Angus Young, do AC/DC, comenta a capa de "Highway to Hell" e morte de Bon Scott
Por André Garcia
Postado em 23 de junho de 2022
A virada dos anos 70 para a década seguinte foi um período de altos e baixos para o AC/DC. Após anos ininterruptos de gravações e turnês, eles finalmente conseguiram fazer sucesso nos Estados Unidos com "Highway To Hell" (1979), seu primeiro trabalho ultrapassar 1 milhão de cópias vendidas. E, bem quando parecia questão de tempo para a banda explodir, a notícia da morte do vocalista Bon Scott pegou a todos de surpresa em fevereiro de 1980.
Como substituir um frontman tão carismático parecia uma tarefa impossível, muitos achavam que aquele seria o fim para o AC/DC. Mas com Brian Johnson em seu lugar, os australianos lançaram "Back In Black" (1980), que é até hoje simplesmente o álbum de rock mais vendido da história.
Em entrevista para a Total Guitar em 2020, o guitarrista Angus Young respondeu sobre essa fase de sua carreira. Além de comentar a polêmica causada pela capa de "Highway to Hell" entre os moralistas americanos, ele ainda falou sobre a morte de Bon Scott.
Total Guitar: Em 1979, a banda chegou a seu primeiro milhão de álbuns vendidos com "Highway to Hell".
Angus Young: Foi aquele álbum que nos fez estourar nos Estados Unidos.
Total Guitar: Mas o título do álbum provocou revolta entre os moralistas americanos. Assim como a capa, onde você aparece com chifres de demônio e um rabo pontudo. O que você achou da polêmica?
Angus Young: Assim que nós batizamos o álbum "Highway to Hell", a gravadora, americana, entrou em pânico. No que se refere a religião, eu pensava que todo lugar era como a Austrália. Lá, eles são chamados de fanáticos religiosos, e são uma espécie rara — bem rara! O cristianismo nunca foi um movimento muito popular [por lá], com aquela cultura de condenação.
Mas nos Estados Unidos você tinha caras em lençóis brancos e cartazes com orações protestando nos shows. Eu perguntei: "Contra quem eles estão protestando?" E eles responderam: "Você!" E tinha aquela coisa de que, se você tocasse o disco ao contrário, ouviria mensagens satânicas. P*ta que pariu, pra que tocar ao contrário? Já está escrito na capa: autoestrada para o inferno!
Total Guitar: Após a turnê de "Highway to Hell", você, Malcolm [Young] e Bon [Scott] se encontraram em Londres para começar a trabalhar naquilo que viria a ser o "Back In Black". O quanto foi escrito com Bon?
Angus Young: Bon escreveu pouca coisa, uma semana antes dele morrer. Nós começamos a compor as músicas com Bon na materia. Ele era baterista, originalmente. Ele soltava a mão enquanto Malcolm e eu trabalhávamos nos riffs.
Total Guitar: Quando Bon morreu, em fevereiro de 1980, após mais uma de suas noites de bebedeira, você temia que a vida dele acabasse daquele jeito?
Angus Young: Como pessoa, Bon via a cara da morte direto. Ele costumava dizer: "Um dia a sua hora chega. Você bate as botas."
Total Guitar: Você sentia, assim como muitos fãs do AC/DC, que Bon era insubstituível?
Angus Young: Bem, quando testamos vocalistas, eles diziam: "Como eu vou cantar com esse volume tão alto?" A gente dizia: "Nós não queremos que você cante, nós queremos que você grite!"
Total Guitar: Vocês certamente encontraram o homem ideal para aquele trabalho no Brian Johnson.
Angus Young: Sim. Eu sempre digo que ele soa como se alguém tivesse passado com um caminhão no pé dele. E, assim como Bon, Brian tem um bom senso de humor.
Total Guitar: Numa análise simplista, "Back In Black" foi um grande álbum de rock n roll. Mas, mais profundamente, aquilo foi, como você já descreveu: um memorial.
Angus Young: Todo o "Back In Black" foi nossa homenagem a Bon. É por isso que a capa era toda preta, e o álbum começava com um sino tocando. Algo fúnebre e diferente de qualquer coisa que já tínhamos feito.
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