Ghost e as críticas ao "novo"
Por Marcelo Dias Albuquerque
Postado em 27 de setembro de 2013
Como tudo que existe nesse mundo, o rock sempre sofreu de um mal latente, que é a crítica a tudo que é novo no gênero. Atualmente tenho visto uma porção de críticas à banda Ghost, que se apresentou no palco principal do Rock in Rio deste ano.
É uma banda recente com apenas dois álbuns lançados e já faz muito sucesso. A proposta, contudo, é bem inovadora. Não que usar maquiagens seja realmente algo novo, pois isso não é. Mas o Ghost apresenta algo que difere bastante do heavy metal como o conhecíamos até então, que é a presença forte e avassaladora dos vocais. Dentro do gênero, quase todas as bandas mais famosas sempre tiveram destaque para o vocal, e no caso do Ghost o vocal é fraco, sem gritos e sem exageros, é quase como se falasse. Fora isso tem a questão de misturar música sacra e até letras em latim nas suas composições.
Só que esse post não tem o objetivo de falar da banda em si, o foco é outro. Ocorre que o público heavy metal, que escuta as mesmas coisas desde a década de 1980 ou antes, de maneira quase geral caiu em cima dessa banda com críticas cruéis e persistentes. O mesmo que fizeram antes com Slipnkot e System of a Down. Isso é fruto de uma mentalidade tradicionalista na qual a "música é", em vez de "a música está".
A meu ver, esse tipo de público que se esforça em criticar coisas novas apenas pelo fato de não serem iguais às coisas antigas, é o mesmo público que, outrora, teria criticado veementemente o thrash metal por ele não ser heavy metal, e antes disso teria criticado o NWOBHM por que não era heavy metal tradicional, e antes disso, ainda, teriam criticado o próprio Black Sabbath por que a sonoridade da banda não tinha nada a ver com o rockabilly ou o hard rock dos anos 60 e 70.
Quando Black Sabbath e Led Zeppelin surgiram, as grandes revistas (até mesmo de rock) criticaram as duas bandas de formas até grosseiras. A resenha apresentada sobre "The Song Remains the Same", na época, apresentava uma opinião crítica exagerada sobre o álbum da banda que, atualmente, é um dos maiores clássicos do gênero. Gente assim também teria criticado o blues por que não era jazz, e se tivessem vivido a renascença teriam criticado compositores clássicos que hoje são consagrados.
As pessoas não percebem que o mundo muda e que a música faz parte do mundo. É claro que eu prefiro ouvir Iron Maiden e Deep Purple em vez de ouvir Avenged Sevenfold. Mas, quem nasceu em 1995, por exemplo, talvez goste mais de ouvir Avenged. E quem sou eu para dizer que a banda é ruim? Posso dizer que ela é diferente, e isto é mesmo. O que o Ghost faz hoje se equipara ao que o Kiss fez no passado: marketing. O que o Ghost faz hoje se equipara ao que Alice Cooper fez no passado: chocar as pessoas.
Alguém acha que Leonardo da Vinci tinha o reconhecimento artístico que ele tem hoje, na época em que viveu? Não. Muito pelo contrário. Ele era um gênio ridicularizado em seu tempo, assim como um dia Einstein foi chamado de burro por seus professores.
Portanto, digo com toda certeza que é preciso aceitar a inovação. Se você gosta de coisas antigas, não tem problema, pois você sempre poderá ouvi-las também, e sempre haverá gente disposta a perpetuar os "clássicos" em qualquer gênero musical. Isso não é algo com o que se preocupar. O fato de hoje uma banda ser consagrada não vai desconsagrar os nossos ídolos do passado. E as pessoas têm que aceitar isso, para não parecerem burras em suas críticas vazias a tudo que é novo.
Heavy Metal já é algo bastante caricato e é motivo de piada para muita gente. Se você é metaleiro e quer respeito por isso - coisa com a qual me preocupo muito pouco -, então haja de forma respeitável. A começar, respeitando os outros e admitindo o talento de quem realmente o tem.
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