Bataclan: Promotor de Justiça de Brasília rebate críticas de Pastor ao Heavy Metal
Por Newton Cezar Valcarenghi Teixeira
Fonte: Jornal Correio Braziliense
Postado em 14 de janeiro de 2016
Passados quase dois meses do atentado ocorrido em Paris, em que cerca de 100 pessoas perderam a vida na casa de shows Bataclan, vítimas de extremistas do Estado Islâmico, fica a impressão de que muito ainda há a ser feito, em busca de um cada vez mais utópico respeito às diferenças.
Recentemente, foi divulgada uma das mais lamentáveis manifestações sobre o ocorrido, de autoria do Pastor Steven Anderson, da Faithful Word Baptist Church, sediada em Phoenix, AZ, Estados Unidos. Em pregação realizada após o malsinado episódio, asseverou o religioso que a França pagou o preço por ser uma nação vendida ao pecado, na medida em que, "se pessoas se predispõem a ir a um show de death metal, alguém pode morrer", "se você ama tanto a morte, você comprou o ingresso, você ama adorar Satanás", ou "vamos deixar a religião de Satanás entrar e atirar em você". O vídeo em questão, na íntegra, pode ser facilmente localizado na internet.
De início, deixo claro que a crítica que ora se faz não é dirigida a nenhuma religião. Toda pessoa deve ser livre para professar o credo que, entende, melhor satisfaz as suas expectativas de evolução pessoal e espiritual, inclusive para em nada crer. Via de consequência, o grande desafio, menos do ser religioso do que do ser humano, é justamente o da tolerância. Em outras palavras, aceitar que nem tudo o que me agrada, satisfaz, alegra, preenche, nutre e enriquece, guarda o mesmo efeito em relação a outras pessoas. Tampouco por isso nos tornamos melhores ou piores. Já se disse que gosto não se discute, quando muito, lamenta-se.
Porém, não se pode atribuir ao público de um show de rock a culpa por um ato idealizado e levado a cabo por mentes insanas.
Como contraponto para reflexão, relatos dão conta de que o médico e carrasco nazista Josef Mengele, conhecido como "Anjo da Morte", responsável por experimentos perversos em judeus no Campo de Auschwitz, entre 1943 e 1945, era um grande apreciador de música clássica, conquanto submetesse suas vítimas a toda espécie de crueldade e violência.
No aclamado filme de Stanley Kubrick, Laranja Mecânica (Clockwork Orange no original), adaptado do livro homônimo de Anthony Burgess, o protagonista Alex DeLarge cometia as maiores atrocidades ao som da Nona Sinfonia de Beethoven.
Ora, nem por isso se pode afirmar que este ou aquele gênero musical é prerrogativa ou monopólio de sádicos, masoquistas ou sociopatas.
Não se pode perder de vista que boa parte do estereótipo observado em algumas vertentes do heavy metal detem um forte apelo cênico, o que não condiz, necessariamente, com a orientação religiosa que o artista professa. Apenas para exemplificar, o vocalista e baixista Tom Araya, da banda americana Slayer, cujas músicas por certo fariam o Pastor Steven encharcar os ouvidos com todo o estoque de água benta de sua Congregação, já disse publicamente que cresceu na fé católica e acredita em Deus.
Ninguém é obrigado a apreciar, seja rock, sertanejo, funk ou qualquer outro estilo musical. No entanto, num mundo democrático e civilizado, não se pode impedir que as pessoas que compartilham dos mesmos gostos se reúnam para ouvir a música de sua preferência, em espaços adequados para tanto, livres de extremistas lunáticos.
A maioria esmagadora da plateia de um show musical, independentemente do gênero, não busca a violência, mas sim distração e descontração. Neste particular, resta evidente que a maldade maior está na mente, ou nos olhos de quem vê nisso algo mais que um simples evento artístico.
Aliás, se tais pessoas estivessem dispostas de fato a perceber o seu real sentido, talvez lograssem êxito em exorcizar os próprios demônios interiores, que insistem em afligir suas almas imaculadas e cheias de graça.
Consta que Freud, após uma aula sugerindo que o ato de fumar seria um indicativo de libido oral, foi flagrado por seus alunos saboreando um belo charuto. Ante o olhar perplexo de seus pupilos, teria dito: "Meus caros, às vezes um charuto é apenas um charuto".
Os Rolling Stones, prestes a desembarcar no país, por certo lembrariam, "It´s only rock and roll, but I like It". No entanto, Caetano Veloso já cantou que "Narciso acha feio o que não é espelho".
A música, tida por muitos como a primeira das artes, executada desde os primórdios até no mundo animal, sempre foi e será um veículo de contemplação e libertação. Afinal de contas, como já diziam as Sagradas Escrituras, em Mateus 11:15, quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.
Newton Cezar Valcarenghi Teixeira
Promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios
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