Como surgiu "Toca Raul!", que todo dia milhares de pessoas gritam em shows mundo afora
Por Bruce William
Postado em 26 de fevereiro de 2023
"Me lembro que no ano 2000 eu estava com meu companheiro atual, Arnaldo Brandão, no Free Jazz Festival, no Rio, e no momento mais solene do espetáculo, em que Sean — o filho de John Lennon — ia começar a cantar com Arnaldo Baptista — dos Mutantes — e alguém gritou 'Toca Rauuuuul'! Quase morri de rir!"
Raul Seixas - Mais Novidades
Este relato está no livro "Coisas do Coração - Minha história com Raul Seixas" de Kika Seixas, que foi casada com Raul, livro escrito em parceria com Toninho Buda, e serve como bom exemplo para ilustrar como a expressão "Toca Raul!" entrou para o imaginário popular e certamente é entoada diariamente milhares de vezes Brasil afora, ou muito provavelmente mundo afora.
A expressão, a princípio, parece soar apenas como um pedido direto e claro para que seja tocada uma música do Raul, que ora é atendido por quem está no palco, dependendo da situação, ora não é atendido por não ter relação com o espetáculo que está sendo apresentado. Só que ela representa algo muito mais complexo mas que todos compreendem: quando alguém grita "Toca Raul!" não está exatamente pedindo o que está sendo dito, mas sim criando um momento descontraído e divertido no meio de um show, tanto que há quem grite isso no meio de uma peça de teatro, espetáculo de dança ou marionetes, qualquer tipo de evento ou festa.
Ao mesmo tempo, "Toca Raul!" dito todo dia em todos os lugares também é uma forma de homenagear o legado e manter a memória de Raul Seixas, importante e seminal artista considerado um dos pilares do rock brasileiro, que deixou um legado artístico imenso que ainda hoje é celebrado e admirado, com um impacto cultural que transcende gerações e fronteiras.
A origem da expressão "Toca Raul!"
Em 2009, Lígia Nogueira e Amauri Stamboroski Jr. investigaram a origem da expressão em uma matéria publicada no G1 onde apresentam vários depoimentos coletados na tentativa de elucidar o mistério.
Um deles é de Tico Santa Cruz, do Detonautas: "Raul Seixas morreu ignorado, sozinho. A gente brinca que essa foi a maldição que ele deixou. É melhor perguntar se existe algum show em que ninguém grite". Outro depoimento é do pernambucano China, que diz: "Não dá para se irritar com o 'Toca Raul!', senão tu vai ter de parar o show a cada cinco minutos. Acho que hoje já virou um bordão, nem é coisa de fã de Raul só, tem gente que faz pela galhofa, pela brincadeira. As pessoas chegam a gritar 'Toca Raul!' em show do Del Rey, que já é um cover de Roberto Carlos".
"Ninguém pode afirmar com segurança de onde veio esse 'Toca Raul', mas que virou uma mania nacional, isso virou. De shows com estrelas internacionais, passando por rodinhas de violão, barzinhos, casas noturnas, salão de festas... Sempre tem alguém que grita. Acho natural músicos e artistas se irritarem com isso. Outros acham graça", diz Sylvio Passos, presidente do Raul Rock Club e um dos maiores especialistas que existem na obra e vida do músico.
Entretanto, Jotabê Medeiros, no livro "Raul Seixas: Não diga que a canção está perdida", apresenta uma curiosa versão para a origem da expressão: "Tem muito gaiato que acredita piamente que foi o próprio Raul a iniciar a onda 'Toca Raul!'. Mas é possível que ninguém conte melhor a história da gênese desse bullying internacional do que o paulista Isaac Soares de Souza. Em 1975, Isaac, fã exacerbado de Raul (fundador do fã-clube Novo Aeon), bolou um princípio de sublevação coletiva em Bariri, no interior de São Paulo (a 325 quilômetros da capital), onde vivia. Juntando os amigos que eram fãs de Raul, um contingente numeroso, Isaac passou a promover uma espécie de flash mob maluco-belezista em 'todos os locais onde estivesse havendo uma apresentação de qualquer artista, popular ou sertanejo'. Eles apareciam como se fosse uma alcateia e berravam: 'Toca Raul!'. E muitos artistas e donos de clubes de música, circos que passavam pela cidade, coreto da praça central, todos odiavam a todos nós, exatamente porque sabiam que nossa chegada aos locais significava perturbação com o coro 'Toca Raul!'"..
Depois de relatar episódios envolvendo Isaac e "Toca Raul!", Jotabê conclui: "Evidentemente, o fenômeno do 'Toca Raul!' pode ter sido fruto de muitas iniciativas simultâneas, mas seu impacto atingiu de forma diversa os artistas que se viram diante do berro anárquico em seus shows" e cita então o caso do cantor e compositor Zeca Baleiro, que nas palavras de Jotabê "fez do limão uma limonada" ao compor uma música chamada "Toca Raul!", cuja letra explica de forma clara e precisa o significado da expressão: "Mal eu subo no palco, um mala, um maluco já grita lá: toca Raul! A vontade que me dá, é de mandar o cara tomar naquele lugar. Mas aí eu paro e reflito, como é poderoso esse Raulzito. Puxa vida, esse cara é mesmo um mito".
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