10 músicas de rock que os próprios artistas preferem esquecer, além de um álbum inteiro
Por Bruce William
Postado em 24 de fevereiro de 2026
A Far Out publicou uma lista com "10 canções de rock das quais as bandas têm vergonha", reunindo faixas que, por motivos diferentes, acabaram virando incômodo para seus próprios autores. O pacote mistura letras que envelheceram mal, decisões de gravadora, contexto político e até um caso em que o problema maior foi a forma como um videoclipe passou a ser interpretado.
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A seleção traz Van Halen ("Amsterdam"), Ringo Starr ("You're Sixteen"), Deftones ("Back to School"), Pearl Jam ("Jeremy"), Nine Inch Nails ("Big Man With a Gun"), Fleetwood Mac ("I Don't Want to Know"), John Mayer ("Your Body Is a Wonderland"), Paul McCartney ("Freedom") e Guns N' Roses ("One in a Million"). No meio disso, aparece também uma exceção ao próprio título da lista: a matéria inclui o álbum inteiro "Cut the Crap", do The Clash, como uma espécie de capítulo que muita gente ligada à banda prefere não revisitar.
Em alguns casos, a bronca é com a letra. Eddie Van Halen se sentia incomodado com "Amsterdam", por achar que a faixa reduzia a terra natal de Eddie e Alex a uma piada sobre maconha, apesar dos riffs fortes. No caso de Ringo, a implicância com "You're Sixteen" passa pelo tema e pelo jeito como a música soa hoje, com uma diferença de idade que causa desconforto para muita gente - "Sixteen" é "Dezesseis". Anos de idade, no caso. A lista também entra no terreno mais pesado com "One in a Million", do Guns N' Roses, lembrando a resistência de Slash à gravação e o peso das ofensas contidas na letra (mais detalhes no link abaixo).
Em outros exemplos, o ponto não é exatamente "vergonha" no sentido literal, mas inversão de contexto em relação à ideia original. "Jeremy", do Pearl Jam, virou dor de cabeça porque a edição do clipe na MTV teria distorcido a leitura da história para o grande público, levando muita gente a entender a cena final como se Jeremy tivesse atirado nos colegas, quando a proposta original era mostrar o personagem tirando a própria vida diante da turma. E "Jeremy" se tornou um dos clipes mais famosos da época, o que ajudou a azedar a relação da banda com videoclipes dali em diante. Já em "Freedom", Paul McCartney aparece como um caso de música que nasceu em clima emocional após o 11 de Setembro e depois acabou sendo associada a um clima de patriotismo militarizado e, na sequência, à retórica do governo Bush durante a guerra do Iraque. O próprio McCartney disse, em entrevista, que a música "foi sequestrada" e que ganhou um significado militar que alterou o sentido original que ele queria.
Tem também os casos em que a faixa já nasce atravessada dentro da própria banda. "Back to School", dos Deftones, entra como exemplo clássico de pressão de gravadora: Chino Moreno tratou a ideia quase como uma provocação ao filão nü metal que estava em alta, mas a gravadora viu ali um single e empurrou a música para "White Pony". Resultado: virou hit e, ao mesmo tempo, uma "mancha" no disco para quem estava do lado criativo da banda.
No Fleetwood Mac, a bronca de Stevie Nicks com "I Don't Want to Know" aconteceu porque a música entrou no "Rumours" na vaga de "Silver Springs", que acabou ficando de fora por questão de espaço. Já no Nine Inch Nails, a questão com "Big Man With a Gun" passa pela reação pública a uma faixa que foi pensada por Reznor como sátira de uma postura hiper-masculina, violenta e misógina (ele chegou a descrevê-la como paródia desse tipo de atitude), mas muita gente ouviu de forma literal, como se a música estivesse celebrando aquilo que ele queria ridicularizar. Essa leitura ajudou a ampliar a reação pública e o clima de polêmica em torno de "The Downward Spiral", num período em que o disco já estava sendo atacado por setores mais conservadores.
Já em relação a John Mayer, o problema é outro: a música virou um mega-hit e ajudou a fixar nele uma imagem de cantor romântico/pop leve, o que acabou achatando a percepção pública sobre o resto do trabalho dele. A canção foi muito grande comercialmente (single de destaque de "Room for Squares", premiada e bastante associada ao começo da carreira), e isso colou um rótulo que não dá conta do que ele faria depois como guitarrista e compositor, especialmente para quem conhece a fase mais voltada à guitarra/blues e trabalhos posteriores.
No caso do The Clash, a situação é ainda mais radical, porque a bronca não recai sobre uma faixa específica, mas sobre o álbum inteiro "Cut the Crap" (1985). Gravado já sem Mick Jones e com a banda esfacelada, o disco ficou marcado pela influência pesada de Bernie Rhodes, pelo uso de baterias eletrônicas e por uma sonoridade que muita gente associa mais a um projeto desmontado do que ao Clash que fez "London Calling" e "Combat Rock". Joe Strummer chegou a demonstrar desconforto com esse período depois, e o próprio tratamento dado ao álbum ao longo dos anos - frequentemente deixado de lado quando se fala do catálogo clássico da banda - ajuda a explicar por que ele aparece em listas desse tipo como um capítulo que o grupo preferiria não revisitar.
O texto da Far Out tem aquele tom opinativo típico de lista, então dá para discordar de pontos e do peso de cada caso. Mesmo assim, a pauta é boa porque mostra uma coisa que às vezes fica escondida quando a gente olha só para sucesso, streaming e "clássicos": nem toda música famosa é uma música que o artista tem prazer em carregar para sempre. E, às vezes, o incômodo não está nem na canção em si, está no que acabou ficando grudado nela.
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