O hit do Barão Vermelho assinado por Cazuza, Roberto Frejat e Clarice Lispector
Por Gustavo Maiato
Postado em 29 de dezembro de 2024
Clarice Lispector é mais conhecida pelo seu trabalho na literatura, mas a escritora brasileira de origem ucraniana já deu seus pulos para o lado roqueiro da força. Prova disso foi quando ela utilizou um trecho de "Ouro de Tolo" de Raul Seixas em um livro seu. Outra aproximação de Lispector com o mundo das guitarras foi na música "Que o Deus Venha", do Barão Vermelho. Isso porque ela acabou entrando nos créditos da faixa já que a letra do clássico foi inspirada em uma de suas obras.
No livro "Preciso Dizer Que Te Amo", que reúne análises das canções de Cazuza, são expostas reflexões de Roberto Frejat sobre a composição. Frejat revela que parte da melodia foi elaborada por ele em parceria com Cazuza, mas que o texto original tinha origem distinta. "Ele adorava esse texto da Clarice, que já tinha feito. Não dava nem para imaginar que a letra estava com o jeito dele escrever moldada", contou Frejat. A canção, inicialmente prevista para o repertório do Barão Vermelho, permaneceu com a banda após a saída de Cazuza.
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No site do Instituto Moreira Salles, um texto detalha a relação entre o fragmento de Clarice Lispector e a adaptação feita por Cazuza. Frejat comentou, à época, sua surpresa ao descobrir a autoria do trecho. "Não dava pra imaginar que era um texto de Clarice, de tão parecida que a letra estava com o jeito dele escrever." Para compreender essa proximidade, destaca-se o seguinte excerto de Lispector:
"Sou inquieta, áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto eu continuo inquieta, é porque eu preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive e a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas eu sei que vou ter paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida." (Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres, 1998, p. 51).
A adaptação de Cazuza se destaca pela transição do gênero do eu-lírico para o masculino e por cortes que enfatizam o caráter poético e musical do texto. As mudanças são sutis e respeitam o tom inquieto do original, que dialoga com o universo criativo do compositor.
O fragmento de Lispector explora temáticas recorrentes em sua obra, como os aprisionamentos da condição social, da humanidade e da linguagem. Esses elementos, que constituem um embate entre o mundo interno e as limitações externas, moldam a narrativa da autora e encontram eco na lírica de Cazuza. Ambos manifestam uma inquietude existencial que transcende formas, revelando a universalidade e o poder expressivo da escrita.
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