Vortex Cultural: O Fim do Metal Nacional, por Bruno Mira

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Carlos Tourinho, Fonte: Vortex Cultural
Enviar correções  |  Ver Acessos

Segue abaixo uma excelente visão sobre o metal nacional, feita pelo músico e produtor Bruno Mira, publicada no site Vortex Cultural:

"Gostaria de sugerir um exercício de criatividade aos leitores deste blog, imaginem aquela cena enfadonha de terapia de grupo do tipo Alcoólicos Anônimos, onde um sujeito se levanta e diz:

- Oi, meu nome é Fulano, e eu sou Alcoólatra. Com este pano de fundo eu começo dizendo:

- Meu nome é Bruno, eu sou mais um brasileiro, ex-guitarrista, ex-vocalista, de uma ex-banda de Metal brasileira. Todos os dias bandas de Metal começam e acabam no Brasil seja numa garagem, ou em salas de estúdios de ensaio ou gravação, e ou até mesmo nos escritórios de gravadoras, ou revistas especializadas no gênero.

O fato de uma banda que para ser reconhecida no Brasil precisa antes ser reconhecida fora do país, é um sintoma desse público de Metal que só respeita uma banda pelo sucesso no exterior, o famigerado público "Paga-Pau-de-Gringo". O que é óbvio, e tanto as bandas quanto as gravadoras (do estilo) não vêem, é que este não é um bom público. É limitado, preconceituoso e radical nas suas opiniões, nunca está aberto às bandas novas, ou ao trabalho da uma determinada banda, ou até a fim de amadurecer com ela. Só consome os "clássicos" ou "medalhões", ou seja, só consome marcas já consagradas. Em termos de público afirmo sem medo de errar que as bandas estão investindo no público errado, porque este tipo de público é teleguiado e não é formador de opinião, por mais que critiquem, o comportamento e o tipo de consumo dessas pessoas só comprova isso.

Outro problema do Metal é a segmentação, pseudo-nichos que ao invés de direcionar segregam e rotulam, vendendo de forma incoerente e equivocada os trabalhos dos artistas. Tem espaço na arte para tudo: disco opereta, disco conceitual, disco histórico, disco autobiográfico, disco-épico, disco-fantasioso-folclórico, mas ninguém faz isso voltado para o Brasil (público brasileiro). Quem no mundo vai querer consumir a cultura brasileira além do brasileiro? Este que sempre foi carente de cultura, principalmente da sua própria, o brasileiro não conhece o Brasil!

O símbolo mais emblemático disso é um Mameluco (mistura de Índio com Negro, cerca de 70% da população brasileira possui uma dessas duas heranças genéticas) fã de "Power-Viking-Nordic-Mother-Fucker-Metal" (IRONIA), analfabeto funcional (vítima do nosso fatídico investimento público em educação), que vive em negação da sua própria cultura e etnia. É o ápice da nossa esquizofrenia enquanto cultura colonizada. O metal tem de se abrir pro público brasileiro, e parar de usar a música brasileira de forma pseudo-intelectual só pra vender discos lá fora como world-music.

Um amigo meu teceu um comentário sobre o vídeo do Edu Falschi que eu achei muito bom e vou reproduzi-lo:

- Muito bonito o que ele disse, mas acho que ele deveria ter gravado em inglês em respeito ao público dele.

Eu respeito o fato de existirem bandas que escrevem em inglês, mas isso não é uma crítica a elas diretamente, contudo é preciso entender que o mercado dessas bandas é o externo, essas bandas não querem ser uma "banda brasileira", elas querem ser uma "banda gringa" cosmopolita, "do mundo", porque sabem que aqui o som deles não tem espaço. Todas essas bandas têm a ilusão de que podem competir com os gringos no próprio território deles, e ainda ter respaldo no Brasil com a cultura do metaleiro brasileiro de valorizar mais o que vem de fora. Todos vocês estão equivocados! Vocês vão ter de fazer sucesso fora pra poder ter um bom público aqui, e viver de música, que é o sonho de toda banda independente. O que é mais bizarro é que às vezes pra você conseguir alguma realização fora do país é preciso mostrar algo diferente pros gringos, o que invariavelmente acaba sendo a nossa própria cultura, exemplos: Sepultura e Angra.

Mas esses casos são únicos, e não podem ser aplicados a nossa realidade, o André Matos tinha os contatos, dinheiro e o projeto certo para aquele momento do Metal nacional, foi o casamento perfeito entre estar no lugar certo, na hora certa e estar preparado para isso. Mas isso não se aplica a nenhum modelo, é imponderável o que aconteceu, e de resto o que temos além de nós mesmos para mudar esse cenário?

Gostaria que vocês reparassem que quando penso em Brasil não penso apenas em Sudeste, e nem tento elitizar o meu mercado em potencial, falta essa ambição às bandas e as empresas que pretendem explorar esse mercado, falta arrojo comercial. Outro equívoco comercial é quando as bandas que ao invés de oferecerem trabalhos ARTÍSTICOS com mensagens, conceitos, valor cultural e etc, só vendem técnica, ou seja, música de músico pra músico. Um público altamente "especializado", que na minha opinião de merda seria melhor rotulado como específico demais, e só! Quem vive de técnica, vive de depreciar a técnica alheia pra promover a sua própria, e o marketing negativo é o único retorno da sua marca que você ganha investindo nesse nicho.

Bom músico, bom instrumentista é força de trabalho e não "O Trabalho", quem vende técnica uma hora cansa o mercado com a sua fórmula, como as já cansadas bandas de Prog-Metal. As pessoas ouvem música pra se divertir, se entreter, se relacionar com o trabalho de alguma forma, mas quando se oferece isso tudo, e ainda alguma profundidade é que se tem um grande produto que qualquer consumidor vai querer conhecer. É patético um músico reclamar do público (Não é senhor Edu?), isso é uma democracia ou não? O público sempre foi o termômetro do trabalho dos artistas. O mais irônico é que esses músicos de Metal Melódico, que parecem presos à Idade Média nas suas temáticas, esquecem que o público daquela época atirava objetos nos artistas dependendo de sua aceitação ao espetáculo.

Nesse mercado todos são culpados, as bandas com seu trabalho mal elaborado e mal vendido, o público, que como é um problema sócio-cultural levará anos até poder ser amenizado, e as gravadoras, produtoras e afins, pela falta de investimento, apoio, incentivo e arrojo comercial. Porém não posso deixar de falar de um dos grandes culpados: A Mídia! A culpa da mídia é que ela não faz mais reportagens, não vai mais atrás de bandas, como os repórteres de campo da Rollingstone que descobriram o Black Sabbath e Led Zeppelin ainda excursionando. Hoje a maioria dos jornalistas sentam em suas redações e esperam o disco do interesse editorial da redação (Jabá) chegar pra elaborarem suas resenhas. Existem milhões de bandas boas de Metal no Brasil, outras muito originais, e muitas já acabaram por falta de incentivo e apoio, bandas diferentes que poderiam fazer mais pela música brasileira do que o próprio Angra.

A única coisa que posso afirmar com uma segurança quase que espiritual é que o Metal nacional só vai acabar quando não existir mais fã do estilo no Brasil, seja levando um cover despretensioso no fim de semana numa garagem da vida, ou com projetos mais ambiciosos engavetados em corredores sem fim dos prédios das corporações imperialistas que exploram o nosso mercado fonográfico, viva la revolución! (IRONIA).

Para quem ainda não viu o desabafo do cantor do Angra Edu Falaschi segue o link:

Outra informação muito instrutiva é sobre a origem da banda Angra, bem no finalzinho desta crítica aos shows e CD's da mesma:

Delfos: E o Angra, no fim das contas, morreu pela bocaDelfos
E o Angra, no fim das contas, morreu pela boca




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção OpiniõesTodas as matérias sobre "Angra"


Kiko Loureiro: mostrando um dos riffs mais pedidos pelos fãs

Desencontro com Kiko Loureiro: as frustrações de um Guitar Hero (vídeo)Desencontro com Kiko Loureiro
As frustrações de um Guitar Hero (vídeo)

Angra: vocal cover de "Make Believe" feito por Pedro CamposAngra: a coleção em CDs e detalhes sobre os discos na Collectors RoomFöxx Salema: Saiba quais são as principais influências da vocalista

Angra: Kiko Loureiro conta que ainda ajuda a tomar decisões da bandaAngra
Kiko Loureiro conta que ainda ajuda a tomar decisões da banda

Kiko em Kaza: Gastão Moreira bate um longo papo com Kiko LoureiroKiko em Kaza
Gastão Moreira bate um longo papo com Kiko Loureiro

Andre Matos: Theocracy faz homenagem ao vocalista no ProgPower USA; assistaAndre Matos
Theocracy faz homenagem ao vocalista no ProgPower USA; assista

Rodz Online: 25 Anos de Philips Monsters of Rock 1994 (vídeo)

Marcelo Barbosa: assista a Big Trouble, novo clipe solo do guitarrista do AngraMarcelo Barbosa
Assista a "Big Trouble", novo clipe solo do guitarrista do Angra

Luis Mariutti: os bastidores do reencontro com Edu Falaschi e Alex Holzwarth

Kiko Loureiro: trabalhando em novo disco soloKiko Loureiro
Trabalhando em novo disco solo

Rhapsody: Fabio Lione em entrevista exclusiva ao Brasil

Luis Mariutti: comentando a polêmica participação do Angra no Programa do JôLuis Mariutti
Comentando a polêmica participação do Angra no Programa do Jô

Rafael Bittencourt: novos planos do Angra e do Bittencourt ProjectRafael Bittencourt
Novos planos do Angra e do Bittencourt Project

Kiko Loureiro: canções que fizeram ele ser o músico que é hojeKiko Loureiro
Canções que fizeram ele ser o músico que é hoje

Angra: Alissa agradece a banda e fãs por Black Widow's WebAngra
Alissa agradece a banda e fãs por "Black Widow's Web"

Angra: Eu gostaria de reunir todos os ex-membros no palcoAngra
"Eu gostaria de reunir todos os ex-membros no palco"


A década perdida?: Rock Brasileiro da Década de 70A década perdida?
Rock Brasileiro da Década de 70

Bruce Dickinson: punks não sabem tocar e tem inveja do metalBruce Dickinson
Punks não sabem tocar e tem inveja do metal

Miranda: Um monte de roqueirinho que só quer ser da GloboMiranda
"Um monte de roqueirinho que só quer ser da Globo"

Metallica: Lars Ulrich quase saiu no tapa com Lou ReedMetallica
Lars Ulrich quase saiu no tapa com Lou Reed

Creed: nomeada pior banda dos anos 1990 pela Rolling StoneCreed
Nomeada pior banda dos anos 1990 pela Rolling Stone

Total Guitar: os melhores e piores covers da históriaTotal Guitar
Os melhores e piores covers da história

Tirando a poeira do tímpano: 20 novas bandas de rock pra curtirTirando a poeira do tímpano
20 novas bandas de rock pra curtir


Sobre Carlos Tourinho

Carlos Tourinho 'tenta' ser economista, além de tradutor nas horas vagas. Fã desde criança de Rock and Roll, por influência do pai músico, desde cedo teve contato com a cena rocker da Bahia, como Marcelo Nova e Raul Seixas, que frequentavam sua casa. Hoje morando no Ceará, curte de tudo um pouco, desde Bob Dylan, passando por Faith No More a Mastodon. Mas seu coração (e cabeça) bate mais forte pelo Thrash Metal de bandas como Metallica, Anthrax e Slayer, e pelo Stoner Rock de Kyuss, Monster Magnet e Fu Manchu. Fanático por Cultura Pop, geralmente é fonte de consulta de seus amigos acerca dos mais variados assuntos sobre cinema, música e literatura. Acredita que Deus é uma mistura de Mike Patton, Martin Scorsese e Bill Waterson.

Mais matérias de Carlos Tourinho no Whiplash.Net.

adClio336|adClio336