Bataclan: Promotor de Justiça de Brasília rebate críticas de Pastor ao Heavy Metal

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Por Newton Cezar Valcarenghi Teixeira, Fonte: Jornal Correio Braziliense
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Passados quase dois meses do atentado ocorrido em Paris, em que cerca de 100 pessoas perderam a vida na casa de shows Bataclan, vítimas de extremistas do Estado Islâmico, fica a impressão de que muito ainda há a ser feito, em busca de um cada vez mais utópico respeito às diferenças.

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Recentemente, foi divulgada uma das mais lamentáveis manifestações sobre o ocorrido, de autoria do Pastor Steven Anderson, da Faithful Word Baptist Church, sediada em Phoenix, AZ, Estados Unidos. Em pregação realizada após o malsinado episódio, asseverou o religioso que a França pagou o preço por ser uma nação vendida ao pecado, na medida em que, "se pessoas se predispõem a ir a um show de death metal, alguém pode morrer", "se você ama tanto a morte, você comprou o ingresso, você ama adorar Satanás", ou "vamos deixar a religião de Satanás entrar e atirar em você". O vídeo em questão, na íntegra, pode ser facilmente localizado na internet.

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Pastor caga pela boca ao comentar massacre

De início, deixo claro que a crítica que ora se faz não é dirigida a nenhuma religião. Toda pessoa deve ser livre para professar o credo que, entende, melhor satisfaz as suas expectativas de evolução pessoal e espiritual, inclusive para em nada crer. Via de consequência, o grande desafio, menos do ser religioso do que do ser humano, é justamente o da tolerância. Em outras palavras, aceitar que nem tudo o que me agrada, satisfaz, alegra, preenche, nutre e enriquece, guarda o mesmo efeito em relação a outras pessoas. Tampouco por isso nos tornamos melhores ou piores. Já se disse que gosto não se discute, quando muito, lamenta-se.

Porém, não se pode atribuir ao público de um show de rock a culpa por um ato idealizado e levado a cabo por mentes insanas.

Como contraponto para reflexão, relatos dão conta de que o médico e carrasco nazista Josef Mengele, conhecido como "Anjo da Morte", responsável por experimentos perversos em judeus no Campo de Auschwitz, entre 1943 e 1945, era um grande apreciador de música clássica, conquanto submetesse suas vítimas a toda espécie de crueldade e violência.

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No aclamado filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica (Clockwork Orange no original), adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess, o protagonista Alex DeLarge cometia as maiores atrocidades ao som da Nona Sinfonia de Beethoven.

Ora, nem por isso se pode afirmar que este ou aquele gênero musical é prerrogativa ou monopólio de sádicos, masoquistas ou sociopatas.

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Não se pode perder de vista que boa parte do estereótipo observado em algumas vertentes do heavy metal detem um forte apelo cênico, o que não condiz, necessariamente, com a orientação religiosa que o artista professa. Apenas para exemplificar, o vocalista e baixista Tom Araya, da banda americana Slayer, cujas músicas por certo fariam o Pastor Steven encharcar os ouvidos com todo o estoque de água benta de sua Congregação, já disse publicamente que cresceu na fé católica e acredita em Deus.

Ninguém é obrigado a apreciar, seja rock, sertanejo, funk ou qualquer outro estilo musical. No entanto, num mundo democrático e civilizado, não se pode impedir que as pessoas que compartilham dos mesmos gostos se reúnam para ouvir a música de sua preferência, em espaços adequados para tanto, livres de extremistas lunáticos.

A maioria esmagadora da plateia de um show musical, independentemente do gênero, não busca a violência, mas sim distração e descontração. Neste particular, resta evidente que a maldade maior está na mente, ou nos olhos de quem vê nisso algo mais que um simples evento artístico.

Aliás, se tais pessoas estivessem dispostas de fato a perceber o seu real sentido, talvez lograssem êxito em exorcizar os próprios demônios interiores, que insistem em afligir suas almas imaculadas e cheias de graça.

Consta que Freud, após uma aula sugerindo que o ato de fumar seria um indicativo de libido oral, foi flagrado por seus alunos saboreando um belo charuto. Ante o olhar perplexo de seus pupilos, teria dito: "Meus caros, às vezes um charuto é apenas um charuto".

Os Rolling Stones, prestes a desembarcar no país, por certo lembrariam, "It's only rock and roll, but I like It". No entanto, Caetano Veloso já cantou que "Narciso acha feio o que não é espelho".

A música, tida por muitos como a primeira das artes, executada desde os primórdios até no mundo animal, sempre foi e será um veículo de contemplação e libertação. Afinal de contas, como já diziam as Sagradas Escrituras, em Mateus 11:15, quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

Newton Cezar Valcarenghi Teixeira
Promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios




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