O álbum cultuado do Genesis que era rejeitado pela própria banda; "muito inconsistente"
Por Bruce William
Postado em 04 de junho de 2025
No início dos anos 1970, muitos músicos britânicos olhavam para os Estados Unidos com desconfiança. Não se tratava apenas de política ou comportamento, mas de identidade cultural. O receio era perder o sotaque, o humor e a tradição inglesa diante da influência americana, que avançava com força na música e no mercado fonográfico.
O Genesis não ficou imune a esse clima. Em 1973, decidiu lançar um disco que flertava com o folclore e os costumes ingleses — e que, em certos momentos, parecia tentar preservar aquilo que ainda restava da velha Inglaterra. Era quase como se respondessem, à sua maneira, ao que os Kinks já haviam feito anos antes com "Village Green Preservation Society".

A música de abertura já dava o tom: "Can you tell me where my country lies?" ("Você pode me dizer onde jaz o meu país?" no contexto da letra), cantava Peter Gabriel em "Dancing with the Moonlit Knight". O disco misturava comentários sociais, sátira e poesia, mas não de forma direta. Era tudo simbólico, como num teatro de sombras. O álbum soava grandioso, mas deixava no ar uma sensação ambígua — tanto para o público quanto para os próprios músicos.
Ao longo dos anos, "Selling England by the Pound" se firmou como um dos trabalhos mais cultuados da banda. Faixas como "Firth of Fifth" e "The Cinema Show" tornaram-se clássicos incontestáveis do rock progressivo, elogiadas por fãs e músicos do gênero. Mas, internamente, a percepção era bem diferente.
"Como banda, nunca gostamos muito desse disco", admitiu Mike Rutherford em 1984, em fala resgatada pela Far Out. "Tinha muitos altos e baixos." Apesar de elogiar algumas faixas específicas — incluindo também "The Battle of Epping Forest" — ele afirmou que o trabalho como um todo era "muito inconsistente".
Na visão dele, o álbum ficou abaixo de outros momentos mais inspirados da banda, como "The Lamb Lies Down on Broadway" ou "A Trick of the Tail", que foram mais desafiadores musicalmente e mais coesos como obra. Mesmo o caráter conceitual de "Selling England" não foi suficiente para que o grupo o enxergasse como um ponto alto da discografia.
Ainda assim, o disco segue como um dos favoritos do público. Talvez porque capte, com sua mistura de confusão e nostalgia, algo que continua atual: a busca por um lugar reconhecível em meio às mudanças — mesmo que esse lugar só exista na lembrança.
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