueiras na identidade deste conjunto de seres, inicialmente unidos pelo apreço a um estilo musical.
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Vários fãs de rock e, em especial, de metal costumam utilizar roupas semelhantes, bem como falam gírias e expressões parecidas e têm gostos afins fora da música. E alguns hábitos também se repetem entre boa parte dos admiradores de algumas vertentes do rock e, novamente, o metal em especial.
Tudo isto faz com que o rock e o metal sejam descritos como "estilo de vida", mas há uma situação particular que me incomoda: o comportamento semelhante ao de torcidas de futebol. Isto ocorre, geralmente, quando se compara um músico a outro, uma banda a outra (mesmo que não sejam do mesmo estilo), um gênero musical a outro e por aí vai.
Existe uma necessidade de mostrar apoio incondicional a determinados músicos e grupos. Chega a ser irracional em alguns momentos, mas é o que ocorre.
Exemplos
Falar de forma generalizada torna o tema do texto um pouco abstrato, então, exemplifico a seguir.
O caso que acendeu uma faísca para que eu escrevesse este texto foi a repercussão do show realizado por Ace Frehley, ex-guitarrista do Kiss, no último domingo (5/3/17), em São Paulo. Para demonstrarem que curtiram a apresentação, seja pessoalmente ou nas redes, alguns fãs precisaram se expressar contra Tommy Thayer, que ocupa o posto de Frehley no Kiss desde o início do século.
É um comportamento típico de torcida: para exaltar o feito de uma agremiação, critica-se a outra. Transferindo para o âmbito do rock/metal, para se dizer que gostou de um show de um músico, detona-se outro que, de alguma forma, está relacionado.
Esse exemplo não é isolado. Vi críticas acentuadas a DJ Ashba, ex-guitarrista do Guns N' Roses, após Slash retornar ao grupo e se apresentar no Brasil. Tempos atrás, na segunda metade da década de 1990, detonava-se Blaze Bayley para exaltar algum feito de Bruce Dickinson em carreira solo. Outro caso: até hoje, faz-se comentários depreciativos ao Metallica com o intuito de destacar algum trabalho do Megadeth ou vice-versa. Também acontece quando o debate é Sepultura atual versus Sepultura antigo, como se não fosse possível curtir os dois.
Poderia passar o texto inteiro dando exemplos dessa situação "torcedora" que assola esse segmento. Vocês, caros leitores, provavelmente se lembrarão de mais algum caso semelhante.
Comportamento nocivo
A questão é que muitos se esquecem que não é necessário depreciar um para exaltar o outro. É possível gostar de Ace Frehley e de Tommy Thayer, respeitando a importância de cada um - e ser fã de Ace não significa que você o queira de volta para o Kiss. Dá para curtir Slash sem detonar DJ Ashba, que tem um trabalho sólido com o Sixx:A.M., ou apreciar Metallica e Megadeth ao mesmo tempo, bem como as fases do Sepultura com Max Cavalera e com Derrick Green.
A situação incômoda descrita ao longo do texto não é invenção e há um método fácil para comprová-la. Basta abrir a seção de comentários de qualquer matéria do Sepultura, no Whiplash.Net, que tenha recebido muitos acessos, por exemplo. É um Fla-Flu eterno.
O comportamento de torcida neste segmento é nocivo. É esta postura que provoca a desunião da qual muitos reclamam dentro da "comunidade". Há comparações absurdas sendo feitas a todo momento, mas, ao mesmo tempo, existem reclamações sobre "falta de força da cena independente" ou "falta de apoio/exposição às bandas de rock/metal", mesmo as mais conhecidas.
O que falta, na verdade, é coerência para se entender que música é uma expressão artística que, em grande parte das ocasiões, possui fins mercadológicos. Nada mais do que isso. E depreciar um para exaltar o outro não é uma postura condizente com fãs de um estilo musical, supostamente, tão "evoluído" em comparação a outros.
Infelizmente, tal postura também tem se refletido em outras áreas - política, por exemplo. Não parece ser algo exclusivo do comportamento de fãs de rock e metal, mas é algo que se acentua por aqui pelo motivo infame. Saiba que não ajuda em nada "torcer" e "fazer campanha" para determinado músico ou grupo na base da crítica a outro relacionado. Ninguém vende mais discos, nem ganha dinheiro e/ou reconhecimento fazendo isso.
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