Em busca da melodia perdida
Por Daniel Jr.
Postado em 27 de fevereiro de 2008
Na década de 60 explodia no mundo a banda mais famosa de todos os tempos, The Beatles. O Fab Four (o fabuloso quarteto) de Liverpool abalou as estruturas musicais, numa paixão irreversível e com prazo de validade indeterminado. Sua colaboração para a música, moda, cultura pop, comportamento, ainda é medida por estudiosos de vários segmentos e a influência da sua existência histórica não tem proporção com nenhum outro fenômeno na arte pós-moderna.
John, Ringo, Paul e George, com suas roupas de couro (oriundas da turnê na Alemanha, ainda acompanhando o cantor Tony Sheridan) e logo em seguida com seus terninhos comportados, paradoxalmente, provocaram uma revolução na indústria. Mesmo não sendo modelos de beleza reconhecida, os rapazes tinham sex appeal com a juventude inglesa e posteriormente, com o mundo todo, após a bem sucedida turnê americana.

Muito além das frases debochadas de John e do humor típico inglês de Ringo Starr, The Beatles era um conjunto, que musicalmente primou por melodias adocicadas, populares e por isso mesmo, conquistadoras na primeira audição. Sempre com backing vocals a la Beach Boys, com terças e quintas moduladas com perfeição, dentro dos limites de cada voz, os Beatles imprimiram sua marca de qualidade em todos os seus discos. Fosse por uma harmonia mais "intrincada" e louca, como Tomorrow Never Knows (que é toda em Dó Maior, sem alteração nos acordes) de John Lennon, seja por belezas líricas como The Fool On The Hill, de Paul McCartney, que delimitava as diferenças criativas entre os dois compositores mais expostos até aquele momento.

A herança da bela melodia, fácil de cantar deixada pelo quarteto, influenciou a música pop. Nas décadas posteriores e mesmo nos anos 60, a música popular fora absolutamente seduzida pelo formato canção. The Carpenters, John Denver, Kenny Rogers, expoentes americanos, até mesmo representantes ingleses da década de 80, como The Smiths, Stone Roses, New Order, em todas as variações pop, eletrônicas, indie, na surf music do Midnight Oil, do Oingo Boingo, do Hoodoo Gurus, até o Pet Shop Boys, A-ha, Information Society. Mesmo na base eletrônica e marcada pelo groove do Depeche Mode, não poderíamos dizer que ali não havia uma bela canção, que poderia ser facilmente acompanhada ao violão.
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Porém existe uma mudança drástica, tangente e revolucionária: a morte da "boa melodia". Da canção, com refrão, estribilho e solo. Dos vocais, das inovações melódicas propostas ora pela banda, ora por seus produtores. O que chamávamos de som alternativo é mainstream até o talo. O lema "quanto pior melhor" assombrosamente tomou conta da maioria das produções e, aquele que opta por fazer um disco cheio de melodia, corre o risco de ser massacrado pela crítica, por ser repetitivo ou piegas.

Não cabe mais no perfil do ouvinte atual, canções que tenham métrica perfeita. Que o encaixe da letra esteja sublinhado por uma harmonia trabalhada. Com bateria e baixo em sincronia, com guitarras fazendo camadas diversas (uma cama como se diz entre os músicos) e teclado criando clima. Não. Agora o queridinho da mídia é o White Stripes, ou seja, bateria e guitarra. Ah! E não importa a afinação, que se tornou uma questão secundária, vez por outra terciária, no quesito mais básico e requisitado para se cantar ou tocar.
Vivemos um tempo do novo punk. Porém neste momento, não precisa agulha na língua, coturno e casaco de couro. O lema "do it yourself", vale para os compositores, que mesmo sem técnica, sem afinação e sem talento, "mandam ver" em músicas cada dia menos consonantes e cheias de antimusicalidades.

Há muito não se ouve uma balada de cortar-o-coração, que não seja ao mesmo tempo uma ladainha e uma chatice só! A máxima é tão verdadeira, que se você ligar o seu rádio por volta das 22 horas em qualquer estação lounge, as "músicas lentas" que lá tocarão são de 15, 20 anos atrás. Ouve-se Diana Ross, Crhis de Burgh e Roberto Carlos. Pois é, nem o Rei é mais o mesmo. Será que perdeu sua majestade?
As coisas relacionadas neste texto são inegáveis fatos do presente. Constatações de uma geração que sequer sabe perceber uma boa melodia de uma canção pobre em termos estruturais, mas o mais espantoso de todas estas constatações refere-se justamente ao penúltimo parágrafo escrito: os grandes compositores parecem ter perdido a mão e não conseguem mais fazer pérolas do cancioneiro popular. Madonna, Michael Jackson, George Michael, Elton John. Todos eles melodistas com grau de sacarose 1000, não conseguem ir além do baticundum eletrônico e dançante, perdendo o total carisma musical, para serem mais conhecidos por seus escândalos ou ações fora dos palcos. Aqui no Brasil, a história não poderia ser diferente. Passando pelo Rei, até alcançar as bandas de rock dos anos 80, com seu linguajar próprio e uma identidade construída com muita credibilidade junto à crítica e público, não conseguem fazer discos que surpreendam o ouvinte, fazendo-o pesquisar sobre as letras ou mesmo ir aos shows por estas canções. Parece que o artista brasileiro (generalizando sem pestanejar) vive da fama conquistada por canções de valor no passado e já não atrai seu fã pelo que é produzido hoje. Sem contar a infinidade de material ao vivo que é disponibilizado no mercado.

Por isso, não atribuo somente a pirataria e todos os seus desdobramentos, os problemas que atingem a indústria fonográfica. Não se faz boa música no mundo, há muito tempo. Radicalismo à parte, nenhum disco causa tanto frenesi como antigamente. A expectativa de novas canções de artistas como Metallica e Oasis, mexiam com as imaginações de críticos, jornalistas e fãs no mundo inteiro, tentando imaginar, que mágica sairia da cartola.
Será isso pra sempre? Estamos condenados a viver uma nova era na arte musical, onde as canções e seus detalhes são uma mera desculpa pro dvd que será lançado como bônus? Espero que não.
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