O que esperar do novo trabalho do Judas Priest?

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Por Bruno Sanchez
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Sempre que ouço a velha história da reunião de uma grande banda ou aquele papo da volta às raízes, o próximo trabalho será o melhor da carreira, etc, me vem uma coceirinha na cabeça e as lembranças do balde (ou oceano) de água fria que foi o álbum St. Anger do Metallica e sua novela antes do lançamento. O mesmo aconteceu com o Iron Maiden, porém em menor escala, com a volta de Bruce e Adrian e o lançamento de Brave New World. Não que este trabalho seja ruim, longe disso, prefiro milhões de vezes este CD ao Anger do Metallica, mas cá entre nós, o Brave New World foi bom mas não excepcional como todos esperavam e gostariam. O Iron consolidou a sua volta mesmo com seu show no Rock in Rio e com o Dance of Death, este sim um trabalho acima da média mesmo que tenha uma ou outra faixa mais chatinha.

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A volta de Rob Halford ao Judas Priest e toda a expectativa criada para o novo álbum dos ingleses devem ser encaradas com muita cautela. Todos (e eu me incluo nisso) esperam por um grande trabalho, algo como um novo Painkiller - que já tem seus quase 15 anos - mas se esquecem de que, mesmo com Halford, o Judas gravou algumas coisas difíceis de engolir.

O interessante de toda a história é que Rob não foi um dos fundadores da banda e nem um integrante da formação original. O primeiro vocalista do Judas Priest e um dos seus grandes idealizadores ainda no final dos anos 60, se chama Al Atkins, mas ele pulou fora pouco antes da gravação do primeiro disco, Rocka Rolla, em 1974. Obviamente que o cara se arrependeu e, exatamente como Paul Dianno no Iron Maiden, Atkins viveu na "sombra" por um bom tempo e continua na ativa até hoje em trabalhos que resgatam um pouco da história do Heavy Metal com músicas dos dois primeiros discos do Judas em suas versões originais (como a maravilhosa Victim of Changes, originalmente chamada de Whiskey Woman). Em 2004, o vocalista uniu forças com o guitarrista Dennis Stratton (ex-Iron Maiden) e formaram a banda The Denial. O primeiro trabalho deve sair em 2005, vamos ver o que sai dessa união.

Mas voltando a história do Judas Priest, a banda alternou em 30 anos, momentos de grande inspiração e épocas onde apenas seguiram o fluxo de caixa mais rentável jogando a criatividade para escanteio .

Os anos 70 foram o grande marco da carreira do Priest, onde a banda realmente definiu novos patamares para o Heavy Metal e ajudou muito na alavancagem da NWOBHM. O primeiro disco, Rocka Rolla (1974), era algo bem genérico para a época e não chamou muita a atenção, mas com o segundo, Sad Wings of Destiny de 1976, tivemos um salto gigantesco em qualidade e eles começaram a traçar seu caminho de sucesso na música pesada com clássicos que são presença obrigatória até hoje nos shows (The Ripper e a já citada Victim of Changes, por exemplo).

Os trabalhos seguintes foram apenas um amadurecimento das idéias e da técnica e a evolução alcançou o seu ápice, na minha opinião, com o disco Stained Class em 1978. Todas as faixas deste disco são muito, muito boas mesmo, abordando temas diversos com muita propriedade e letras inspiradas.

Logo no ano seguinte, tivemos mais um marco do Heavy Metal: Hell Bent for Leather, que em sua tradução, o inferno se rendeu ao couro, trouxe toda a atitude e as características que definem o gênero até hoje, com as roupas de couro, braceletes, a famosa moto de Rob Halford nos shows, letras ácidas e provocativas pregando a liberdade de pensamento e a fuga das regras impostas - curiosamente uma certa contradição com os rumos que a banda tomaria anos depois.

Era chegada a hora da gravação do primeiro registro ao vivo e o Judas Priest escolheu o Japão, com sua fanática audiência, para dois shows em Tóquio que depois resultariam em um dos melhores discos da história, Unleashed in the East, mesmo com os overdubs claramente perceptíveis.

A explosão mundial aconteceu em 1980 com o mega consagrado British Steel, um dos álbuns mais importantes da história do Heavy Metal com hinos eternos como Breaking the Law, Metal Gods, Rapid Fire, Grinder e por aí vai.

Mesmo com todo o sucesso, o Judas sofria de um problema crônico: sua bateria. Em 6 anos de estrada (contando a partir do Rocka Rolla) a banda teve nada menos que cinco bateristas diferentes, fato satirizado com muita propriedade no filme/documentário Spinal Tap. John Hinch, Alan Moore, Simon Philips, Les Binks e finalmente Dave Holland (ex-Trapeze, banda que também contou com Glenn Hughes em uma de suas formações). Antes da gravação do British Steel, os integrantes do Judas decidiram encerrar essa dança das cadeiras na bateria e efetivaram Holland no cargo, mesmo que o músico em quase 10 anos de estrada na banda, jamais tenha participado de algum processo de composição, era o verdadeiro "convidado" dos discos, algo que as bandas brasileiras como Shaman e Angra fazem com os seus tecladistas atualmente.

O sucesso do British Steel, especialmente nos EUA onde a cena fervilhava e o Heavy Metal era a bola da vez, fez com que os integrantes do Priest tomassem uma atitude inusitada: para agradar ao público norte-americano (e eles não têm vergonha nenhuma em assumir isso como fica claro no DVD que conta a história do British Steel), os ingleses se mudaram para a terra do Tio Sam no comecinho dos anos 80 e, aos poucos, suavizaram o seu som. Os trabalhos seguintes ao British Steel eram bons, mas diferentes da revolução que o Priest causara na década anterior, revolução que eu digo para os padrões musicais e não comerciais. Point of Entry, Screaming for Vengeance e o Defenders of Faith são excelentes discos, inspirados, com belíssimas músicas (é impossível falar de Judas sem mencionar Electric Eye), foram sucesso de público e crítica, mas faltava alguma coisa.

Para efetivar essa mudança de rumos, a banda adotou um figurino extravagante seguindo a moda Glam que surgia na metade dos anos 80 com roupas espalhafatosas e lançou o fraco Turbo, fazendo com que os antigos fãs e os headbangers mais fanáticos torcessem o nariz para sons eletrônicos, uma roupagem mais Pop e as letras bobinhas (Turbo Lover e Hot for Love são dose).

A imagem dos pioneiros sofreu um forte abalo com essa mudança e eles não só perderam boa parte dos fãs, como também não conquistaram a nova molecada da cena que procurava algo mais pesado no Thrash Metal que vinha com força total da Bay Area de San Francisco.

Para tentar recuperar o público perdido, nada melhor do que lançar outro álbum ao vivo, recheado dos clássicos das antigas, com alguma coisinha do novo trabalho tocada de forma um pouco mais pesada e em 1987 a banda lança o famoso Priest...Live!. Um bom registro ao vivo, especialmente a versão completa que só saiu em VHS (e agora em DVD), mas sem a garra de outrora, tudo soava um pouco artificial no novo contexto.

A decadência do Judas Priest fazia um belo paralelo com a decadência do mercado norte-americano (e somente lá) de Heavy Metal no final dos anos 80.

Em 1988, a banda lança, já sem grandes alardes da mídia, o álbum Ram it Down que voltava a investir em algo mais pesado. O álbum pode ser considerado o mais "obscuro" da carreira do Judas e faz uma bela conexão com o que viria a seguir. Infelizmente, Ram It Down foi um fracasso comercial e tudo parecia caminhar para o fim definitivo do Judas Priest, especialmente quando a banda ainda foi acusada de incitar o suicídio de dois jovens com mensagens subliminares em suas músicas.

Para piorar, Dave Holland, até então o baterista com mais tempo na banda (lembra da zoação do filme Spinal Tap? Pois é...), vivia um verdadeiro inferno astral com a morte de seu pai e as longas turnês que se seguiam ao lançamento dos discos e resolveu abandonar o barco.

Recuperado, Dave formou um projeto nos anos 90 onde tocava com Al Atkins (sim, o mesmo Al citado lá em cima) os antigos clássicos do Judas Priest, mas a banda foi por água abaixo e Mr. Holland atualmente está preso sob a acusação de assédio sexual contra um garoto de 13 anos na Inglaterra.

Após um longo julgamento, o Priest acabou absolvido da morte dos adolescentes em 1989. Sem esse peso nas costas, a banda fez um processo para a escolha do novo baterista e o cargo acabou nas mãos do competente Scott Travis, antigo fã e mais conhecido pelo seu trabalho com o Racer X nos anos 80.

Com novos ares, a banda entrou em estúdio e gravou o que muitos consideram o seu melhor álbum: Painkiller, em 1990. O trabalho traz tudo o que o velho fã sonhava: garra, peso, inovação e boas letras. Era um verdadeiro tributo ao bom e velho Metal e colocava o Priest de volta ao topo, mesmo sem o apoio dos EUA, agora voltado para a moda Grunge que surgia.

A turnê que veio em seguida foi um sucesso e o Judas tocou em lugares onde não havia pisado ainda, como por exemplo o Brasil no segundo Rock in Rio em 1991 com Rob até arriscando algumas palavras em português antes de anunciar as músicas, um momento histórico.

Quando tudo parecia bem novamente, outro terremoto abala a carreira da banda: em 1992, Rob Halford decide sair do Judas Priest para tocar em frente o Fight (a princípio, apenas um projeto paralelo). O verdadeiro motivo da saída de Halford ainda permanece um mistério com muitos depoimentos e contradições, mas aparentemente até o fato de Rob assumir publicamente seu homossexualismo alguns anos antes teve o seu peso na decisão, talvez por um certo preconceito dos demais integrantes.

Rob alcançou um relativo sucesso com o primeiro trabalho do Fight, War of Words, em 1993 (que também contava com o batera Scott Travis em sua formação, mas este não saiu do Judas); Depois a carreira da banda despencou com o lançamento do fraco Small Deadly Space em 1994. Após o fim do Fight, o vocalista juntou os trapos com Trent Reznor do Nine Inch Nails e com o guitarrista/baixista John Lowery, atualmente na banda de Marilyn Manson, para um projeto ousado que misturasse música eletrônica com o Hard Rock (deixando totalmente de lado o Heavy Metal). O resultado foi mais um fracasso na carreira de Rob Halford: um disco horroroso chamado Voyeurs em 1997.

Com o fracasso de seus projetos, Rob começou a ensaiar a volta ao gênero que o consagrou e, em 1999, anuncia seu novo projeto: Halford, uma banda que faria um som tipicamente Metal com alguma coisa moderna, mais ou menos na linha do Painkiller. Em 2000, o primeiro CD chega ao mercado cercado de muitos elogios e recuperando parte dos fãs carentes do Judas. O lançamento realmente surpreendeu e mostrava o Metal God (ou Metal Queen) em músicas inspiradas.

Um ano depois o Halford se apresentou no Rock in Rio III e fez um dos melhores shows da noite Metal, surpreendendo muita gente que ainda duvidava do potencial do vocalista ao vivo. No mesmo ano, a banda lançou um ótimo registro duplo ao vivo (muito bom mesmo), Live Insurrection, onde incluíram algumas músicas que o próprio Judas Priest não tocava ao vivo há décadas, como Stained Class, Genocide e Tyrant em versões impecáveis. Os olhos dos antigos fãs brilhavam.

No ano seguinte, o Halford lançou o seu último álbum, Crucible, que se não era tão inspirado quanto seu predecessor, pelo menos seguia a mesma linha energética. Mas o melhor ainda estava por vir.

A carreira do Judas Priest logo após a saída de Rob Halford, estava incerta. Muitos apostavam no fim da banda e as coletâneas surgiam aos montes (quando as coletâneas começam a aparecer, pode acreditar que alguma coisa não vai bem), mas KK, Tipton e Hill achavam que o Priest era grande demais para acabar e, depois de merecidas férias de alguns anos, encontraram um novo vocalista na figura de Tim Owens, integrante de uma pequena banda norte-americana chamada Winters Bane, mas mais conhecido pelo seu trabalho cover de Priest onde muitos juraram que ele conseguia imitar com perfeição até os mais obscuros cacoetes de Halford.

Exageros à parte (que renderam inclusive aquele filme Rockstar com o ator e ex-rapper Mark Whalberg), Owens era um bom vocalista e a banda gravou um novo álbum, Jugulator em 1997, dividindo opiniões por ser mais voltado ao Thrash Metal e deixar as raízes no Metal clássico de lado. Muitos gostaram, outros execraram, mas o que importa é que a banda voltou a ter o seu espaço.

Em 1998, o Judas lança mais um bom álbum ao vivo, Live Meltdown, que mostrava toda a versatilidade de "Ripper" Owens no show, tanto nas músicas calmas mais antigas quanto nas pesadonas do novo CD. O problema era que eles também tentaram adaptar as músicas antigas a uma sonoridade mais moderna e o resultado era uma desfiguração de clássicos como Living After Midnight, Metal Gods, entre outros. Há quem goste deste novo peso das músicas mais antigas mas eu, particularmente, prefiro as versões originais.

Mesmo com o novo vocalista, a banda ainda estava em dúvida quanto à nova sonoridade e em 2001 lançaram o mediano Demolition, mais um álbum que dividiu opiniões por soar repetitivo e sem grandes idéias.

Outro álbum ao vivo é lançado (com versão em DVD), Live in London, marcando o fim da era Owens no Judas Priest e preparando campo para a grande notícia de 2003: após muitas informações desencontradas, Rob Halford estava de volta!

Com a carreira de tropeções que Halford e o Judas enfrentaram durante a separação, parecia meio óbvio que mais cedo ou mais tarde o caminho dos dois cruzaria novamente.

O Judas Priest fez alguns shows escolhidos a dedo em 2004, especialmente em grandes festivais, como o Ozzfest nos EUA (onde se apresentaram ao lado do Black Sabbath, também com sua formação original) e o Gods of Metal da Itália e tiraram o restante do ano para a gravação do novo trabalho de estúdio.

Tudo o que se sabe até o momento é que o álbum se chamará Angel of Retribution e sua capa fará menção ao anjo da arte do clássico Sad Wings of Destiny. O lançamento do novo CD já foi adiado 3 vezes (agora vai sair em Março), o que mostra todo o cuidado que o Judas está tomando para não dar nenhum outro tropeção.

Com pouquíssimas bandas realmente inovando no Heavy Metal nesse começo de milênio, vamos torcer para que os Metal Gods nos presenteiem com um trabalho digno de toda a espera, algo que mostre todo o peso e a experiência de mais de 30 anos de estrada. Torço por uma volta triunfante, mas depois da frustração de St. Anger, eu não tiro mais conclusões precipitadas.




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Sobre Bruno Sanchez

Paulistano, 26 anos, Administrador de Empresas e amante de História. Bruno é colaborador do Whiplash! desde 2003, mas seus textos e resenhas já constavam na parte de usuários em 1998. Foi levado ao Rock e Metal pelos seus pais através de Beatles, Byrds e Animals. Com o tempo, descobriu o Metallica ainda nos anos 80 e sua vida nunca mais foi a mesma. Suas bandas preferidas são Beatles, Metallica, Iron Maiden, Judas Priest, Slayer, Venom, Cream, Blind Guardian e Gamma Ray.

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