Pink Floyd: Todos erguemos muros ao redor... qual é o seu?
Por Tiago Neves
Fonte: The Seventh Wall
Postado em 27 de novembro de 2011
Sempre achei que grandes discos deveriam trazer boas sensações durante sua audição, seja lembrando de passagens marcantes de minha juventude, ou mesmo pelo simples prazer de conhecer uma banda diferente e assimilar novos sons. Mudei drasticamente minha opinião quando ouvi pela primeira vez o aclamado álbum duplo da banda inglesa Pink Floyd: The Wall. Por que um disco que aborda, entre outros temas, o isolamento do mundo e das pessoas que nos cercam, tendo como metáfora a construção de um muro em torno de si mexeu tanto comigo e com tantas pessoas que passam pela, ao mesmo tempo, maravilhosa e incômoda audição das 26 faixas desse disco duplo?
Conheci ‘The Wall’ em 2002. Apresentado a mim no ensino médio por um professor maluco de filosofia e fanático por operas-rock (já havia conhecido por intermédio dele outro clássico, o disco Tommy, do The Who). Por insistência dele levei o CD para casa, pois segundo ele, seria "uma experiência transformadora para minha vida". Mesmo sem acreditar muito em suas palavras proféticas, aceitei o desafio. Eu, acostumado a gostar de discos pela beleza da arte da capa à primeira vista, não poderia mesmo levar em consideração as afirmações de um docente ‘lunático’, sobre um disco que trazia estampado alguns tijolos brancos pichados com o nome da banda e o título do álbum. Ao chegar em casa, coloquei-o no play para tocar. Mal sabia eu que ele estava completamente certo e hoje, quase dez anos depois, ainda encaro a audição deste disco como uma experiência praticamente religiosa.
Lançado originalmente em 1979, sob concepção quase ditatorial do baixista Roger Waters, The Wall se tornou o disco duplo mais vendido da indústria fonográfica. Não entrarei aqui nos detalhes técnicos e históricos a respeito da criação desse álbum, pois informações como essa são encontradas facilmente pela internet. O que gostaria de compartilhar nessas linhas são os sentimentos que o disco me proporcionou (e até hoje ainda proporciona) no decorrer de sua audição.
De volta ao primeiro contato, mesmo sem entender nada acerca das letras do álbum, a melancólica introdução, seguida dos primeiros e imponentes acordes de ‘In The Flesh’ causaram um impacto sobre minha pessoa que até hoje disco nenhum causou. Ouvi o restante do Cd sendo levado pelas sensações que cada música proporcionava, finalizando com a mesma melancolia do começo em ‘Outside The Wall’. Precisei ouvi-lo mais algumas dezenas de vezes e pesquisar sobre a história do personagem Pink para assimilar a experiência por completo, e tamanha foi minha surpresa ao descobrir que ‘O Muro’ construído ao redor de Pink poderia ser erguido ao redor de qualquer um que aceitasse a experiência, assim como eu aceitei.
Sem conter nenhuma mensagem messiânica, o disco retrata vivências que muitos de nós provavelmente já tivemos, como uma mãe superprotetora, professores que maltratam seus alunos, o drama de perder o pai e de sentir a falta dele em seu crescimento e formação, o drama da dependência química e das alucinações que as drogas provocam, enfim, o isolamento do mundo em qualquer forma.
Impossível não se lembrar daquele professor ‘fdp’ dos tempos de escola ao ouvir ‘Another Brick in The Wall’ – a tão famosa música do "We don’t need no education..." – a única que eu conhecia antes de ouvir esse disco. Assim como também é impossível não lembrar daqueles momentos em que nossa mãe nos protegia, praticamente formando quase que literalmente um muro ao nosso redor, de forma que nada nem ninguém nos atingisse. The Wall toca profundamente em nossas emoções, e é impossível ouvir o disco apenas como passatempo ou distração, pois uma vez envolvido na história, você se identifica imediatamente com o drama de Pink em algum momento...
Como não cantar junto com David Gilmour o refrão de ‘Young Lust’, a plenos pulmões, em momentos que queremos esquecer do mundo e apenas se divertir:
- "Uh, I need a dirty woman... uh, I need a dirty girl!"
Aquela mudança súbita de comportamento, onde por vezes nos tornamos até mesmo agressivos com as pessoas mais próximas é retratada fielmente em ‘One of My Turns’, assim como aquele pedido desesperado de ajuda, sempre sem resposta como o personagem, já completamente isolado do mundo e da realidade em ‘Hey You’, e até aí só estamos na metade da experiência...
A viagem não seria completa sem que antes embarquemos no fantástico solo de Gilmour em ‘Confortably Numb’, e o que vem a seguir é uma sequência de sensações onde, imersos e paradoxalmente indefesos pelo mesmo muro que construímos para nos proteger, culminamos como réus em ‘The Trial’. Condenados a quebrar o muro e nos abrir para o mundo, percebemos que tudo o que precisamos na verdade se encontra mesmo do lado de fora do muro.
A quem se interessar, recomendo também o filme homônimo, de 1982, sob direção de Alan Parker. Nele, temos a personificação dos sentimentos pelo protagonista, interpretado de forma magnífica aqui por Bob Geldof. A experiência audiovisual da película é tão emocionante quanto a audição do disco duplo.
Como disse no começo deste texto, a partir de ‘The Wall’ passei a encarar o desafio de ouvir esse disco e vários outros como mais do que uma simples distração ou passatempo, mas sim como uma experiência árdua, mas que no fim causa uma inexplicável sensação de libertação, e de que existe sim vida e pessoas que nos amam ‘outside the wall’ assim como diz a letra de Roger Waters que encerra esta brilhante obra:
"All alone, or in twos
The ones who really love you
Walk up and down outside the wall..."
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