Roger Waters politizado faz show em que grande acerto foi também maior erro em Curitiba
Por Gustavo Maiato
Postado em 07 de novembro de 2023
Que Roger Warters sempre foi politizado, não é novidade. Basta ver o conteúdo de "The Wall". Porém, mais recentemente, o ex-Pink Floyd vem dando mais nomes aos bois, citando exemplos claros de sua militância e, assim, atraindo e afastando fãs conforme suas ideologias.
Essa decisão de Waters fez refletir na Arena da Baixada, em Curitiba, que estava apenas com metade da capacidade da pista tomada. Quem não compareceu muito provavelmente foi quem decidiu se afastar do músico. Quem compareceu é porque está engajado no discurso político, visto os aplausos efusivos quando, de maneira um tanto agressiva, o telão mandou "quem não quer saber do discurso político ir para o bar" – junto com um palavrão.
Fotos: Lucas Alvarenga

Políticas de lado, quem esteve presente vivenciou um espetáculo sonoro. Todos os instrumentos e vozes cristalinos conseguiram penetrar no âmago da alma de cada um ali. No começo, entretanto, um problema: "Comfortably Numb" ganhou uma versão horrível sem solo e magrinha que mais parece ter sido tirada do "Dark Side of the Moon Redux". O erro foi apagado no clássico "Another Brick in the Wall, Part 2", maior clássico do Pink Floyd e que manteve a roupagem original.

Mas o que é o grande acerto, que também é o grande erro, do título? A sábia decisão de colocar histórias sobre as músicas que estavam sendo executadas de forma escrita no telão se mostrou uma ótima ideia. Em "Wish You Were Here", por exemplo, foi contado como Roger Waters e o saudoso Syd Barrett decidiram criar a banda após assistirem shows na Inglaterra e ficarem com essa vontade.

O problema é que essas histórias só funcionaram bem quando estavam nos telões. Quando o próprio Roger pausava o show para contar, o clima esfriava. Isso só piorou devido ao intervalo que dividiu o set em dois. Isso, no entanto, dá para entender, já que Waters chegou aos 80 anos e talvez precise de um descanso.

Clássicos como "Sheep" e "Shine on you Crazy Diamond" mantiveram a primeira parte com energia lá em cima, enquanto as desconhecidas "The Power That Be" e "The Bar" não animaram tanto. Na segunda parte, hits do "Dark Side" como "Money", "Us and Them" e "Any Colour You Like" foram ajudadas pelo excelente som do estádio. "Time", por sua vez, acabou sendo deixada de fora do set.

Roger Waters provou que dá para ser artista e ser sim engajado politicamente, inclusive escolhendo lados. Basta aceitar que parte do público não mais o acompanhará – e está tudo bem. A mensagem mandando os fãs para aquele lugar no início do show, no entanto, não se encaixa mais num mundo em que é preciso usar a música para tentar unir as pessoas e não criar ainda mais repulsa. No fim, vale a máxima de que, num ambiente polarizado, o ódio que você sente por quem não concorda com você é o mesmo que essa pessoa sente por você.
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