Como Raul Seixas influencia os influenciadores digitais dos dias de hoje
Por Bruce William
Postado em 28 de junho de 2025
O rock brasileiro deve muito a Raul Seixas, que se estivesse entre nós, completaria 80 anos neste sábado, 28 de junho de 2025. Isso não é novidade. O que talvez ainda passe despercebido por muita gente é o quanto sua postura fora do palco moldou não só o comportamento de músicos posteriores, mas também o de influenciadores digitais que hoje movimentam milhões de seguidores sem sequer saber quem foi Raul.
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Raul entendeu cedo que, além da música, o personagem que ele encarnava era uma peça essencial da equação. Desde os anos 1970, usava roupas chamativas, soltava declarações provocadoras e fazia questão de assumir uma postura pública que mesclava rebeldia, ironia e misticismo. Para o público, era difícil separar o artista da figura performática, e essa fusão foi deliberada.
Como artista, alternava músicas densas e longas com canções de refrão grudento, sabendo exatamente como se comunicar com diferentes tipos de público. Como persona, criava polêmicas e tensionava limites, inclusive dentro da própria indústria musical, numa época em que desafiar o sistema ainda podia ter consequências sérias. Mesmo assim, ele insistia em ser notado — ou, como diria hoje, em "furar a bolha".
A fama de criar confusão em torno do próprio nome não era um acidente. Era método. E isso acabou deixando um rastro visível na produção cultural brasileira. Muitos artistas que vieram depois seguiram esse modelo: ser maior que a própria música. A figura do artista como marca, como presença permanente, começou ali.
Conforme aponta Alexandre Matias em matéria publicada no UOL, "a fama de criar confusão para chamar atenção para o próprio trabalho misturou-se com boa parte da produção do rock brasileiro, tornando Raul praticamente a personificação deste gênero - algo que qualquer influenciador digital usa atualmente sem nem imaginar que foi influenciado por ele."
Hoje, essa lógica se repete nas redes sociais. A diferença é que agora não é preciso tocar guitarra nem escrever canções. Influenciadores digitais de todo tipo criam personagens, forçam conflitos, geram controvérsias e viralizam a partir do mesmo princípio: atrair atenção a qualquer custo, mesmo que às vezes pareça absurdo ou incoerente. Sem saber, usam a mesma lógica que Raul já dominava desde os anos 70.
Não se trata de comparar a genialidade musical de Raul com a produção de conteúdo atual, mas sim de reconhecer que o modelo de presença midiática que ele ajudou a estabelecer continua operando. A ideia de se transformar em personagem para se destacar, de causar ruído para ser ouvido, está viva, e mais acessível do que nunca.
Enquanto artistas buscam formas de engajamento nas plataformas digitais, Raul já sabia há décadas que visibilidade não depende apenas do produto final, mas da forma como ele é apresentado. E nisso, ele foi pioneiro, ainda que seu público na época não usasse o termo "engajamento".
O que ele chamava de "sociedade alternativa" hoje se manifesta no algoritmo. O palco virou tela, a plateia virou feed, e os truques de Raul continuam aí funcionando - mesmo que adaptados ao vocabulário e à estética do século 21.
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