Engenheiros: Gessinger comenta sobre gravação de DVD solo
Por André Nascimento
Fonte: Blogessinger
Postado em 04 de junho de 2014
No último dia 30 de maio Humberto Gessinger realizou em Belo Horizonte o show que foi registrado e dará origem ao DVD da turnê de seu primeiro álbum solo "Insular", que foi lançado em 2013. O vocalista e baixista escreveu em seu blog sobre a gravação do DVD. Segue o psot abaixo na íntegra:
Hora H, Dia D (152)
Três batidas na porta do camarim anunciam: bora, chegou a hora! Automaticamente os olhos se voltam para o espelho para uma última conferida na posição dos fones e do suporte da harmônica.
Um corredor escuro leva ao palco, onde o trio se posiciona ainda com as cortinas fechadas. Contagem regressiva para o início da locução que levará à abertura das cortinas que levará ao primeiro acorde que nos levará - queira Deus - a interessantes paisagens sonoras.
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Ops, começa uma movimentação estranha no backstage! Mãos se erguem sinalizando que houve problema com algumas câmeras. Por um instante, tudo fica suspenso no ar. Quanto tempo dura este instante? Não se sabe.
Putz, que droga! A gente se programa para estar no pico da energia nessa hora e rola um anti-clímax desses! Eu sei, eu sei, profissionais não são os caras que fazem a coisa certa: são os caras que fazem a coisa certa na hora certa. "Domínio da situação" é o nome do jogo.
Mas, pô!, eu não queria ser profissional agora; não nessa noite! Não queria dominar coisa nenhuma. Pelo contrário: queria ser dominado pela emoção do momento (às vezes ser amador é a maior prova de profissionalismo). Nessa noite, só queria continuar a ser o menino que tinha posters de bandas colados na parede do quarto . Ele estava aqui, pronto pra atacar... agora sumiu.
(*)
Gravar um DVD num único show é arriscado e tenso. No primeiro dia de gravação do DVD Novos Horizontes (2007) tocamos sem erros, mas também sem o brilho de que éramos capazes e que só veio na noite seguinte.
Um dos shows da gravação do Alívio Imediato (1989) não pôde ser utilizado pois descobrimos, na mixagem, que um fã com uma buzina de ar comprimido ficara justo sob um dos microfones posicionados para captar o som da plateia. Cada vez que se emocionava, o cara fazia um esporro enorme. E o cara se emocionava muito!
O mesmo aconteceu numa das sessões do Filmes de Guerra, Canções de Amor (1993): muita sensibilidade na captação do som de uma guitarra - culpa de um novo sistema que estávamos testando - fez com que muito mais do que o desejado fosse gravado.
Tentei não pensar nisso enquanto estava ali, no palco, ainda esperando que se resolvesse o problema com a câmera. Mas a escalada da tensão era inegável.
Melhor não fazer contato visual com ninguém nesses momentos pois a tensão se espalha de forma contagiosa como o soluço. A não ser que alguém com um olhar tranquilo e um sorriso relaxado corte a corrente. Mas é algo arriscado pois, se forem fingidos o olhar e o sorriso, a situação degringola irreversivelmente.
Resolvi olhar para cima, uma maneira sutil de ficar sozinho. Meu olhos se fixaram na cobertura da sala, acima dos refletores e das estruturas que sustentam o cenário. Ali, no teto, alguns milímetros da telha de metal me separavam do céu de BH. Assim como alguns milímetros do tecido da cortina me separavam dos cinco mil malucos-beleza que gritavam pelo show.
Aí então (talvez agora eu esteja imaginando, falando em metáforas, não sei... é possível) o teto se abriu e eu sobrevoei BH. Depois, Moscou, Bagé, Nagoya e centenas de cidades aonde minha música já me levou, aonde já levei minha música. Os tempos se embaralharam (ou melhor: se desembaralharam) e começaram a andar paralelos.
Encontrei, de novo, lá em cima, num passado ainda por acontecer, o alemãozinho que colava capas de disco na parede do quarto. Que ele não morra nunca! Que sobreviva ao meu último acorde! Acordei (sonhei?) com o toque de alguém da produção avisando que estava tudo ok com as câmeras; enfim o espetáculo poderia começar.
Agora sim: contagem regressiva, locução... a cortina se abriu e todos os presentes deram um show! Por sorte, eu estava no melhor lugar da casa para assistí-lo.
Belo Horizonte, 30 de maio de 2014.
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